Pride

Após batalha por nome social, aluna trans diz: "Não serei mais vista como uma mentira"

Se para qualquer pessoa ingressar na universidade é um momento de mudanças e desafios significativos por toda a vida, para muitas alunos homens trans, travestis, mulheres transexuais e outras transgeneridades a vida (leia-se “peleja”) acadêmica começa antes mesmo do início das aulas - que podem nem vir a acontecer.

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Trata-se do reconhecimento pelo nome social e pelo respeito pela sua identidade de gênero. Ou seja, pelo direito de ser tratado e respeitado como de fato você é.


Imagine se dividir entre torcer para ser aprovado e se deparar na lista com um nome que não te representa? Ou então se ver novamente diante deste nome em listas de chamada, comunicados, trabalhos e enfrentar o estigma da chacota entre os colegas... Embora a faculdade seja o espaço onde perpetua-se a busca por conhecimento, este mesmo ambiente pode ser tão traumático e preconceituoso quanto qualquer outro.

Os relatos evidenciam que o desrespeito ao nome social remete a um passado cheio de marcas, deflagra o risco de viver em uma sociedade transfóbica, além de mostrar que, para aquele espaço, a identidade trans trata-se de uma farsa. E é justamente pelo desdém a este direito – dentre outros comportamentos que deslegitimam a identidade trans - que casos de abandono escolar, preconceito, suicídio são tão corriqueiros para esta comunidade.

Por enquanto, não há dados de quantos alunas e alunos trans existam no Brasil - até porque não existem pesquisas quantitativas oficiais referentes à população trans. Mas uma mudança no ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio - que reconheceu o nome social há dois anos mostra uma transformação e a importância de se sensibilizar para esta questão. Em 2014, 102 alunos trans participaram. Já em 2015, 278 se inscreveram para o exame. Quem ganha é todo mundo, que vai viver em uma sociedade mais igualitária e poderá contar com mais profissionais. 


A pedido do NLUCON, a universitária Helena Brito falou sobre as pelejas iniciais e do processo pelo direito ao nome social na Universidade São Camilo, em São Paulo. “Como mulher trans, deficiente física, periférica, bolsista, numa instituição privada de classe média alta sei que ainda enfrentarei problemas, sei que ainda questionarão o que faço ali. Mas ali é o meu lugar e de todas as pessoas trans, travestis que quiserem cursar Ensino Superior”.

Leia, sensibilize-se e se inspire:



“Meu nome é Helena. Somente Helena. Único e verdadeiro nome pelo qual quero ser conhecida e reconhecida. Prestei ENEM em 2013, um ano antes do uso do nome social (adotado em 2014), e tive problemas com o uso do banheiro dentre outras questões, como todo mundo te olhar como se fosse um E.T., anormal, ou como dizemos um ser abjeto, que não deveria estar ali.

Apesar de todo esse entrave tive uma média de notas muito alta, o que me possibilitaria retornar a Universidade. Algo que sempre sonhei, mas como não tinha condições, fui expulsa de casa, vivia em uma república com amigos e sem emprego, só conseguiria por meio de bolsa de estudos integral. Com tal nota consegui adentrar a São Camilo, uma instituição privada com nome muito forte na área da saúde. Esse era o meu sonho: me formar em uma forte instituição para que, como Enfermeira, pudesse competir de igual para igual com uma pessoa cis.


Iniciei os estudos no 1º Semestre de 2014 na unidade da Pompeia no período matutino. Mas já nos primeiros contatos com a instituição tive problemas quanto ao uso do nome social, apesar de na época já saber da existência da lei 10948/01 do Estado de São Paulo e os informar a respeito, mas não houve respeito. Por ter um vínculo bancário, o cartão da instituição era emitido com o nome de registro bem grande na frente e no verso também. Alegaram que não poderiam mudar.


O jurídico deles informou que não havia nada na lei que especificamente obrigasse ao uso do nome social, apesar do item de exposição vexatória o que se configuraria tal uso do nome em público; Afinal, nenhuma pessoa gosta de ser chamada por um nome que não se identifica e nem de ser lembrada a todo momento de um nome que não te representa. Não bastasse tal situação - lista de chamadas e afins – tudo era emitido com o nome de registro.

Pacientemente, apesar do desgaste, fui para cada professor explicar a situação, contei minha história, falei que era trans e que precisava que respeitassem meu nome. Muitos se mostraram favoráveis, porém outros nem tanto. 
Eram comuns os erros de pronomes ao se dirigir a mim perante toda a sala. Uma vez não respondi a chamada, mas depois fui pedir novamente ao professor que me chamasse e fizesse um adendo do nome na lista dele para Helena ouço como resposta: “Ah... não dá pra ficar lembrando isso toda vez”, ele me disse. 

Mas eu lembrei e ainda lembro toda vez que fui exposta, que no meio da aula saia e chorava no banheiro até me acalmar pra poder retornar em sala. O desrespeito doeu fundo, fui exposta para três cursos diferentes que cursávamos as matérias em comum na mesma sala, todas as pessoas sabiam que Helena era uma farsa (na cabeça deles).


A depressão bateu. Já não tinha forças pra lutar com uma instituição que só dizia não, não, não mesmo a lei dizendo sim. No fim abandonei o curso, abandonei uma bolsa de 100% do PROUNI porque não tive forças para lutar. O relacionamento abusivo que tinha na época também ajudou, já que não tinha apoio do cara que estava ao meu lado, mesmo ele sendo um homem trans também. Larguei o curso e tentei suicídio. Sobrevivi.


Quando em Janeiro saiu a Resolução 12 da SDH – Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal com força de lei, fiquei muito feliz e aproveitando tal notícia colei na página do Facebook da São Camilo a notícia da Resolução, explicando o que houve e cobrando providências: “E aí São Camilo como fica minha bolsa?”. Algumas semanas depois me ligaram da Universidade falando que estavam dispostos a me ajudar na questão do nome e sua inserção em sistemas, como já havia passado mais de 25% das aulas daquele semestre eu poderia requerer minha bolsa novamente para o próximo semestre (2º semestre de 2015). Em junho e julho fiz todos os trâmites para reaver a bolsa e reintegração ao curso.


Hoje, fui a Universidade assinar o protocolo de requerimento do nome social, fui armada com todas as leis possíveis. E sim fui atendida em tudo.


Meu nome será Helena em todos os documentos, listas e afins, não serei mais aquela que a todo o momento possa ser revelada como uma mentira, um favor que a qualquer momento pode ruir perante todos. E, sim, chorei. Chorei porque ali era o fim de toda uma ladainha de um ano. Ver ali, num papel estampado o nome que você escolheu e que não terá mais que se explicar, contar sua vida para quem sabe sensibilizar as pessoas de poder para te respeitarem é um alívio. Chorei também por tudo que tive que passar para chegar até ali: desde uma prova que não respeitou meu nome e identidade de gênero na época, desrespeito por professores, medo dos alunos e represálias que poderia sofrer, abandono de um curso que sonhava e por fim depressão.


Acaba uma luta, porém começa outra: como mulher trans, deficiente física, periférica, bolsista, numa instituição privada de classe média alta sei que ainda enfrentarei problemas, sei que ainda questionarão o que faço ali. Que algumas pessoas farão questão de dizer que ali não é meu lugar, mas é. É meu lugar e de todas as pessoas trans, travestis que quiserem cursar Ensino Superior. Sei que abri precedentes para outras pessoas, sei que outras pessoas podem agora gozar daquilo que com muita luta foi conquistado, mas isso ainda é só um nome social, uma esmola, não é a retificação de direito do prenome como lutamos com a lei João W. Nery que seria tão importante. Com tal lei, todo esse relato seria encurtado a uma ida no cartório lá no começo, uma retificação de documentos e pronto.


Agora vamos para os cinco anos de Universidade. Lembrando que tudo que passei uma pessoa cis não passaria, a história começaria aqui na matrícula e depois cursando, simples, sem problemas, sem negação de direitos”.


(Atualização (07/10/2015): Lamentavelmente, Helena nos contou que acabou deixando os estudos novamente. “Atualizaram alguns sistemas (com a mudança do nome), mas não todos. Biblioteca, plataforma ead e a central do aluno estavam com o meu nome de registro. Ficou insustentável ficar naquele ambiente, porque minha ansiedade voltou”. Resolvemos deixar o texto para ilustrar as dificuldades que ainda permanecem nestes espaços. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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