Pride

"Projetos fundamentalistas não passam, mas deixam sequelas", diz mesa do SSex BBox



Por Neto Lucon

Os temas Ideologia de Gênero e Estatuto da Família movimentaram a sala Adoniran Barbosa, do Centro Cultural São Paulo, na tarde de quarta-feira (18), durante a 1ª Conferência Internacional SSEX BBOX e Mix Brasil, em São Paulo. Mediada pela advogada Marcia Rocha, a mesa composta por profissionais ligados à comunidade LGBT teve visões diversas frente às várias tentativas de retrocesso da bancada fundamentalista – vide projetos como o Estatuto da Família, Cura Gay, Dia do Orgulho Hétero... Muitas críticas, outras visões positivas e, claro, com muitas ponderações.

Para quem não sabe, Estatuto da Família é o nome do projeto que tramita na Câmara dos Deputados e que tenta definir o que pode ser considerado família no Brasil. No caso, diz que apenas casais formado por homens e mulheres e com descendentes poderiam ser chamados de família – excluindo famílias constituídas por pessoas LGBT, dentre outros grupos e arranjos familiares. “ideologia de gênero” é o termo que foi aplicado por conservadores, dizendo que a comunidade quer “limar diferenças naturais entre homens e mulheres”. O termo é usado para barrar qualquer discussão sobre os estudos envolvendo gênero e a necessidade social de igualdade entre eles.

Durante a mesa, a coordenadora do Mães pela Diversidade, Majú Giorgi declarou que as tentativas de retrocesso são uma resposta frente aos avanços políticos e sociais que a comunidade LGBT conquistou nos últimos anos. E afirmou que “nesta guerra, estamos ganhando”. “É claro que temos que ter cuidado, mas observo muito mais uma reação contra o nosso avanço. As pessoas estão se levantando para lutar e há até pastores de igrejas tradicionais do nosso lado. Temos que ter esperanças. Eles têm a bancada, mas nós temos publicitários, jornalistas e podemos vencer o preconceito pela informação”.

O psicólogo Luís Saraiva ponderou que, ao contrário do que é pensado pelo coletivo LGBT, religiosos fundamentalistas sabem, sim, o que é gênero e a maneira como ele afeta a vida das pessoas. E, por saberem, apresentam resistência e até se organizam para que as lideranças evangélicas pressionem políticos. “Eles entendem muito bem. No discurso de alguém mais simples, ele diz: ‘É um projeto que quer proibir os pais de registrar meninos e meninas e que a pessoa escolha o que quiser no decorrer da vida. Afinal esse pênis ou vagina não diz nada sobre o que aquela criança é”.




.
Tanto que, no Plano Municipal de Educação, que foi votado neste ano, vários políticos se manifestaram (e votaram) contra a discussão sobre gênero nas escolas – que visava combater o machismo e erradicar vários preconceitos que são baseados em leituras preconceituosas de gênero, vide a homofobia, a transfobia e a misoginia. “Eles sabem, mas não querem mudar isso. Em nível municipal, perdemos de lavada, pois sei que as lideranças evangélicas batiam o telefone para vereadores”.

CUNHA CRIOU REFÉNS

O escritor João Silvério Trevisan também avaliou que fundamentalistas estão assustados, pois sabem que “a história não para” e “nós somos uma pedra no caminho”. “Se a história parasse, nós não teríamos mulheres aqui hoje, elas estariam dentro de casa cuidando dos maridos”. E disse ainda que o projeto Estatuto da Família e discursos de combate à Ideologia de Gênero é uma estratégia de Eduardo Cunha para escapar das acusações de corrupção. “Esse personagem encarna um demônio para sair da Lava-Jato. Então ele cria essa série de reféns para falar para o seu público. E os reféns somos nós, os LGBT. No final, é um sistema de falta de autoridade no Legislativo”.

Marcia Rocha defendeu que tais projetos, como o Estatuto da Família e a Cura Gay, nascem mortos, pois muitos são inconstitucionais e não devem avançar. Saraiva lamenta que, apesar de não serem aprovados, eles acabam deixando várias marcas na sociedade pela discussão retrógrada. E diz que muitas vezes acabam auxiliando a propaganda política de conservadores. “Um político em São Paulo que eu não digo o nome acabou tendo mais votos que na última eleição, por causa dessa visibilidade que damos a eles”, pontua.

Exemplos de sequelas de tais discussões não faltam. Lorys, que estava na plateia, declarou que foi uma das vítimas do fundamentalismo religioso. “Fui pastor de igreja, fui casado, sou pai e fui uma vítima daquilo que chamam de ‘cura gay’. Isso me deixou sequelas que carrego comigo até hoje. Foi um sofrimento que eu cheguei num ponto de não aguentar mais”, disse ele. 

Majú afirmou que o preconceito não afeta tão somente aos LGBT, mas também os seus familiares. “A mãe é a segunda vítima da homotransfobia, pois o machismo é forte. Elas chegam com fobia social e grande parte separada dos maridos”.








.
BANHEIROS DIVIDIDOS POR GÊNERO?

Em sua fala, a cartunista Laerte Coutinho questionou algumas lutas de inserção social, que nada falam sobre transgressão. Por exemplo: o banheiro dividido em masculino ou feminino e luta pelo direito de travestis ou transexuais usá-los de acordo com a sua identidade de gênero nesta divisão. “Hoje está sendo votado o direito de uma mulher transexual ir ao banheiro feminino. Penso que os banheiros divididos por gêneros deveriam estar condenados e que todas as pessoas tenham acesso para fazer aquilo que funciona o banheiro: xixi ou coco”.

A cartunista também cita a luta dos LGBT pelo casamento e diz que “queremos algo que está em decadência nesta sociedade”. Antes de olhares tortos, ela pondera: “É só uma provocação. É claro que a gente quer ter acesso aos direitos e que não quer a segregação. Mas temos que pensar que até o casamento está mudando. Temos trios que estão conseguindo a união estável. Penso em transgressão e não na inserção”.

Dentre as perguntas da plateia, a mais comum era “o que fazer neste momento?”. Laerte arriscou: “É fazer isso que a gente está fazendo aqui agora. Se reunindo, conversando, debatendo e parar de falar só para a gente”. A cantora Tiê, que abriu a mesa cantando uma música, afirmou na abertura: “É incrível que num mundo tão louco em que estamos a gente possa falar sobre tudo isso”.






.
Trevisam diz que a juventude está consciente e que fica “pasmo” em manifestações contra políticos que que personificam o retrocesso. “Lembro que no grupo SOMOS a gente ficava pensando no que escrever nos cartazes. Mas ali nas manifestações recentes contra Feliciano, um garoto levantou uma: “Feliciano, o meu cu é laico”. E essa consciência não foi passada pela militância e muito menos pela escola”. 

É a consciência do direito à vida privada, do próprio corpo, das relações e da cidadania, independente da religião do outro.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.