Pride

Pelo menos 10 travestis foram brutalmente assassinadas nos últimos 30 dias

Os crimes transfóbicos – aqueles contra travestis, mulheres transexuais e homens trans – continuam mostrando a sua cara e derramando sangue pelo Brasil. E as principais vítimas: travestis, muitas delas jovens, com menos de 20.

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Nos últimos 30 dias, pelo 10 vítimas fatais foram registradas pela página “Quem a HomoTransfobia Matou Hoje?”, que ajuda no GGB (Grupo Gay da Bahia) a contabilizar os crimes contra a orientação sexual e a identidade de gênero.


Segundo a ong Transgender Europe, o Brasil é o país que mais mata travestis e mulheres transexuais no mundo de 2008 a 2014: cerca de 51% dos assassinatos (689), seguido do México com 14% (194). Ainda assim os dados são questionáveis, pois estima-se que o número seja ainda maior.


Explicamos: o GGB, por exemplo, não registra todos os números que ocorrem pelo Brasil; registra apenas aqueles que tiveram alguma repercussão na mídia, seja por notícias de portais, blogs e redes sociais. A falha se dá porque, com a exceção de São Paulo, ainda hoje os estados brasileiros não tipificam ou explicam nos BOs os crimes motivados por transfobia e tampouco registra se a vítima é travesti ou transexual.


Iniciativas como a mudança na lei n° 10.948/01, em São Paulo, que visa acrescentar nos boletins de ocorrência as tipificações “transfobia" e “homofobia” vão ajudar a contabilizar precisamente os crimes. E possivelmente promover políticas públicas específicas para combater esta violência. 


Em recente entrevista ao NLUCON, a militante Janaina Lima declara que a sociedade não se sensibiliza com os crimes cometidos contra travetis. “Não sei se a vida de uma travesti vale alguma coisa. As pessoas simplesmente não se sensibilizam. Não falam: ‘ai, coitada, morreu’. Não. A primeira pergunta que fazem é: ‘O que ela faz, o que ela aprontou?’. As pessoas só vão dizer ‘coitada’, se ela conseguir provar depois de morta que era inocente. Mas se tiver um resquício de interpretação diferente, as pessoas vão dizer: ‘morreu, porque mereceu’. Percebe como o tratamento é diferente?”.


OS CASOS

No início do último mês, a polícia civil reconheceu que o corpo encontrado em um lixão de Campinas, interior de São Paulo, era de uma travesti que morava no Parque São Jorge. L. Alvares de Souza, que tinha 22 anos, foi assassinada com uma faca de 25 centímetro cravada em sua cabeça. A família reconheceu o corpo no Instituto Médico Legal e a polícia ainda investiga a morte.

No dia 12 de outubro, Leticya Santos Ignácio, de 21 anos, foi assassinada a tiros em São Bernardo do Campo, São Paulo. A Polícia Civil da cidade informa que a jovem foi morta por um motoqueiro supostamente durante uma abordagem para um programa sexual. Ela, que era de Matupá, Cuiabá, estava em São Paulo há dois meses e levou um tiro na testa. Nenhum objeto foi levado.

Em Contagem, Belo Horizonte, uma travesti chamada Rose foi assassinada na quarta-feira (21). Segundo testemunhas, um homem dentro de um carro branco a chamou para um programa, mas quando ela se abaixou na altura do vidro foi baleada no lado esquerdo do peito. Ela morreu no local.

No dia 19, a travesti Valentina de Souza Canteiro, de 20 anos, foi assassinada com um tiro no pescoço, em Ponta Porã, 323 quilômetros de Campo Grande. Ela estava com amigos e foi embora de moto com uma amiga e um homem – ainda não identificado. Quando a amiga voltou ao espaço, encontrou Valentina agonizando na rua. Ela não resistiu ao ferimento e ninguém até o momento foi preso.

No dia 27 uma travesti não identificada foi encontrada morta em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Ela, que tinha aproximadamente 25 anos, estava sem roupas e não portava nenhum documento. Ela morreu após levar dois tiros, um na cabeça e outro na barriga.

Miscilene Santana da Silva (foto), de 25 anos, foi assassinada no dia 12 em Ipiaú, a cerca de 350 quilômetros de Salvador. A vítima estava com vários ferimentos na cabeça, provocados por um pedaço de madeira encontrado ao lado do corpo. Ninguém foi preso. 





No dia 2 de novembro, uma travesti de 17 anos foi morta a tiros dentro da casa onde vivia em Santa Maria, no Distrito Federal. Ela levou um tiro no rosto e onze nas costas. Os agentes da 33ª Delegacia de Polícia investigam o crime, mas ninguém até o momento foi preso.

Também no Distrito Federal, uma travesti de 19 anos foi assassinada com um tiro no rosto na quarta-feira (7). Ela estava em frente a um motel na CSG 9, em Taguatinga. O autor dos disparos não foi identificado e a política civil ainda investiga o crime.

Até esta reportagem ser finalizada, o último crime ocorreu na madrugada de sábado (7) no Paraná. Uma travesti, cujo nome social não foi informado (G. C. Pavão Barbosa) foi encontrada morta com seis facadas na Rua João Dalla Zuanna, bairro Itajacuru. Ela foi vista pela última vez em um bar e, após ter sido assassinada, foi jogada de um veículo em movimento.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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