Entrevista

“Via a transexualidade como castigo, hoje como presente”, diz cantor Erick Barbi



Por Neto Lucon

Erick Barbi
quer tudo o que o mundo pode lhe dar. Aos 36 anos, o cantor e compositor cheio de talento vem conquistando o seu espaço em casas de shows, bares e programas de TV. E, pela primeira vez, promove a visibilidade de homens trans no mundo da música.

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Com 20 anos de carreira, Erick tem trabalho solo e é integrante das bandas ExQuadrilha – um trio de pop rock - e a big band Soul Boogie Orchestra. O artista também é responsável pela composição e voz da música “Tudo que o mundo Vai me Dar”, um verdadeiro hino para a comunidade trans.

Na letra, ele canta: “Que agora eu vejo a minha face do outro lado/ Estou certo de que sou assim/ Ser eu mesmo não é nenhum pecado/ E o espelho já não vai rir de mim/ Eu quero aproveitar/ Tudo que o mundo vai me dar!”. A música foi escutada durante o primeiro Encontro de Homens trans no último ano e também no documentário Questão de Gênero, de Rodrigo Najar, em 2007.

Tendo o símbolo do Super Homem tatuado na perna – que você vai entender logo abaixo – Erick alia com maestria a carreira artística com outras funções e atividades. É militante, marido de Bárbara Dalcanale Menêses e responsável pelas criações dos filhos Vinícius, de 11 anos, e Rafael, de 7. Também é um amigo gente boa, daqueles que todos gostariam de tomar uma cerveja e conversar por horas.

O bate-papo ocorreu no Parque das Águas, em Campinas, cercado por passarinhos, galinhas-d’angola e patos, e um sol forte que deixou marcado na pele aquela conversa proveitosa que tomou a tarde toda. Aqui, Erick conta um pouco de sua trajetória e aumenta os motivos para tornarmo-nos verdadeiros fãs. Confira:

- A música é a arte que nos atravessa de diversas formas: tem o poder de reproduzir sentimentos, mudar as energias e nos transformar. Qual é o tipo de música que te toca?

O primeiro cantor que eu gostei, segundo os meus pais, foi o Roberto Carlos. Com três anos, no batizado da minha irmã eu empurrei o padre do altar e cantei “Guerra dos Meninos” – música que eu nem sei como é hoje. Depois, passei a gostar do Ney Matogrosso. E isso Freud explica: aquela figura completamente andrógina dele e que fugia dos padrões fazia eu achá-lo o máximo. Fazia meu pai comprar todos os discos. Lembro que na época da pré-escola a gente podia levar um disco toda sexta-feira, mas os meus discos do Ney e do Frank Sinatra nunca eram tocados (risos). As outras crianças levavam Xuxa, Trem da Alegria (risos), mas eu gostava de outro tipo de música. Na adolescência, eu comecei a ouvir U2, Alanis Morissette, artistas que tinham letras que me tocavam. E profissionalmente, tenho influência de Sinatra, Elvis Presley, um pouco de Beatles, Diana Ross, Tina Turner...

- Assisti um vídeo seu cantando Simply the Best. Achei o máximo!

Obrigado. O pessoal não imagina que um cara vai cantar Tina Turner, né? Mas além de gostar muito dela, eu gosto de fazer versões de música. Pegar e fazer ela do meu jeito, com a minha cara.

- Como se deu a sua entrada no mundo da arte?

Eu sempre fui apaixonado por música. Desde pequeno, em todo casamento, em toda festinha, eu ficava do lado da banda enchendo o saco. Tenho fotos tocando cavaquinho de casamento, ganhei o meu primeiro violão com nove anos, foi o melhor presente e comecei a fazer aula de violão. E a música, para mim, foi um refúgio.




- Você fala em questão a transexualidade?

É, porque na infância a gente não sabe direito o que está acontecendo. Eu achava que era louco, que tinha alguma coisa de errado, mas eu tinha infância legal. A minha mãe relutava para ver se era uma fase, mas o meu pai sempre mediou: “deixa brincar do que quiser, vamos ver até aonde vai”. A minha avó materna sempre me presenteava com o que eu queria: carrinho, “brinquedos de meninos”. Mas quando veio a minha adolescência começou a foder tudo, pois começou a aparecer os caracteres secundários, o hormônio começa a explodir e é uma sentença. Como eu fiquei muito introspectivo, a música me permitiu a escrever, a compor. Então eu compunha para os meus amores platônicos, porque eu era apaixonado pelas meninas, mas nunca poderia falar nada. Com 15 anos, eu toquei pela primeira vez profissionalmente em uma banda de baile, numa festa de formatura dentro da escola.

- E como era a sua apresentação nesta fase, tendo cantado em festas tradicionais?

Sempre transgredi as regras. Diziam: “A cantora da banda de baile tem que colocar um vestid... “Não, eu não tenho que nada. Eu vou tocar de terno e não quero nem saber”. Porque eu fui assim desde pequeno, eu nunca coloquei uma roupa que eu não quisesse, por mais que as pessoas insistissem.

- Mas como lidava com a necessidade de ser visível pela veia artística e ao mesmo estar de frente com os desafios das questões de gênero que enfrentava? Afinal, naquela época você não tinha a imagem que gostaria de ter e mostrar, né?

Hoje eu me sinto mais à vontade no palco. Antes, eu não me sentia tão à vontade e tinha medo de me expressar. Até pouco tempo atrás, o pessoal da banda dizia; “Você precisa falar mais com o público”. Eu era mais contido, mas eu achava que a música era um primeiro contato muito importante e era onde eu tinha uma faísca de autoestima. Eu lembro que quando me chamavam para festas e eu começava a cantar, as meninas ficavam em volta e se mostravam interessadas. Mas quando ficavam sabendo (que eu sou homem trans), saíam. Eu gostava de dar esse encantamento inicial e pensava: “Quem sabe uma pessoa sobra, né, dessa história toda?”. Mas não sobrava.

- Poxa, mas você era um ursinho muito fofo e bonito...

Fui começar a namorar com 19 anos, dei o meu primeiro beijo aos 19. Até então eu sempre era o DJ dos bailinhos, o assexuado da balada. Porque naquela época o DJ ficava dentro da cabine e não ficava com ninguém. Como sempre fui muito ligado à música, me esforçava para que as pessoas dissessem: Tá legal porque é o Erick que está fazendo. Isso me deixava feliz.

- Você foi um adolescente fechado?

Ao contrário, eu sempre fui o palhaço e meio o líder da turma – tudo o que eles precisavam, me consultavam. Inconscientemente, eu achava que tinha que ser o melhor filho pros meus pais, o melhor aluno para os meus professores e o melhor amigo pros meus amigos. Porque na minha cabeça eu já tinha um defeito muito grande, eu me achava uma aberração. A minha família tem formação católica – hoje eu sou espírita – então eu era o anticristo da sala de catecismo. O pessoal ficava testando: “Você vai ser a noiva da quadrilha”. Mas felizmente eles não conseguiram me dobrar. Hoje, tudo isso reflete muito naquilo que eu sou: perfeccionista, tenho medo de errar com meus pais, com minha família, com o público. Pensar em desapontá-los é horrível.




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- Erick, pelas entrevistas que vi com você – bem como a foto de Super-Homem quando criança - pensei que o seu “processo transexualizador” se deu desde a infância. Mas não foi bem assim, né?

Sempre achei que tinha nascido num corpo errado, mas não sabia o nome. Gostava de carrinho, de ser o pai nas brincadeiras de casinha, ficava sem camisa e sempre dizia, quando rolava alguma dúvida, que o meu nome é Erick. Teve até uma vez que a gente foi para a praia e que eu falei para minha irmã e primos me tratarem como Erick, e foi assim durante a viagem inteira. 

Eu vivia assim, até acontecer o pior momento da minha vida: o dia da menstruação. Eu queria me matar, literalmente. Lembro como se fosse hoje: fiquei trancado mais de seis horas no banheiro. Minha mãe estava desesperada, perguntava o que estava acontecendo e eu chorando, chorando... Até que ela entrou no banheiro, sorriu e disse: “Ai, virou mocinha”. Gente do céu, que sentença de morte. Nossa. Fodeu, não vai acontecer mais nada. Porque quando eu era criança, eu colocava a fantasia do Super-Homem, deitava na cama e ficava rezando para virar um menino ou o Super-Homem. Se virar o menino já estava de bom tamanho, mas se fosse o Super-Homem melhor ainda. E nunca aconteceu, nem super-poderes...

- Você tem uma tatuagem do Super-Homem na perna. O que significa a figura dele para você?

Eu sempre fui apaixonado pelo Super-Homem, sempre assisti aos filmes com o Christopher Reeve. E esta questão de ele ter um segredo, de ele ser um alienígena, de não poder falar para as pessoas, de viver uma identidade secreta, de ser perseguido e tantas outras aspas da história, me fazia encarar como uma analogia. Isso se encaixa perfeitamente na minha história. Na quinta-série, falei para um amigo: “Eu me sinto um menino num corpo de menina”. E ele falou: “tudo bem” e me tratou como irmão.

Mais tarde, com 19 anos, eu não sabia como contar para outro amigo e o chamei para um bar. Bebi bastante para ter coragem, fiz a analogia do Super-Homem, dizendo que “dentro de mim morava um cara” e que eu não sabia o que fazer. E ele falou que eu podia contar com ele. Desde então comecei a falar do Super-Homem para falar sobre mim, até porque eu não sabia o que era a transexualidade.

- Não existia outra referência de homem trans na época? E a Roberta Close não inspirava nada?

Existia a Roberta Close e ponto. Nada de homem trans. Tanto que quando eu comecei a contar as pessoas diziam “Eu sei que você é diferente” e ponto final. Não existia uma continuação da conversa e nem um nome para dar ao que eu sou. Até que fui assistir ao filme “Meninos Não Choram” com uma ex-namorada e o filme me deixou extremamente mexido. Não só pela violência que o personagem sofre, mas porque me mostrou: “Você é isso aí, você é um transexual, dorme com este barulho e tchau”. Fiquei praticamente uma semana sem dormir e chorando. Sabia o que era, mas não sabia o que fazer dali pra frente. Foi “google é o meu pastor e nada me faltará”.

- O que achou na internet neste período?

Sites americanos e canadenses. Estava começando essa febre de mostrar a transição. E eu ficava bobo: “posso ter barba? Posso falar grosso? Posso fazer cirurgia para tirar a mama?”. Eu chorava de alegria ao ver a evolução dos caras, principalmente de um chamado Sebastian, que hoje em dia sumiu do mundo. Até que conheci o Gabriel, um homem transexual que escrevia para a coluna do Fervo, e perguntei o que teria que fazer. Ele me respondeu: “começa trocando o seu e-mail”, que tinha o meu nome de registro (risos). Parece que a gente sempre precisa de uma autorização, né? Comecei a fazer terapia – e a curiosidade é que meu terapeuta hoje é meu sócio – e logo ele me orientou a falar com os meus pais. E ele indicou o filme “Minha Vida em Cor de Rosa”.

- O cinema esteve presente em dois momentos importantes para você, né? Tanto na autodescoberta quanto no contar para os seus pais.

E eu não precisei falar nada. Foi na hora. Assim que terminou o filme, a minha mãe começou a chorar e a pedir desculpas. Lembraram de coisas que eles fizeram: “Poxa, você queria fazer kung fu e a gente não deixava, a gente te deu boneca...”. E eu falei: calma, ninguém tem culpa aqui. E o meu pai me perguntou como eu gostaria de ser chamado e como seria o processo a partir daquele dia. Eu já mostrei tudo o que eu havia pesquisado e tudo aconteceu muito rápido. O meu pai já chamou os irmãos dele e contou. Se eles não me aceitassem seria muito complicado, até pela ligação forte que eu tenho com eles. Não sei o que aconteceria comigo.


Cenas dos filmes "Minha vida em Cor de Rosa" e "Meninos não Choram"





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- De qual maneira a sua vivência transexual influência na sua música?

Em todas as composições. Até quando não falo diretamente disso. O tipo de relação que a gente tem com as pessoas é diferente das relações que as pessoas cis. Eu sempre tive muito cuidado com o que pudesse falar, de como me relacionar, porque a gente acaba tendo muito medo do que possa acontecer. Por exemplo, quando eu compunha na adolescência – e este é um período que a gente fala de “amor, amor, amor” – eu tinha letras muito misteriosas, o amor pelas mulheres estava nas entrelinhas.

- Meio Oscar Wilde, “o amor que não ousa dizer o nome”...

(Risos) Isso! Eu não podia dizer para quem era, ou dizer “Ohh Carla” (cantando a música do LS Jack). Se fizesse, era uma lâmpada na cabeça. É foda, porque era um amor platônico, velado e isso vai direto para a letra, para a música. Lembro quando fiz a música “Tudo o que o Mundo vai me Dar”, ela foi simplesmente vomitada no papel. Não foi aquela de “ai, preciso pensar...”. Não. Eu sentei e fiz a música em cinco minutos. E eu desacreditei quando li, porque foi praticamente psicografada (risos).

- Quem são os seus fãs?

Eles se dividem entre os homens trans, amigos que acompanham o trabalho e um pessoal novo que me conhece agora, tanto pelo trabalho solo quanto pelas bandas. Tenho pessoas que se identificam com minha música, mas que não são necessariamente trans. Tenho uma amiga gordinha, que disse: “Essa música é para mim, porque fala sobre mim e do preconceito que eu sofro”. Eu acho que a partir do momento que eu escrevo uma música, ela deixa de ser só minha, ela é de quem quiser pegar. Acho isso um máximo.

- A questão trans aparece nos seus shows? Ou seja, você faz um discurso falando sobre você?

Tem contratante que não faz ideia, mas é porque eu não fico falando: “Oi, quero tocar aqui no seu bar, sou transexual”. Por enquanto não é algo escancarado, apesar de muita gente saber e de eu ter músicas que falam sobre o tema. Até porque o meu trabalho é mais cover. Mas quero fazer um CD só com composições com esta temática. O nome dele é “O Outro Lado do Espelho”, que é meio para brincar com a música que fiz. Estou organizando composições, escrevendo outras e estou querendo gravar e fazer um show só sobre este assunto.

- Não é todo dia que a gente quer falar sobre a nossa vida. Como lida com a mídia, sendo que você é um artista e “precisa” aparecer?

Aprendi a lidar com a imprensa e não vou aceitar ir num Superpop, por exemplo, porque sei que lá é passível de escárnio. Eles dizem: “A gente garante que vai ser respeitado”. Não, me desculpa, vocês não garantem nada. Eu escolho muito bem os canais com os quais vou me comunicar, a linguagem que eu vou passar. Se você procurar, vai ver que saí numa matéria da revista Pais e Filhos, no Uol, documentários, no Na Moral (da TV Globo), só em projetos e entrevistas 100% confiáveis. Por exemplo, teve uma reportagem que o Fantástico fez com crianças transgêneros. Foi uma boa reportagem, mas eles ainda pecam com algumas coisinhas, termos, artigos, o jeito de falar, ‘virou homem’. Se tivessem consultado alguém ou pesquisado melhor, com certeza contribuiria mais para a causa. Às vezes, com a questão de exposição na música, eu falo: “Ah, não vou falar mais nada, vou passar batido”. Mas não consigo, cara.





- Por que você acha importante falar que é um homem trans?

Por que todos os dias eu recebo um convite de amizade no Facebook, alguém me agradecendo porque me viu e dizendo que se descobriu trans. Ou então dizendo que assistiu o Na Moral ao lado da mãe e que ela entendeu melhor a própria questão. Ou que o exemplo da minha família ajudou a família dele. Eu acho que o que eu faço é uma militância também. Não uma militância política, mas uma militância tão importante quanto a política, porque por meio da arte e da minha exposição eu posso inspirar pessoas.

- Você tem contato com o pessoal do Ibrat – Insittuto Brasileiro de Transmasculinidades?

Tenho sim. E acho que o trabalho que eles estão fazendo é muito legal e eu confio muito no que eles fazem. Eu não tenho tanto tempo para estar junto – até porque faço shows, trabalho durante o dia, sou pai, levo e busco os filhos na escola... – mas apoio e contribuo com o que eu posso. No primeiro Enath, eu estive lá.

- Muito se fala sobre processo transexualizador, passabilidade, cirurgias... Você acha que enfrentar o espelho e se enxergar de verdade é o maior desafio para um homem trans?

É uma questão importante, mas é apenas uma delas. É um assunto muito delicado, pois envolvem vários outros, dentre eles a autoestima e o reconhecimento da sociedade pela nossa identidade. A questão do peito e da mastectomia, por exemplo, é relevante para grande parte dos homens trans. Porque quando a gente chega em um lugar, as pessoas olham para o nosso rosto e automaticamente para o nosso peito. Quando veem os peitos, dizem com os olhos e às vezes verbalmente: “arrá, achei, você não é homem coisa nenhuma”. Por mais que dizem para não ligarmos, isso é complicado e mexe com a gente. Digo que esta cirurgia deve ser feita por quem queira fazer. É um direito. Por outro lado, vejo pessoas da própria comunidade hostilizando garotos trans porque não querem tomar hormônio ou porque não têm uma aparência X. Acho um absurdo. 

E é por isso que fico feliz quando vejo garotos se reafirmando homens, independente da cirurgia ou da hormonização. Penso que o espelho não deve servir para mostrarmos para o outro, mas para nós mesmos. Acho que os dois maiores desafios hoje em dia é o de se impor como homem trans, mesmo sem tratamento nenhum. E ao mesmo tempo se impor numa sociedade, onde pessoas cis te julgam e metem o dedo na sua cara, e também onde pessoas trans também fazem isso. A gente precisa se aliar.

- Como foi para você ver as transformações do seu corpo?

Ah, foi uma euforia atrás de outra, o verdadeiro significado da palavra euforia. Um pelo que eu tinha, eu ficava alisando ele (risos). Era demais. E eu vejo isso nos meninos. Todo mundo tem a foto do “sovaquinho”. Vai em todo perfil de menino trans que vai ter a foto do sovaco pra cima. Só que tem que tomar cuidado, porque essa euforia também gera ansiedade. Você quer ver a coisa acontecer logo, você quer tomar hormônio hoje e acordar Tony Ramos amanhã. No meu caso, você vira um filhote de Tony Ramos, mas demora uns 10 anos. Sempre falo para os meninos terem calma.


- Tem algumas dicas para os meninos?

O que o pessoal está usando bastante é o Minoxidil, que é um creme que usam para queda de cabelo, que funciona muito. Inclusive que eu usei para encher a barba.

Quando você passou pelo processo transexualizador, houve mudanças significativas na sua voz? Houve alguma preocupação artística neste sentido?

Ótima pergunta! Antes de começar a tomar hormônio, numa de minhas sessões terapêuticas, meu psicólogo me questionou. Ele me perguntou se eu sabia quais seriam as mudanças. Eu disse que sabia que a voz iria engrossar, mas não sabia o que iria acontecer a respeito da afinação. Ele me perguntou se eu queria mesmo passar por isso, mesmo que isso significasse nunca mais cantar. Eu disse o "SIM" mais certo da minha vida. Meu sofrimento estando no corpo errado era muito maior do que o sofrimento de nunca mais poder cantar. Pra mim não teve preço me tornar o Erick e graças a deus que minha voz e meu dom vieram juntos nessa jornada. Aí durante mais de um ano minha voz foi se modificando. Por um período foi mto difícil cantar e obter afinação. Mas eu sempre fui treinando e nunca parei de cantar e me exercitar.

- Você acha que estas caixinhas impostas sobre o que é ser homem, e que é propagada até mesmo pelas pessoas trans, está mudando?

Primeiro, tenho vontade de virar o dedo de quem é trans e aponta sobre a aparência de outro, que não tirou o peito. Para mim, é uma violência tão grande quanto a de uma pessoa cis, porque vem de um lugar onde a gente nem espera que vai receber. Mas acho que as coisas estão mudando. Vai demorar um pouco, porque toda mudança de sociedade demora, mas vejo atualmente uma coisa positiva: as pessoas estão se reafirmando o tempo todo nas redes sociais e meninos com discursos muito legais e empoderadores. Tem um menino trans, que é meu fã, que me enche de orgulho quando diz: “Eu sou homem, sim, então foda-se a sua opinião”. Acho que esta questão de as pessoas se imporem é muito importante, porque mostra que a sua mudança vem de dentro pra fora, e não externamente. Ou seja, você não depende do olhar externo ou de uma permissão para ser homem. “Eu sou homem porque eu sou, eu me defino assim”. E a autodefinição é muito mais importante que essas cobranças.

- O que pensa sobre os homens trans grávidos, um grupo que durante um tempo foi tabu para a própria comunidade?

Pessoalmente, não me sentiria bem em gerar, até porque já fiz a histerectomia. Mas acho lindo outros homens que querem gerar os seus filhos. Acho que você pode fazer tudo o que quiser, desde que não faça mal ao outro. E, neste caso, estamos falando de um filho que a pessoa pode ter. É maravilhoso. Absurdo é bater em criança. É claro que entre os homens trans rola muita resistência e o machismo fala alto. Existe a questão de reforçar a masculinidade, mas é algo absolutamente cultural. Para ele faz parte do universo de ser homem: cuspir no chão, coçar o saco, maltratar a mulher, chamar de gostosa. Porra, isso é desagradável. Dentro de uma banda já acharam que eu sou gay porque não quero ficar chamando a mulher de gostosa.

- Em sua opinião, o que as pessoas ainda hoje precisam saber sobre a comunidade trans?

Acho que tem que bater na mesma tecla, o respeito. Respeitar a pessoa, respeitar a maneira como ela quer ser chamada... Essa questão do nome social, fala a verdade, o que custa uma pessoa chamar ela por um nome de acordo com a identidade de gênero? Uma vez eu fui parado por uma blitz policial – e eu tenho barba, sou peludo e careca – e vi os policiais tirando sarro da minha cara porque o nome era feminino. É muito constrangedor.

- Você acha que está mais fácil para a nova geração?

Acho que está. Até porque, antes, para você achar um homem trans era como procurar agulha no palheiro. Hoje em dia é um boom, todo mundo é trans. É mais fácil ter acesso a informação que antes, o que ajuda no processo de autodescoberta. Eu vejo essa geração com uma oportunidade muito legal, que é a de tomar hormônio cedo, de conseguir o bloqueador na adolescência, que é o ideal, e de serem quem são mais cedo. Só que tem que tomar cuidado, pois a internet tem muita coisa boa, mas tem muita coisa ruim. Por exemplo, temos muita incidência de meninos se automedicando, tendo problemas e a gente precisa falar sobre isso dentro da militância.



- Casado com uma psicóloga, o que você acha da obrigatoriedade do laudo de transexualidade? Ele poderia ser derrubado para iniciar o processo transexualizador?

Eu gostaria que não precisasse e que fosse assim: “Eu sou transexual e estou precisando de tratamento”. Só que, no sistema de saúde brasileiro, isso não é possível agora. Você só vai ser identificado como transexual, e ser respeitado como tal, se alguém te der esse laudo e você tiver para mostrá-lo. Não adianta você derrubar o laudo, sendo que ali na frente o cara que te atender não vai te identificar como tal e você tiver vários problemas. Eu acho que ainda está distante, apesar de ser o caminho. Seria interessante a troca de CID, pois da mesma maneira que uma mulher grávida tem direito ao tratamento pré natal sem a necessidade de um laudo, uma pessoa trans também deveria ter. Como uma simples condição, não como uma doença

- O que tem de melhor em ser um homem trans?

Eu acho que sou um homem melhor. Se eu fosse cis, talvez eu fosse mais um na multidão. Eu ia ser o filhinho de papai, eu ia reproduzir muitas coisas desse mundo machista. Hoje eu sei respeitar o outro. Tanto que no começo, quando via algo de homem grávido, eu mesmo dizia “Que absurdo, não sei quê”. Mas hoje eu respeito. Você começa a entender que as pessoas têm o direito de fazer o que elas quiserem, desde que elas não prejudiquem o outro. É tão legal você poder ajudar uma pessoa e receber um depoimento do Belém do Pará de um homem trans que diz: “Você me ajudou e eu não me matei por sua causa”. Porra, é muito louco isso. Tem um amigo de Campo Grande, que me mostrou a tatuagem que ele ia fazer e é a letra da minha música. Eu via a transexualidade como castigo, hoje vejo como um presente.

- Podemos falar sobre a sua família?

Claro, com o maior orgulho!

- Hoje você é casado e pai de duas crianças. Como se deu a paternidade na sua vida?

Eu comecei a namorar a (psicóloga, especialista em questões trans) Bárbara e ela já tinha um filho de três anos e estava grávida de três meses. Eles têm o pai biológico, que eles têm contato quinzenalmente, mas eu fui pai das crianças desde quando elas eram muito pequenas. O dia a dia é comigo, eu tenho esta postura de pai e inclusive o mais velho sabe da minha transexualidade. O mais novo ainda não, porque ele adora falar para todo mundo pela sua espontaneidade. Teve uma vez que a gente foi buscar a Bárbara no CR e saiu uma paciente dela, que é uma mulher transexual, e ele perguntou: “essa sua amiga é tranquesexual?”. E a Bárbara disse que sim. Aí ele colocou a cabeça para fora do carro e gritou: “Tchau tranquesexual”. A Bárbara queria entrar na roda (risos).

- Como você lida com as questões de gênero na criação dos seus filhos?

A gente lida tranquilamente e não tem essas divisões de gênero: “Boneca é de menina”, “carrinho é de menino”. Não, você vai brincar com o que você quiser, você vai ser o que você quiser. O Rafa gosta de rosa e tem uma meia rosa. A gente deixa o mais livre possível, mas ensina a confrontar a sociedade. Não falamos: se esconda, faz só aqui em casa. Ao contrário, a gente ensina eles a se protegerem, a lidar com as questões externas de uma maneira que não abale as suas vontades. 

Teve um dia que ele chegou e falou que xingaram ele de menina. Daí a gente falou: “Filho, menina não é xingamento”. Depois perguntamos: “Você é menina?”. Ele disse que não, e que não era tranquexual. E a gente falou: “Se você não for, tudo bem. Se você for, tudo bem também”. E ele viu que isso não era motivo para abalar e que o problema era do outro. A gente tenta muito confrontar isso. Essa semana, ele veio dizer que chamaram ele de viado porque tem o cabelo maior. E a gente falou a mesma coisa e questionou: “Será que todo gay tem cabelo longo?”, “Jesus Cristo tinha cabelo longo também...”. Amigos disseram que apelamos (risos).




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- O que diria a pais de crianças trans ou que encontra esta questão dentro de casa?

Deixa a criança se expressar, pergunta para ela como ela quer ser chamada. E tenha consciência que às vezes a criança quer ser chamada cada dia por um nome: “Ai, hoje eu sou a Elsa, eu quero ser a princesa Ana, eu quero ser o Batman”. Faz parte da fantasia da criança essa coisa, não tem problema, até porque você acaba percebendo a transexualidade. Eu sou assim desde que eu percebo. Além disso, temos que aprender a defender a criança, porque as pessoas têm que aprender a não ter preconceito. Não é a criança que tem sempre que aprender a viver numa sociedade preconceituosa.

- Qual é a mensagem que você gostaria de passar?

É possível ser quem você é. A primeira coisa que a gente deve lutar na vida é para ser quem somos. Se você não conseguir isso, não vai conseguir ser o resto. Vai ser uma mentira pro resto da sua vida. Por mais que o processo seja doloroso e que as pessoas não tenham a sorte de ter a família e os amigos que eu tenho, nada paga o preço de você viver a sua verdade.

- Profissionalmente o que você quer? Vi que você tentou se inscrever para o The Voice...

Eu tinha muita vontade de participar do The Voice, mas hoje estou repensando. Gostaria que acontecesse de uma forma natural, que eu fosse reconhecido pelo meu talento. E, enquanto isso não aconteceu, eu vou comendo pelas beiradas. Eu decidi que eu vou enfiar o pé, viver da música, que esta é a minha praia. Eu gostaria de fazer shows além de São Paulo e interior, ir para vários lugares. Gostaria de começar a produzir mais material próprio para poder emplacar outros projetos.

- Estamos na torcida!





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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Anônimo disse...

Adooooro o som dele!! É uma grande inspiração pra nós trans, principalmente pra quem é músico. Parabens Erick e obrigado pelo grande exemplo que vc nos dá!

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