Entrevista

“Saiam do armário”, diz Fernanda de Moraes às mulheres transexuais redesignadas



Por Neto Lucon

A amazonense Fernanda de Moraes, 44 anos, é assistente social formada pela UNESP e militante histórica do movimento de travestis e mulheres transexuais. Radicada em São Paulo, é conhecida pelo pulso firme, sangue quente e por estar longe de ficar em cima do muro. É exatamente por esse motivo que é amada ou odiada. “Comigo não tem meio termo”, admite.

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Ela também é presidente do Instituto Aphroditte, é coordenadora do Fórum Paulista de Travestis e Transexuais e é Iyalorixá (tendo a identidade feminina reconhecida pelo candomblé). Também é a voz de quem luta pelo reconhecimento da identidade T – “Dentro do LGBT temos três Ts: travestis, mulheres transexuais e homens trans”, afirma toda vez que tentam substituir tais identidades por outras.

Em encontros e eventos, não é difícil se deparar com pessoas que foram acolhidas e levadas para a militância por meio de Fernanda. E, em contrapartida, vê-la protagonizando brigas e sendo alvo de acusações – que até hoje nunca foram comprovadas. Como fruto de seu trabalho, recebeu o título de “militante da década” durante o Encontro Regional Sudeste no último ano, em São Paulo.

Polêmica e resistente, Fernanda é exemplo de mulher transexual forte, sobrevivente e que não foge da luta. Na entrevista abaixo, mostra mais alguns motivos para amá-la ou odiá-la. Nós, do NLUCON, que estamos longe da competição de egos e dos conflitos, amamos, ok? O bate-papo ocorreu em uma padaria no centro de São Paulo.

- O Encontro Regional Sudeste de 2014 teve o tema “Avaliando Políticas Públicas para a Efetivação da Cidadania”. Qual foi a conclusão que vocês tiveram sobre as políticas públicas que existem para a população de travestis, mulheres transexuais e homens trans?

O que podemos perceber é que nos quatros estados da região sudeste algumas políticas andam, mas com falhas. Existem alguns municípios em que o nome social funciona efetivamente, mas nas capitais não funciona. O processo transexualizador ainda há um entrave nos quatro estados e o cartão do SUS também é. Ou seja, as políticas existem para esta população, elas estão aí, mas não são efetivadas, principalmente nas capitais. Existe um descaso do poder público em relação a isso. Por exemplo, no Estado de São Paulo temos a lei 10948, que fala sobre a discriminação de orientação sexual e identidade de gênero, mas não vemos nenhuma alusão desta lei na Assembleia Legislativa (onde ocorreu o encontro). Para piorar, chega um deputado estadual para discursar e diz “o” travesti, desrespeitando a identidade de gênero do grupo. É sinal de que nada foi respeitado e que nada está sendo efetivado.

- Teve algo nos debates que tenha te surpreendido e que mostre um problema?

Uma das mesas que falava sobre saúde e aids me surpreendeu, pois vi que se passaram 10 anos e gestores ainda confundem identidade de gênero com orientação sexual. Me incomoda saber, por exemplo, que travestis ainda são somadas ao número da população HSH (homens que transam com homens, mas não se identificam necessariamente como homossexuais). Isso me deixa chocada, pois a Saúde não tem o número de quantas nós somos e, sem este número, acabamos não tendo políticas específicas. Me incomoda também quando gestores dizem que a homofobia é um termo guarda-chuva e que a transfobia está dentro dele. Não, não está. Sabemos que é um preconceito específico.

- Explica para os leitores qual é a diferença de homofobia e transfobia...

A transfobia é um preconceito contra travestis, mulheres transexuais e homens trans. É voltado para pessoas que tem a identidade de gênero que diverge daquela que foi imposta no nascimento. Ou seja, pessoas que sofrem todos os tipos de violência porque não vivem com o gênero que a sociedade impõe. Ela é impedida de ser chamada pelo nome social, ela é impedida de ir ao banheiro de acordo com a sua identidade de gênero, é ela tratada como uma farsa. Já a homofobia é outra coisa, é quando a pessoa sofre preconceito de acordo com a sua orientação sexual e na relação com o outro. Aparece quando uma lésbica, um bissexual ou um gay não pode beijar, é impedido de casar, é discriminado pela sua vida afetiva.

- Qual é o principal direito que as travestis, mulheres transexuais e homens trans devem ir atrás?

É a identidade civil, o reconhecimento desta identidade. E eu não estou falando de nome social. O Neto é o Neto e, quando ele vai apresentar o RG dele, não vai estar escrito Maria e não vai sofrer constrangimento. Mas se for uma travesti, ela vai enfrentar vários entraves, seja para arrumar emprego, para ser atendida num posto de saúde, para viajar... O direito maior é o da identidade civil, é a retificação do documento.






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- Você acha que nome social é uma medida paliativa?

Não, ela é uma iniciativa necessária, é uma medida afirmativa. Existe essa necessidade, até porque na militância política social existem travestis e homens trans que não querem fazer a mudança de documento, até para saber onde o preconceito se concentra. Além disso, para fazer a retificação do documento, o nome social conta muito porque é a prova de que aquela pessoa é conhecida socialmente por aquele nome cotidianamente.

- O encontro Regional Sudeste de TT propõe alguma solução para os problemas? Qual é a avaliação que você faz dele?

A gente não queria reinventar o que já existe nestes 10 anos. Vai existir um documento que vai ser encaminhado para todas as ONGs que vieram, uma carta para os quatro Estados... A ideia é que as pessoas que estiveram presentes encaminham o que foi discutido para os gestores do Estados e municípios para que haja uma melhor articulação, porque estas políticas não estão acontecendo. Quando à avaliação, esperava que aparecesse mais gente, pois tínhamos mais de 200 pessoas inscritas e menos da metade aparece e, quem não foi, sequer deu satisfação. Mas a minha avaliação do encontro foi ótima. Tudo o que eu me propus a fazer neste encontro, da Marcha até a festa de encerramento, com o Prêmio Thelma Lipp, nós conseguimos fazer. Foi um evento muito produtivo, todas as pessoas que participaram ficaram maravilhadas pela articulação políticas e os debates.

- O Prêmio Thelma Lipp é uma homagem à modelo travesti que marcou os anos 80 ao lado de Roberta Close e que morreu há 10 anos. Você chegou conhecer a Thelma?

Em três momentos da minha vida. Uma vez quando eu era muito adolescente em Manaus e ela estava em uma das caravanas do Bolinha. Fiquei encantada com a beleza e a simpatia dela. Outra quando vim para São Paulo em 1999, quando cruzei com ela pela Rego Freitas e tive a oportunidade de conversar com ela. E um pouco antes da morte dela. Decidimos criar um prêmio com o nome dela, porque ela representa um marco ao lado da Roberta. Não vou dizer que ela tenha tido importância para o movimento social e político. Mas só o fato de ela dizer que é travesti na mídia nos anos 80 já era um grande ganho para todas as travestis.

- Teve alguma dificuldade em promover o Encontro que queira ressaltar para não ocorrer o próximo?

A dificuldade está exatamente em negociar com o poder público, em negociar com o governo do estado. Você apresenta o projeto e já começam todos os entraves: “Não pode isso, não pode aquilo, os outros Estados também devem bancar”. Para ser sincera, o maior entrave foi negociar com a Secretaria de Justiça, pois houve um grande corte no evento. E vou falar em valores: A Secretaria da Justiça, por meio do Conselho LGBT de São Paulo, falou que daria uma verba para realizar o evento. A verba diminuiu e, depois, diminuiu de novo. Acabamos ficando sem jantares no hotel. O jantar do último dia, por exemplo, foi bancado pela Marcia Rocha, Cássio Rodrigo e Heloísa Gama Alves.


- Durante a Marcha foi possível ver uma presença forte dos homens trans. Você percebe que eles estão vindo com tudo nos últimos anos?

Eles sempre estiveram junto com o movimento, pois nomes como o do Regis Vascon, do Xande Peixe dos Santos e outros sempre fizeram parte da luta. Mas de fato é um movimento que está se fortalecendo. Historicamente, as travestis iniciaram o movimento de militância, a partir delas surgiu o das mulheres transexuais e eles nasceram da gente. Foi uma gestação dupla, em que os meninos já começam a andar com as próprias pernas. Percebo que a articulação começou a ocorrer mais fortemente durante o 20º Entlaids, em Curitiba, em 2013, e que o IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades) é hiper válido, hiper produtivo e importante. Algumas meninas reclamam que eles ficam segregados nos encontros, mas sempre explico que são nestes momentos que muitas vezes eles conseguem se reunir, trocar ideias e conversar. Estamos na mesma luta e fazemos parte do mesmo T: travestis, mulheres transexuais e homens trans.

- Você sempre reforça os três Ts. O que acha de movimentos que se intitulam com outros termos: transgente, transgênero, não binário... ?

Acho que estas pessoas deveriam sair detrás de suas bancadas, escritórios e computadores e vir a engrossar o movimento e venham conversar com a gente. O movimento não precisa ser só LGBT, ele tem que ser LGBTNBXLZ. O que me dói é ver pessoas aparecendo agora e querer colocar tudo debaixo do guarda-chuva transgênero, esquecendo da nossa história de militância brasileira e destruindo tudo o que construímos. No discurso até pode ser muito bonito falar sobre transgênero como guarda-chuva, mas esquecem que a realidade de uma travesti, de mulher mulher transexual e de um homem trans é muito diferente da de uma drag queen, de uma crossdresser ou de qualquer outra pessoa dentro deste guarda-chuva. Esquecem que nós temos, sim, uma identidade definida e que nossa luta é pelo reconhecimento desta identidade. Tem gente que diz que gritamos e brigamos demais, mas isso é movimento social, a gente briga, discute, faz votação e define entre o grupo – e não por rede social.

- Já que estamos falando sobre termos, você se define mulher transexual, né?

Eu sou uma mulher transexual. Já passei por todo o processo de readequação de sexo, de documento... Mas tem horas que as pessoas me perguntam, e eu respondo: Isso faz diferença? Porque na hora da luta e da reivindicação, isso não interessa. Porque na hora de as pessoas olharem para mim, elas vão me olhar como uma travesti. O mais importante é que todas nós tenhamos os direitos reconhecidos. Fora isso, o processo transexualizador é o mesmo. Tudo o que as travestis precisam, nós precisamos. A Keyla Simpson e a Fernanda Bevenutti dizem: “As travestis só param na porta do centro cirúrgico, onde a transexual entra”. Fora isso, as políticas são basicamente as mesmas. Agora um termo que eu abomino é transex. Ele foi criado porque travesti é pejorativo, é marginal. Então as pessoas adoraram o transex para falar de uma travesti arrumadinha, mas que também está em site de prostituição. As pessoas rejeitam a palavra travesti porque está ligada à prostituição, mas esquecem que mulheres cis e mulheres transexuais, inclusive readequadas, também fazem programa.

- Fernanda, muitas mulheres transexuais após passar pela redesignação sexual, se afastam da militância e preferem a invisibilidade. Por que isso não aconteceu com você?

Acho que fui contaminada pelo vírus da militância. Muitas vezes, mesmo eu não sofrendo preconceito, não consigo ver uma irmã minha travesti, um irmão meu homem trans, ou uma irmã transexual sofrer preconceito e ficar calada. Não consigo viver nessa invisibilidade e eu sei que não sou uma mulher comum. A minha vagina é artesanal, foi construída por quatro mãos e eu amo a minha diferença. Eu sou uma mulher única em meio a tantas outras. Sinceramente, eu me entristeço quando vejo mulheres transexuais querendo parecer mulheres cis. Eu quero é que as pessoas saibam que eu sou transexual, pois quero que a minha cidadania e de outras mulheres como eu sejam garantidas.

-O que você diria para as mulheres transexuais que querem ser vistas como mulheres cis?

Diria para elas saírem do armário. A gente luta tanto para sair do armário e muitas querem justamente voltar para o armário. Isso tem que ficar claro: a transexualidade não vai diminuir a mulher que você é, ela vai é te fortalecer como mulher. Vai engrossar toda uma população que já existe e que merece ter a mesma cidadania que qualquer mulher cis. Revelar-se faz parte de um momento histórico para que, um dia, possamos ver uma mulher transexual ou uma travesti na presidência da república, sendo deputadas estaduais, sendo vereadoras. Isso é fazer a diferença, isso é fazer cidadania. Se eu me escondo como uma mulher cis, não vou nunca mudar a sociedade transfóbica. Eu quero ser uma cidadã que faz a diferença e que mostra que é diferente. Agora, cada uma faz o que quer da sua vida.



- Quando e como você começou ou foi picada pelo vírus da militância?

Eu venho na militância desde o movimento estudantil em Manaus. Fui uma criança e uma adolescente muito precoce, diferente e inteligente. Eu entrei no segundo grau com 12 anos, então com 15 anos eu já estava me formando. Eu sempre andava muito com as meninas, não tinha problemas de ser apontada como “bichinha”, até porque eu era a CDF da sala e passava cola para todo mundo. A militância começou desde o movimento estudantil com o meu grupo de amigos. Quando vim para São Paulo em 1999, fazia a faculdade de medicina na Universidade Estadual do Amazonas e tentei transferência para a USP. Só que não conseguia estágio, porque não havia trocado a documentação e a transfobia era forte. Acabei tendo que sobreviver em São Paulo por meio da prostituição, mesmo não querendo isso para mim. Foi aí que consegui conhecer pessoas e projetos. Em 2001, conheci o projeto Rua Paim, que fala sobre prevenção para travestis profissionais do sexo, que me levou a voltar para a militância. Em 2003, escrevi um projeto que dizia que a prostituição deveria ser uma opção, e não uma imposição social. Depois entrei para a Unesp em serviço social.

- Antes de vir pra São Paulo você já havia iniciado o processo transexualizador?

Eu já era a Fernanda no meu círculo de amigos e dentro da minha família já existia o conflito. Para mim nunca foi um problema porque – ah, não vou dizer que sempre fui feminina – não existia o problema porque eu sempre fui bem resolvida. Lembro quando vi a Roberta Close na televisão e o Chacrinha disse que “ela era homem”. Pensei: Quando eu crescer quero ser como ela”. Foi aí que entendi que entendi que não era o filho que meu pai sempre sonhou e que eu tinha horror de parecer com ele. Quando minha mãe e a minha irmã perguntaram o que eu tanto queria fazer em São Paulo, eu disse que queria viver a minha vida. Não que eu quisesse viver longe da minha família, mas sabia que precisava sair de lá. No meu processo, a minha mãe me levou no posto e o doutor falou pela primeira vez sobre transexualidade. Foi quando a minha mãe começou a entender o que eu que era.

- Por falar em mãe, você também é mãe... Conta?

Apesar de muita gente me perguntar se eu engravidei (risos), eu sou mãe adotiva. A minha filha na verdade é a minha sobrinha, por isso a genética ajudou bastante. Ela foi fruto de uma relação extraconjugal da minha irmã, que já estava separada. Eu estava com 16 anos, já tinha terminado o segundo grau, e namorava um rapaz. Quando a criança nasceu, a minha irmã continuou tendo problemas com o meu cunhado. E eu acabai pegando ela para criar. No começo foi aquele alvoroço na família: “Como você vai criar? Você é menor de idade!”. Mas eu tive o apoio dos meus pais e do então namorado. Eu fui morar com ele e a gente acabou constituindo na época uma família hétero como qualquer outra. Ela cresceu, é uma mulher linda casada, com filho e que mora no Mato Grosso.

- E como anda a sua vida amorosa?

Estou enrolada de novo com o pai da minha filha, mas já fui casada e perdi dois maridos. Só não vale me chamar de viúva negra, pois amei muito os dois. O primeiro eu não cheguei a viver, mas foi uma pessoa que eu estive muito próxima durante quatro anos da minha vida. Foi uma pessoa muito conhecida em São Paulo, destemido, decidido e corajoso. E o segundo, que Deus levou em 2010, foi o homem da minha vida. Vivemos nove anos juntos e ele me fez muito feliz. Ele tinha uma família no interior, mas nunca me escondeu. Foi numa época que eu estive na igreja evangélica, pois fui criada entre a igreja evangélica e o candomblé.

- Você é evangélica e Iyalorixá?

Fui criada nas duas religiões, pois minha mãe era de candomblé e a minha vó era evangélica. Amo candomblé e não consigo viver ser, da mesma forma que amo a igreja evangélica. Mas muitas vezes acabo não indo na igreja evangélica porque não consigo escutar alguns discursos. Como falar somente do evangelho da prosperidade, do enriquecimento, que todos os crentes terem que ser prósperos e ricos. Para mim, prosperidade é pagar as suas contas, ter uma vida estável e deitar a cabeça no travesseiro tranquilamente. É por isso que voltei com força para o candomblé em 2010.

- Voltou para Manaus depois disso? Como anda a vida de travestis e mulheres transexuais de lá?

Não volto desde 2010. Ainda tenho algumas conhecidas e pelo que sei a militância não avançou muito. As próprias travestis ainda se tratam como gays e lá ainda se fala de Parada Gay – e não LGBT – Miss Gay, sem a ênfase de enfatizar a questão trans. Sinceramente me dói saber que no estado que eu vim ainda não temos essa militância forte. Não só no Amazonas, mas no norte como um todo.

- Fernanda já esteve em algumas brigas dentro da militância. Você sempre teve esta personalidade forte?

Minha mãe diz que eu tenho esta personalidade forte desde criança. Eu sempre soube o que eu queria ser na vida e o que eu quero. Eu sou assim, polarizada. Eu me mostro exatamente que eu sou e, por isso, ou as pessoas me amam ou me odeiam. As pessoas sabem que, se eu puder ajudar, eu ajudo. Mas se eu não posso, eu vou dizer claramente que não e ponto.

- Quando você chora?

Quando eu choro? Ah, com injustiça, com falta de reconhecimento, com preconceito... Às vezes o preconceito me faz chorar de raiva... Choro pela saudade de quem já se foi, de quem não estou perto... Já perdi muitas amigas assassinadas, não só pela violência policial, mas também pelo HIV. Estava conversando com uma amiga por telefone e concluímos que dá para contar nos dedos aquelas que vieram para São Paulo e que ainda estão vivas. Isso dói e me faz chorar.

- O que você acha das novas gerações?

Acho que elas começam o processo muito mais cedo – o que é bom. Mas também saem da escola muito cedo, elas são excluídas pela família muito cedo e também entram na prostituição muito cedo. Eu entrei na prostituição porque foi imposto, mas elas já vêm para São Paulo para se prostituir. E muitas vezes já se prostituem nas cidades delas. Muitas acabam não tendo outra perspectiva de vida que não seja na prostituição.

- Mas você acha que a prostituição seja um problema?

É um problema quando ela é imposta. Só que essa opção só acaba sendo percebida quando ela está na meia idade, quando já está com o corpo transformado, quando a identidade já está definida. Mas no início a prostituição é problema, sim, porque acaba sendo uma imposição social e de preconceito. Se ela não estiver na prostituição, vai estar trabalhando onde - sendo que a família expulsou, a escola não comporta e a sociedade marginaliza? A prostituição no meio das travestis se tornou cultural, porque mesmo na década de 90 se falava muito em travestis prostitutas, que saíam com deputados federais, e que ganhavam 20 mil reais. Ou seja, criou-se um sonho de consumo em cima da prostituição. Um sonho de poder se manter sozinha longe da sociedade preconceituosa e machista. Uma cultura que mostra que, sendo ricas, elas podem comprar essa sociedade. Daí acaba vindo a questão da cafetinagem – onde algumas são vistas como mães, mas que outras acabam batendo, explorando – o uso de drogas e um monte de coisas que não deveriam ser aprendidas. Tem aquelas que conseguem peneirar, mas tem aquelas que acabam mergulhando neste submundo. É importante dizer que não é uma questão apenas da população de travestis. É para a população em geral.

- Algumas pessoas vão achar um pouco moralista esta opinião. Tem algo positivo na prostituição?

Para mim – que fiquei de 1999 a 2003 – valeu a experiência, pois ajudou a construir a minha personalidade, saber o que eu quero ser, ganhar dinheiro, construir o meu corpo e ajudou na educação da minha filha. Muitas vezes você pode escolher a vereda que quer da prostituição. Você pode ser aquela que ganha na moral ou que ganha na tora, que faz beija e acontece. Levo o discurso da Gabriela Leite: “Hoje em dia posso dizer que sou mãe, avó e puta”.




- E o silicone industrial: é algo que deve ser combatido ou ainda é um mal necessário?

Não vou dizer que sou contra e nem a favor. As pessoas falam muito mal do silicone industrial quando veem corpos deformados, mas as pessoas esquecem que há pessoas com corpos lindíssimos e que nunca tiveram problema. Eu mesma tenho silicone industrial no meu corpo e nunca tive problema. Às pessoas olham para mim e diz: “ o seu pé está inchado”. Mas eu sempre tive problema de circulação, antes mesmo do silicone. Não vou dizer que ele seja um mal necessário, mas foi uma época em que eu vivi. A gente tem que pensar em redução de danos. Se quiser bombar, bomba com consciência. Ou seja, não precisa exagerar, pois se você andar nos locais de prostituição você já não vê aqueles corpos grandes. E além disso, como elas se assumem cada vez mais cedo, elas já aparecem muito femininas. E daí elas colocam no máximo 2 litros para não ser prejudicial. O silicone é como uma cirurgia plástica e vai de quem tem sorte para ficar bem com a plástica. Existem tantas atrizes, tantas mulheres cis que passam por cirurgias e que não ficam felizes com os seus corpos, e acabam tendo problemas com a cirurgia.

- Como é a sua vida atualmente?

Estou morando numa ocupação, de movimentos de moradia, e estou desempregada. Acordo às 9h e vou atrás de viver como dona de casa, correr atrás do meu, fazer bicos, palestras e dar aulas como assistente social. Se eu tiver que me virar fazendo programa, faço de boa. Não gosto de fazer, porque não tenho paciência para satisfazer desejo de homem. Mas se rolar um programa que me seja rentável, eu faço.

- Qual é o seu sonho?

Gostaria de ficar mais perto da minha mãe, que está velhinha e que eu gostaria de passar um tempo com ela. Gostaria que o projeto de Lei da identidade de gênero, do Jean Wyllys (PSOL-RJ) e da Érika Kokay (PT-DF) fosse votado e aprovado. Sonho com o dia em que uma travesti ou mulher transexual consiga se eleger pelo senado ou para a câmara. Já pensou numa travesti presidente?

- E mostrando que travesti não é bagunça? Acho ótimo. 





About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

Solange Transgênero Lanz disse...

Ressaltando que título de “militante da década”, é de um evento da mesma, ela mesma se premiou! Assim não vale dá?

João WalterNery disse...

Parabéns Fernando, brilhante entrevista!

Instituto Brasileiro de Transmasculinidades disse...

Dizer que o evento é da Fernanda é fazer um apagamento de todos nós que estivemos envolvidos, assim como de todas as outras entidades. O Encontro Sudeste é um projeto da ANTRA. Foi realizado em SP em 2014 sob a coordenação do Fórum Paulista que abarca várias instituições trans do estado de SP. A Fernanda foi premiada pelo mérito inegável da sua atuação.

Midori Simbine disse...

Parabens,e legitimo quando voce se refere ao uso do silicone industrual.

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