Pride

Buck Angel: “80% dos homens trans passam a sentir atração por outros depois da T”



Texto: Neto Lucon / Fotos: Dani Villar

O ex-ator pornô e militante Buck Angel falou durante o workshop “Sexing the Transman”, do Ssex BBoxx, em São Paulo, na última sexta-feira (20), sobre como conseguiu se empoderar do próprio corpo, enxergar a vagina como parte de sua identidade masculina. E a fazer história, dando visibilidade aos homens trans, por meio de filmes pornográficos.

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De acordo com ele, o início da carreira em 2002 foi marcada por inúmeras críticas, apontamentos transfóbicos e incompreensão de sua identidade. “Me viam como bizarro, achavam que eu estava louco. Mas eu era só um homem com vagina, que não tinha nenhum outro representante com voz forte no mundo”, declarou.

Ele afirma que naquele período não tinha a pretensão de se tornar um ativista - "só queria fazer sexo" - mas que inevitavelmente o seu corpo exposto em obras pornográficas já trazia esta proposta. “Eu demorei muito e estar confiante, a me aceitar e a entender que não teria um pênis. Foi com o tempo que descobri que não era um pênis que me definiria como homem”.

Buck diz que o sexo e o fato de sentir prazer por meio do seu genital foram libertadores e importantes para o empoderamento do seu corpo e da identidade de homem trans. “Por meio da masturbação, passei a abraçar a minha vagina e descobri que ela faz parte da minha masculinidade. Se masturbem, é muito bom”, aconselhou ele aos homens trans, provocando alguns risinhos e palmas. 

Para quem ainda liga a vagina como um genital que o deslegitime como homem, Buck reforça que a sua "é poderosa". E ainda apresenta diferenças pós-processo transexualizador, vide uso de testosterona. “As vaginas mudam depois da T e se difere. É maior, o clitóris é maior, tem mais carne...”, declarou antes de exibir um vídeo sobre um casal gay formado por homem trans, Dane, e o seu namorado cis.

HOMENS TRANS GAYS, BIS...

Todos sabemos que orientação sexual nada tem relação com a identidade de gênero, certo? Mas u
m dado curioso levantado por Buck é que, de acordo com a sua experiência em filmes eróticos, cerca de 80% dos homens trans dizem sentir atração por outros homens depois da testosterona. 




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“Esse tipo de experiência é muito comum e aconteceu comigo também. Antes dos hormônios, eu só ficava com mulheres. Depois comecei a ver homens, principalmente os gays, de uma maneira diferente. Eu achei estranho que pudesse ser gay e, ao mesmo tempo, por viver muito no mundo gay, achei estranho ter achado estranho isso (risos)”.

Uma mulher cis da plateia declarou ter ficado surpresa com a declaração de Buck sobre homens trans gays. E ele explicou que o olhar diferente sobre os homens não ocorre devido aos hormônios em si, mas porque muitas vezes a pessoa se sente mais confortável com o próprio corpo, mais tranquilo para vivenciar a experiência com outro homem que seja gay e por finalmente ter a identidade reconhecida.

“Antes, eu era visto por todos como uma sapatão, entende? E com as mulheres só fazia sexo com a luz apagada, ficava só na esfregação e jamais me penetrava. Ou seja, não era uma pessoa que estava confortável com o próprio corpo. Eu tive que 'virar homem' para abraçar a minha vagina e ter uma sexualidade mais tranquila. Lembro que no início eu olhava para um homem, ele olhava de volta e eu pensava: estou atraído por ele”.

Por sua vez, Buck diz que muitas pessoas da falocêntrica comunidade gay também passam por outras desconstruções ao conhecê-lo. Durante todo o workshop, sobretudo quando começaram a surgir dúvidas, o ativista fala sobre o amor ao próprio corpo, o respeito pelas decisões individuais e o empoderamento. 
Como ele diz, muitas vezes o sexo, a visibilidade e a informação libertam de muitas amarras e preconceitos. 

Atualmente, em sua produtora Buck Angels’, o (agora) diretor traz cenas de vários homens trans contando suas histórias, se despindo e transando – seja com homens cis, travestis ou em cenas de masturbação. “Muitos não queriam e eu levei seis meses para encontrar quatro homens. Depois, vários começaram a aparecer”, afirmou.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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