Pride

“Não quero voltar ao Brasil tão cedo”, diz Marcela Ohio após calendário transfóbico



Por Nto Lucon

Vivendo na Tailândia e trabalhando para a casa de shows Tifanny’s, a modelo brasileira Marcela Ohio se surpreendeu com a polêmica da peça publicitária “The Shemale Calendar” (O calendário da travesti), na qual foi capa há dois anos e que teve o conteúdo considerado transfóbico nesta semana. Ele compara travestis e mulheres transexuais a peças de automóvel falsas.

Marcela diz com exclusividade ao NLUCON que é por causa de situações como esta – e pela falta de oportunidade no mercado de trabalho - que não pretende voltar ao Brasil logo.

+ Marcela Ohio diz que família tem papel importante no futuro de uma trans

+ Marcela Ohio vira Mona Lisa em ensaio de Gerson Roldo; veja
+ Marcela e misses T posam para editorial ousado de Roberta Brandão
.
"Não quero voltar ao Brasil tão cedo. Aqui, além de ser valorizada como profissional, sou respeitada em qualquer lugar. Ninguém me olha diferente e eu só recebo elogios. Tenho trabalho todos os dias, de segunda a segunda e só tive três dias off em um mês. Eu gosto dessa correria, quero evoluir bastante e fazer a minha vida aqui”, afirmou ela, que conheceu a Tailândia após vencer o tradicional Miss International Queen. O concurso elege a mulher transexual mais bonita do mundo.

Na propaganda da empresa de peças automotivas Meritor, que voltou à mídia nesta semana após ser publicada no Facebook do 39º Anuário do Clube de Criação, Marcela aparece ao lado de outras modelos travestis ou transexuais para falar sobre a importância de usar penas originais nos veículos. Porém, com a descrição “Se não é original, mais cedo ou mais tarde, você sente a diferença”, a campanha da agência publicitária Leo Burnett Tailor Made acaba comparando as modelos trans a peças falsas.

Marcela afirma que, a princípio, os contratantes disseram que o calendário seria para outra marca (a Fiat, de acordo com a modelo Rafaela Manfrini para a Buzzfeed) e que depois mudou. “Distorceram muito até chegar nisso e com a exposição de RG e com a edição de nossos rostos no photoshop. A gente não sabia que seria assim. Eu já tinha visto faz tempo, mas só agora veio a mídia. É claro que me senti ofendida, mas nada que mude novamente o meu humor, pois agora estou bem onde estou. Fico triste pelas meninas que ainda vão se sujeitar ou cair nisso”, declarou ela.

Em recente entrevista ao NLUCON, Marcela afirmou que o fato de ser mulher transexual é visto com muito preconceito pelas agências de modelos e empresas de publicidade. E que a transfobia fala mais alto no momento de conseguir trabalhos na área. "Na Ásia somos respeitadas de verdade". 





.
EMPRESA SE DESCULPA

Marcelo Reis, que é sócio e copresidente da agência, declarou que o intuito da campanha não foi ofender as trans. “Esse calendário foi criado há mais de 2 ans, de forma equivocada, mas sem o intuito de ofender ninguém. Já na primeira semana de distribuição solicitamos para as oficinas que não fosse fixado nas paredes. A peça foi inscrita no festival do Clube de Criação por uma falha nossa. Somos uma empresa que sempre respeitou e apoiou a diversidade. Eu, Marcelo Reis, peço desculpas. Lamentamos o constrangimento causado. Já solicitamos ao Clube de Criação que o trabalho seja retirado do Festival, por não estar alinhado com nosso modo de pensar e agir”.

Já a Meritor publicou um comunicado no Facebook no qual tira a sua responsabilidade da campanha. "Como a maior parte das empresas, a Meritor possui uma política clara para uso da sua marca como logotipo. Essa política não foi seguida nesta situação. A empresa acredita que um colaborador pode ter aprovado inapropriamente o uso de seu nome e logotipo. No momento, a companhia está se reunindo para levantamento de detalhes sobre o assunto. A Meritor não apoia campanhas dessa natureza".


DISCUSSÃO MOSTRA MUDANÇA

Após a polêmica que se estabeleceu nas redes sociais, muitos internautas questionaram a militância, sobretudo o concurso Miss T Brasil – do qual as meninas do calendário foram descobertas e que Marcela foi a vencedora daquele ano.

“Não teve nenhuma relação com o concurso. O problema é que, por ingenuidade, elas acabaram assinando o contrato sem estudar ou perguntar como seria. Elas pensavam que era um calendário de outra marca famosa”, declara Majorie Marchi, que assessora algumas modelos.


Apesar do desrespeito na época, Majorie vê a polêmica como positiva. “Fiquei esperançosa de ver o bafo, pois as críticas e reflexões são positivas para a causa como um todo. Foi mágico ver a própria categoria profissional recusar a peça publicitária e pressionar os criadores. Li críticas bacanas de profissionais da categoria – e não só do próprio grupo - e isso não aconteceria anos atrás, passaria batido”.

Para Majorie, a polêmica é um forte indicador da mudança de visão e de comportamento por parte da sociedade. “Estamos iniciando um processo de humanização e qualificação do grupo”. Ou seja, fica evidente que não pega bem (e não dá mais para) desrespeitar ou fazer chacota com travestis e mulheres transexuais nas propagandas - ou em qualquer outro lugar. Anotem aí!

(Atualizado: A ANTRA - Articulação Nacional das Travestis e Transexuais também enviou nota de que, ao contrário do logotipo utilizado no calendário, não estava ciente do conteúdo do mesmo).

Abaixo, Marcela Ohio linda, feliz e trabalhando no teatro da Tiffany's. 




About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.