Eventos

Sem demonizar ou santificar, “deixem os LGBT serem gente”, diz Edith Modesto



Por Neto Lucon

Durante o lançamento de dois livros na sexta-feira (27), às 14h, na Livraria Martins Fontes, em São Paulo, a escritora, terapeuta e especialista em diversidade sexual e questões de gênero Edith Modesto reuniu várias mães de filhos LGBT em um mini curso, falou sobre o processo de aceitação e também sobre a desconstrução de preconceitos referentes à orientação sexual e à identidade de gênero.

+ Leia entrevista exclusiva com Edith Modesto, a fundadora do GPH

Os livros lançados foram “Homossexualidade – Preconceito e Intolerância Familiar” e a versão atualizada de “Mãe Sempre Sabe? Mitos e Verdades Sobre Pais e Seus Filhos LGBT”, que agora tem depoimentos até 2015 e um capítulo especial sobre a questão trans.

No mini curso, Edith limou alguns mitos, como o do amor incondicional das mães, a “santificação” (ou endemonização) de LGBT e as cobranças em cima dos pais e filhos. “Observo que hoje em dia, depois de tanto endemonizar os LGBT, tem gente que gosta santificar e dizer: ‘Oh, meu filho gay é um santo’, ‘os LGBT são perfeitos’... Não é assim. Deixem os LGBTs serem gente, pois é isso que são. Gente, com direito aos erros e acertos”.

A fundadora do GPH – Grupo de Pais de Homossexuais - disse que, como parte do processo de realmente aceitar e respeitar as pessoas LGBT, o caminho seria que os pais tratassem e pensassem sobre o grupo da mesma maneira como trata e pensa sobre os filhos héteros cisgêneros. Ou seja, sem generalizações. “Desconfio quando uma mãe diz que o filho gay é sempre o melhor, perfeito... Muitas vezes não é uma verdadeira aceitação”, disse.





.
“O meu filho gay, por exemplo, não é o melhor dos sete. Ele é um ótimo filho, claro, mas atualmente não é o melhor. Outro filho tem cuidado mais do pai, tanto porque gosta quanto porque tem mais tempo. Temos fases”, pontuou.

É PRECISO SER MUITO MACHO OU MACHA PARA SER LGBT

Ao falar sobre o “mito do amor incondicional”, Edith diz que a mãe é condicionada pela sociedade a esperar um filho ou uma filha heterossexual e cisgênero. E que acaba vivendo um tribunal interno e social por não saber como lidar com um filho LGBT. “Elas chegam e dizem: ‘Meu mundo caiu’. E quem é o culpado? É a mãe, que é ‘malvada’ e merece ser 'condenada'? É o filho, que ‘rasgou’ o contrato? Ou é esta sociedade e esta cultura, que tem preconceito com pessoas com a orientação sexual e a identidade de gênero diferentes daquela que ela dita?”.

Todos responderam, a sociedade.

Edith mostra, ora com a ótica de pais e ora com a os relatos dos filhos, os males do preconceito homofóbico e transfóbico e da heterocisnormatividade sobre as famílias. “Uma criança negra que é ofendida com racismo na escola volta para casa e é acolhida pelo pai. Mas uma criança LGBT, que é ofendida não vai falar para os pais. Ela vai para cama chorar sozinha, porque é o lugar mais quente. Teve um menino que disse: ‘Eu tenho que ficar calado (sobre ser gay) para que as pessoas gostem de mim’. Olha o que essa sociedade faz com essas pessoas”.

Por sua vez, Edith disse que explica para os filhos LGBT que muitas vezes a aceitação faz parte de um processo e que nem sempre a desconstrução ocorre com facilidade. “Às vezes eles chegam e dizem que os pais não o aceitam; e eu pergunto: ‘Quanto tempo você levou para se entender e se aceitar?’. E ele dizem: ’17 anos’, ‘19’... E eu pergunto: ‘Você levou todo esse tempo e espera que ela entenda e aceite imediatamente?’".

A terapeuta declarou que muitas mães passam por várias etapas durante o processo de aceitação e tem reações que passam pela “intimidação”, da “provocação”, do “luto”, “sedução”...




.


.
“Temos mães que trancam o filho dentro de casa, dizendo que ele vai apanhar na rua. Tem outra que diz aceitar, porque o filho não parece gay. Tem outra que mandou o filho para Paris, achando que a culpa de ele ser gay era dos amigos. Acabou que ele voltou de lá mais gay ainda”, declarou, arrancando risos na plateia. “E é importante dizer que conformação não é aceitação. A conformação coloca a mãe no meio do caminho, `as vezes serve para aceitar, mas também há casos de recuo”.

Segundo Edith, a transformação ocorre quando a mãe "se revolta com os valores sociais", que fazem com que ela "não aceite o filho". E é aí que a mãe, que entrou no armário assim que o filho saiu, também se permite a sair. 


SEXO SÓ PARA REPRODUZIR?

A terapeuta também questionou o moralismo em cima do sexo e do grupo LGBT: “Quem faz sexo só para se reproduzir? Eu tenho sete filhos, então quer dizer que só fiz sexo sete vezes na minha vida?”, “Os seres humanos fazem sexo pelo prazer” e “Apesar da hipocrisia, os héteros também fazem sexo anal”.

Ela declarou que é preciso ser muito macho ou macha ao cubo para se revelar LGBT nesta sociedade, senão não sobrevive. 


Após as religiões entrarem em debate na contribuição ao preconceito, um seminarista que estava presente declarou que a Igreja Católica, apesar de não mudar os seus dogmas, não condena os homossexuais e é acolhedora. Raul Lima, uma mulher trans de 22 anos, disse que viveu dentro da igreja durante muito tempo e que, diferente da teoria, era constantemente ignorada e vítima de preconceito. Edith intermediou o diálogo.

+ As pessoas trans pedem passagem, por Edith Modesto


Ao fim, fez duas perguntas às mães: “A homossexualidade abre a porte para que a mãe examine a própria sexualidade?”. E admitiu que a dela mesma com o marido melhorou – e muito! Todos aplaudiram. “E a decepção de ter uma filha ou um filho homossexual pode interferir no processo de compensação narcísica da neurose histérica?”. Essa é para psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da área pensarem.

Logo após, a escritora premiou algumas personagens LGBT e abriu para os autógrafos dos livros. 


Gostou? Os livros Homossexualidade – Preconceito e Intolerância Familiar” e “Mãe Sempre Sabe? Mitos e Verdades Sobre Pais e Seus Filhos LGBT podem ser comprados clicando aqui.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.