Pop e Art

Revista Sexy traz mulheres e homens trans nus para falarem sobre transexualidade



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A mais nova edição da revista Sexy (R$14,90)– com a panicat Karol Schwonke na capa – traz no recheio três mulheres transexuais e dois homens trans nus. Mas não se trata de um ensaio sensual à lá Roberta Close – a única a posar para a capa da publicação desde os anos 90. É uma matéria jornalística de Bianca Castanho que pretende discutir transexualidade.

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Nas duas primeiras páginas, Ariel Nobre, Ledah Martins, Emily Domingos, Robis Ramires e Renata Bastos aparecem totalmente vestidos com a pergunta “É menino ou menina?”. Nas duas seguintes, eles aparecem nus, revelando os seus genitais, e a resposta: “Não é da sua conta”. “Mas a transexualidade é. E já passou da hora de falarmos abertamente sobre isso”.

Curiosamente, após a exposição de corpos desnudos, a reportagem explica que transexuais não são “mulheres com pinto” ou “homens com xoxota”. E começa a falar sobre gênero. O ativista e ex-ator pornô Buck Angel afirma: É um desafio explicar para as pessoas que só porque eu tenho uma vagina não significa que eu seja mulher. Fomos ensinados a determinar o gênero de alguém baseado no que ela tem no meio das pernas. Isso precisa ser revisto”.



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Ao longo da matéria, que também traz especialistas como a doutora em sociologia Berenice Bento, dá-se um panorama geral da questão trans no Brasil. A população, segundo a especialista cis, "mais marginalizada do Brasil. Por exemplo: os negros sofrem, mas têm a família. Agora as transexuais são expulsas de casa, porque as famílias têm vergonha delas".

Uma aula rápida para quem não acompanhada o assunto. Sexualidade, processo transexualizador, o projeto de Lei João Nery (PL 5002/2013) – também conhecido como Lei de Identidade de Gênero, que vai facilitar a retificação de documentos de travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades – transfobia, patologia e assassinatos são abordados. 


Dentre os relatos: “A gente vive com medo. Minha mãe diz que, quando eu saio de casa, ela tem receio de que eu não volte”, diz a maquiadora Ledah. "Enquanto as mulheres trans são humilhadas nos banheiros, nós corremos o risco de ser violentados", afirma o publicitário Samuel Silva

CONQUISTA

Apesar de já questionarem nas redes a necessidade da exposição de corpos nus - reforçando a genitalização sem cachê e o título "Meu corpo não sou eu (???)" -  o espaço é visto como uma conquista. Vale informar que há alguns anos o NLUCON ofereceu uma matéria similar e também sugeriu uma modelo transexual para posar para a publicação. A resposta que recebemos foi uma estrondosa gargalhada e a resposta: “Aqui gostamos de mulher de verdade”.

E, apesar de a revista de Roberta Close ter sido a mais vendida da história (segundo a ex-editora Ana Fadigas em entrevista - leia aqui) a abordagem do assunto sempre foi superficial.


Agora, em meio à publicação destinada à masturbação de homens cis héteros, os leitores terão que se deparar com oito páginas falando sobre o assunto. E recebendo notícias como a de que o Brasil é o país que mais mata trans no mundo, representando 51% dos assassinatos – segundo a ong Transgender Europe. Rola até a dica: “Tire um tempo para pensar, vai buscar um café, reflita. E, cá entre nós? Aceita que dói menos”. Que passe a servir para a revista também. 

Ledah falou sobre a experiência de participar da matéria em seu Facebook: “Hoje consigo enfrentar meu reflexo no espelho sem me rejeitar ou me envergonhar do que sou. Hoje eu amo a minha imperfeição e quis carinhosamente dividi-la com vocês! Foi libertador pra mim, tive essa coragem por mim e por todas as pessoas trans que sofrem o que eu sofri e ainda sofro. E eu sei que comentários maldosos virão, mas esses não me atingem mais. Hoje estou emponderada o bastante pra exibir minha auto confiança na cara de quem me julga!”.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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