Entrevista

“Me chamem de Leonora Áquilla”; artista revela o que motivou mudança no discurso



Por Neto Lucon

Se antes Léo Áquilla dizia que não se importava com qual gênero a tratavam, agora ela se posicionou de vez como mulher transexual. E exige, além do tratamento com pronomes e artigos femininos, que a chamem pelo novo nome artístico: Leonora Áquilla.

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Aos 45 anos, Leonora afirma ter encontrado melhor entendimento sobre sua identidade e o responsável foi "um príncipe", que ela conheceu nas redes sociais. De quebra, passou a ter um discurso mais próximo ao da militância, que pede o respeito pela identidade de gênero – e não a critério do outro, como ela dizia anteriormente.

O novo nome está em todas as redes sócias, flyers de novos shows e também na boca dos eternos fãs, amigos e familiares. Mas ainda vem sendo timidamente tratado pela mídia nacional. Em quase 100% das reportagens e notas, é o antigo nome que aparece. 

Conversamos com Leonora e o noivo, o instrutor de artes marciais Chico Campadello, em um evento em São Paulo. E fizemos algumas perguntinhas acerca do novo discurso, do relacionamento que deve virar casamento e da carreira, que está tomando rumos internacionais. Confira:

- Na Fazenda, você entrou no time masculino e disse que não se importava que te tratassem como menino ou menina. Como foi o processo de você se entender como mulher e achar que o tratamento condizente com o gênero feminino é importante, sim?

Leonora: Naquela época eu estava quase pronta, mas ainda não sabia o que era ou não tinha a coragem necessária para dizer. É um processo, né? 

- E o seu estava sendo televisionado. O que motivou essa mudança no discurso? 

Leonora: Na realidade, faltava um príncipe para eu me entender. Faltava um homem que me enxergasse como eu sou e exigisse isso de mim: “Como assim, você é uma mulher! Você é minha mulher, não quero ver ninguém te tratando como homem”. Então ele foi este grande incentivador da peça que faltava para eu completar esse quebra-cabeça. É claro que ele não impôs nada, só me ajudou a me entender. Eu devo isso a ele, pois foi ele que me fez ter coragem de comprar isso.

Chico: Ela sempre foi esta mulher. A mídia e o trabalho exigiam um pouco dela e ela tinha que se colocar de uma maneira diferente. Focava no profissional. Mas quando ela fez o reajuste final (as próteses de silicone nos seios), vejo que ela se libertou e que ficou muito realizada e mais feliz com isso.

- Houve o entendimento até de se entender como uma mulher transexual em um relacionamento heterossexual - e não gay, como muitas vezes era visto. É difícil as pessoas separarem identidade de gênero com orientação sexual?

Chico: Não nos importamos muito com o que as pessoas pensam, mas sabemos que somos um casal heterossexual. Afinal ela é uma mulher transexual e eu sou um homem. Fui até pesquisa e vi que sou um homem cisgênero, que é a pessoa que aceita o gênero que foi imposto. Para as pessoas entenderem, eu a vejo como uma mulher completa, como a mulher que ela é, por dentro e por fora. Até quando ela me mostra fotos de criança, eu vejo uma menina ali. Quando ela mostrou o foto do laudo da transexualidade, eu disse que já sabia. E, para você ter a dimensão, em alguns momentos eu até cogito ter filhos. Eu vejo ela grávida.

- Depois de anos se dizendo Léo, encontra dificuldade de ser respeitada como Leonora?

Leonora: Hoje eu obrigo até a minha família a me respeitar como mulher, que é o que eu sou. Algumas pessoas têm resistência. Mas com muito carinho e com muito amor, eu peço para elas me respeitarem. Eu trato nessa questão do respeito, entende? Agora, as pessoas que são muito relutantes e que dizem “Olha, não te consigo te chamar de Leonora”, eu digo: “Por enquanto não fala mais comigo? Espera você conseguir, daí a gente conversa”. As pessoas têm que entender que isso me agride.






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- Na matéria, eu posso colocar no título Leonora Áquilla?

Leonora Áquilla, lógico! É como está em toda rede social. Me chamem de Leonora Áquilla.

- Li pela imprensa que vocês já planejam casamento. Tem alguma previsão?

Leonora: A gente está planejando para maio, mais ou menos. Se eu for ano que vem pros EUA e fizer uma temporada de oito meses, ele tem que vir comigo e temos que nos casar antes. Daí eu vou com um visto de trabalho e ele pode permanecer comigo. Então está dependendo da minha carreira internacional.

- Chico, o que mais te encanta na Leonora?

Chico: Na época que a conheci, não era fã e não conhecia o trabalho. Mas conhecendo eu fui me encantando pela profissional que ela é. Quando comecei a acompanha-la pela rede social, fui conhecendo os valores e princípios e fui me encantando mais ainda, pois são os mesmos que os meus. Ela é a mulher que eu sempre sonhei. Além de linda e muito atraente para mim, ela me fez apaixonar pelos detalhes da intimidade. A gente convive super-bem, tem uma cumplicidade gigante, somos fieis.

Leonora: E não tem nem como ser diferente, porque a gente vive grudado (risos).

- E não brigam nunca?

Chico: A gente resolve tudo com amor, sorrindo... E não ficamos grudados obrigados, é amor mesmo. A gente gosta de se fazer companhia e ela gosta de ter uma companhia masculina ao lado. Como meu trabalho permite essa flexibilidade, eu me permito ficar ao lado dela também. E ela se sente mais segura. E sobre o casamento, ela é a primeira pessoa que eu tive vontade de casar na minha vida.

- Que amor! E a carreira, Leonora, o que temos de novidade?

Leonora: O mais importante é a minha carreira internacional, que eu dei início neste ano. Relutei todos esses anos, porque eu sempre fui muito bem recebida no Brasil, muito bem aceita. Neste ramo, eu tenho o cachê mais alto do mercado, então nunca tive o que reclamar. Eu estou aproveitando a crise no Brasil para fazer uma temporada nos Estados Unidos. Eu já fui uma temporada para experimentar e, logo na primeira apresentação, já sabia que não sairia mais de lá. Foi avassalador. Eu cheguei com um trabalho que eles não esperavam e a reação foi incrível. E aí eu comecei uma carreira internacional.

- E onde você se apresenta nos Estados Unidos?

Leonora: Têm várias casas noturnas ou teatros. Não necessariamente para o público LGBT, até porque lá não tem esse rótulo como tem aqui. Por exemplo: eu me apresento numa casa lá às segundas feiras que se chama Village Pub, que é uma casa teoricamente gay, porque está num bairro gay, mas que não é frequentada necessariamente por gay. Vai gay gay, vai hétero, vai famílias assistirem os números. E eles têm uma cultura muito bacana porque, em crise, nós brasileiros cortamos o entretenimento porque vira supérfluo, mas lá não. Lá o entretenimento é lei, eles não abrem mão. Gostam muito de arte, artistas, e eu me dei muito bem. Porque além dos cachês, eles dão as caixinhas.

- Eu acho muito curiosa essa cultura do público dar dinheiro para as artistas durante as performances...

Leonora: A gente chega a ganhar 400 dólares só de caixinha em uma música! Mas aí tem que ser bom, porque eles não dão dinheiro para todo mundo. Tem umas que são fraquinhas e daí ganham pouquinho, 20 dólares. Mas as boas ganham muito dinheiro.




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- Nas suas performances você canta ou dubla?

Leonora: Eu mesclo. Faço números dublados, porque tem umas bonecas que necessitam de números com música eletrônica, com uma voz remixada, porque é muito legal. E eu tenho as minhas músicas, que canto. Por exemplo, se tenho seis músicas, eu faço três cantadas e três dubladas, para as pessoas se acostumarem. Porque se eles me acostumarem dublando, daí eu não vou poder mais cantar, porque este foi um erro que eu tive no Brasil. Tive que transcender essa barreira para as pessoas se acostumarem comigo cantando. Não quero ter esse problema por lá.

- É praticamente um recomeço, né?

Leonora: E, o melhor, lá ninguém me conhece como Léo, é só Leonora.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

André Romão disse...

Que bom que a Leonora, junto com seu companheiro, se achou. A transsexualidade não deve ser fácil de mensurar nem de aceitar. Ela vai ser muito feliz com suas escolhas.

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