Entrevista

“Se eu for só passiva, fico sem namorado”, diz atriz pornô trans Carla Novaes



Por Neto Lucon
Carla Novaes roubou a cena durante o Prêmio Sexy Hot, em agosto em São Paulo. Alta, loira e dona de medidas esculpidas, a atriz pornô trans apareceu em um vestido branco transparente (que deixava o bumbum à mostra) e definitivamente “causou” na premiação.

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A loira concorria na categoria “Melhor filme LGBT” pela cena que fez com o ator pornô cis Toni Lee. Mas o filme acabou perdendo para o “Gatas e Gatas 2”, que era protagonizado por cis lésbicas. Muita gente questionou o motivo de as produções concorrerem na mesma categoria, mas era “o que tinha” para a data.

Elegante, Carla continuou sorridente no espaço e disse que foi um “privilégio” ter sido indicada no Oscar pornô e que era uma prova do seu prestígio na indústria pornô. Foi entrevistada por todos os repórteres: do CQC, da Band, G1, UOl... E é claro que deu uma palavrinha com o NLUCON.

Aos moralistas de plantão, o bate-papo foi feito em um cerimônia que fala sobre sexo e produções eróticas, logo...

- Carla, como entrou na indústria de filmes eróticos?

Começou quando eu tinha 18 anos. O convite surgiu por eu estar na internet, e por ter várias fotos e fãs. Os diretores me conheceram, me ligaram e pediram para eu fazer um teste. Fui lá na maior tranquilidade, fiz o teste, eles acabaram gostando e eu acabei entrando para a indústria. Amo gravar.


- A indústria anda em declínio, se comparada com as produções de 2005, com Alexandre Frota, Rita Cadillac. Por qual motivo continua em evidência até hoje?

Acabei ficando porque, sem modéstia, sou muito boa de cama e gosto do que faço. Eu nem sabia que era tão boa assim (risos), mas os diretores e o público sempre elogiam minhas performances. Fiz vários filmes por um ano, dois anos, três anos, quatro e atualmente somo 10 anos de carreira. Acho que o fato de eu ser trans também é um diferencial.

- Dez anos? Uau... Como foi ser indicada ao Prêmio Sexy Hot?

É uma honra e eu me sinto prestigiada e emocionada por concorrer, independente do resultado. O fato de eles incluírem uma categoria LGBT é sinal de que as portas estão se abrindo para a gente.

- Mas fala sério: não é desconfortável transar com uma câmera e alguém dirigindo as posições, movimentos?

Jamais! Eu fico excitada de verdade e fico imaginando quem está do outro lado das câmeras. Curto as cenas, o parceiro e de ser filmada. Quem já viu os bastidores sabe que estou falando a verdade. 

- O que já aconteceu de mais curioso em cena?

Olha, eu já fiz bastante coisa bizarra. Mas, para mim, o mais louco é o sadomasoquismo. Acho uma loucura quem sente tesão em dor. Eu nunca gravei recebendo, só fazendo, mas também estou disposta a receber também viu? Quem sabe num futuro filme. Quase tudo o que é diferente e curioso, eu estou topando.




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- Você grava só com homens?

Apesar de ser hétero, gravo com mulheres (cis), com trans, com homens... Só com animais que não. Mas com o resto, todo mundo e sem preconceitos. E adoro ativa e passiva. 

- Sendo hétero, sente tesão quando grava com travestis, mulheres transexuais ou cis?

Para falar a realidade, qualquer pessoa pode despertar tesão. Depende muito da pegada. Eu não gosto de trans no sexo particular, por exemplo, mas já saí com várias trans em filmes que acabei me simpatizando, gostando, e que foi melhor que um homem na cama comigo. Então, não tenho isso de transar só com homem na minha vida ou nos filmes. Outras possibilidades já me fizeram muito feliz na cama.


- Você disse que adora ser ativa. Isso se aplica na vida privada?

Ativa e passiva, sempre. Se eu for só passiva com o namorado, vou perder ele. Então é melhor ser ativa e passiva, sem preconceito. Acho que entre quatro paredes pode e vale tudo, se os dois querem. O mundo está mais aberto a tudo isso e ter preconceito com o fato de o cara ser passivo ou de uma trans ser ativa só atrapalha. Já deveríamos ter passado dessa fase. Aprendi que o importante é sentir prazer.

- Aqui você foi entrevistada por vários jornalistas. Acha que eles estão mais preparados? 

Acho que aos poucos eles começam a tratar a gente com mais respeito. O menino do CQC perguntou se poderia brincar e eu - como estou em um evento pornô - permiti. Outro jornalista acabou perguntando se eu tinha operado (feito a redesignação sexual) e eu disse que, no meu caso, em time que está ganhando não se mexe. Não me senti desrespeitada, pois eles acabam perguntando antes se pode ou não fazer tal pergunta.  

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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