Entrevista

"Ser mulher transexual e negra é sofrer duas vezes", diz Valesca Dominik, a Miss T Brasil



Texto Neto Lucon / Fotos Roberta Brandão

Assim que recebeu a faixa de Miss T Brasil 2014, a mineira Valesca Dominik, de 23 anos, passou a ser alvo de comentários preconceituosos na web. Não somente por ser mulher transexual, por parte dos transfóbicos, mas também por ser a primeira negra a vencer o concurso. Detalhe: vindo da própria comunidade trans.

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“Quando abri o envelope e vi o nome da Valesca, sabia o que enfrentaríamos. O Brasil ainda é racista”, diz a organizadora Majorie Marchi. “É claro que existem torcidas diferentes. Mas olha para este rosto, para esta pele e este corpo, e veja se não dá para atribuir comentários de que ‘não é adequada’ ou que ‘é feia’ senão pelo racismo”.

O reinado da miss exigiu muita resiliência, coragem e dedicação. Durante um ano, Valesca deu de ombros para as críticas negativas, rebateu o racismo com discursos afirmativos, tais como “Sou Valesca, da favela para o mundo”, se atentou para a militância T e focou todas as energias para o concurso Miss International Queen 2015, na Tailândia.

Poucos dias antes de embarcar para a Ásia, a miss conversou com exclusividade com o NLUCON durante uma rápida passagem por São Paulo. Esteve linda, carismática e extremamente charmosa. A miss tem fala tranquila, discurso espontâneo e demonstra estar preparada para representar o Brasil. Aliás, Valesca diz que passa pelo concurso absolutamente transformada pela experiência.

Confira o bate-papo:

- Para muitas travestis e mulheres transexuais, ser miss é um sonho. Como surgiu a sua vontade de participar do concurso?

Reconheço que no início levei mais como uma brincadeira. Eu já havia participado e vencido outro concurso (o Miss Pantera Trans 2014) em Minas e resolvi arriscar o nacional. Lá dentro vi que era o sonho de muita gente e, durante os dias, também passou a ser o meu. Levei mais a sério, mas não acreditava que fosse ganhar, até porque olhei à minha volta e percebi que eu era a única negra do meu ano. Perguntei para as meninas se havia outra, mas não tinha. Então, não esperava chegar tão longe.

- Nos concursos de mulheres cis, apenas uma negra venceu o Miss Brasil, em 1984. Como foi ficar entre as duas finalistas e ser anunciada a vencedora?

Uma emoção muito grande, porque eu não acreditava que pudesse vencer. Como você mesmo disse, é muito difícil ver negras ganharem concursos de beleza, porque infelizmente a negra ainda não é vista como um padrão de beleza. A negra sempre perde para as loiras, para as morenas, para quem tem a pele clara... Por isso não imaginava que pudesse de fato vencer. Mas após ganhar o título eu senti o peso da faixa e ele mudou a minha vida completamente. Hoje, estou indo com tudo para o Miss International Queen. Muito mais confiante.

- O que mudou?

Hoje eu sei que carrego o sonho de muitas pessoas comigo. Porque escuto sempre de trans negras e que não são negras: “Você me representa bem”, “o Brasil não vai passar vergonha”, “Você é um orgulho para a nossa comunidade”. Isso, para mim, já o suficiente para eu me sentir uma vencedora e também para ter vontade de mostrar uma visibilidade positiva lá fora. Sei que muitas estão se espelhando e torcendo por mim.

- Assim que venceu, você foi muito criticada e alvo de muitos comentários de cunho racista na web. Isso mexeu com você?

Não vou mentir que não é o tipo de coisa que a gente gosta de ouvir, mas sei que hoje em dia fica mais feio para quem se mostra preconceituoso. O Brasil é um país democrático e as pessoas falam o que querem. Tenho que ter a consciência que em todas as áreas a gente sofre, que nem todo mundo vai me aplaudir em pé, e que eu tenho que saber aproveitar a crítica produtiva. E foi isso que eu fiz. Fui atrás de aproveitar as críticas produtivas, de escutar o que a Majorie falava e tentar melhorar. Sei que de quando recebi a faixa para agora os comentários são outros. Houve uma evolução na minha aceitação no concurso e é isso que importa.




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- Você enfrentou o racismo só neste momento pós-faixa ou ele é presente em sua vida?

É claro que sofro racismo. Quando você é trans e negra você sofre duas vezes e o ataque é ainda mais forte. Por ser trans, te desrespeitam pela sua identidade e falam tudo o que as pessoas já sabem. Mas quando se é trans e negra... Bom, as pessoas me agridem de uma maneira que eu não gostaria de citar aqui. Hoje, posso dizer que sofro mais racismo que a transfobia. O racismo pesa mais, até porque ele vem do próprio mundo trans. A prova está quando eu fui eleita e... Os comentários de muitas trans estão aí na internet para quem quiser ver. É triste porque acaba sendo um grupo discriminado discriminando o outro. Acho tão complicado a gente falar de respeito se não respeita o outro, falar de transfobia se é racista... Hoje, foco nas críticas positivas.

- Durante o Miss International Queen vocês passam por muitas entrevistas na mídia tailandesa. O que vai dizer se perguntarem sobre a situação das trans no Brasil?

A verdade, né?

- O quê, por exemplo?

 Vou dizer que nossa cidadania ainda está muito atrás das da Tailândia. Lá as transexuais estão inseridas no mercado de trabalho, as portas estão abertas para elas, elas têm o direito de fazer escolhas, pois são vistas como pessoas comuns. Aqui, ainda estamos nas estatísticas como as maiores vítimas de crimes de ódio, somos atacadas de todas as formas e usadas em época de política. Porque, sinceramente, políticos só lembram da gente nesta época. Para posar para campanha e fazer promessas. Quando são eleitos, cadê?


- Cadê? O que pode dizer sobre o olhar da sociedade sobre as travestis e mulheres transexuais?

A sociedade não nos dá nada, mas espera que sejamos a melhor pessoa do mundo. A mesma sociedade que nos exclui da escola e do mercado de trabalho, quer que tenhamos a melhor educação, o melhor comportamento... Mas imagina sair na rua e ser apontada durante 24 horas. Um cutucando o outro, é uma risadinha daqui, é uma porta fechada, é um chamando disso... Eu tenho uma conhecida que é bem agressiva ou antipática, mas devido a tudo o que ela passou na vida. Há alguns anos atrás, eu andava na rua e me jogavam pedra. E para mim o único jeito de conseguir respeito é se eu enfrentasse eles, batesse de frente e eu fui tendo uma personalidade que não era a minha, que é a de ser uma pessoa agressiva. Era uma luta diferente. Hoje vejo que a gente consegue outras coisas, indo atrás dos seus direitos de outras maneiras. E em alguns casos é melhor dar as costas. Já passei por tanta coisa na minha vida, que não vai ser uma palavra que vai me derrubar.

- O que a sua família achou de ter a mulher transexual mais bonita do país?

A minha mãe me dá apoio para o que eu quero na minha vida e me dá força para seguir os meus sonhos. Quando ela soube que eu segui um rumo diferente do que a minha família esperava – que era o da prostituição – foi uma felicidade imensa. A minha mãe é o meu porto seguro e a minha família é maravilhosa. Se as pessoas soubessem do valor que a família tem na vida de uma trans, as histórias seriam outras. Se a mãe ou o pai soubessem o peso que eles têm na vida, não colocariam os seus filhos e filhas para fora de casa por uma questão de gênero. Gente, o filho é até então uma pessoa maravilhosa e daí só porque é gay, é lésbica, é trans ou travesti que o caráter muda e todo o amor some?



- Foi tranquilo para a sua família te aceitar ou te respeitar como mulher transexual?

Venho de uma família evangélica e vivi em uma casa onde a minha mãe foi a mãe solteira de quatro filhos. Como eu era a mais velha e a minha mãe saía cedo para trabalhar, eu tinha que ajudar a cuidar dos três mais novos. Existiam cobranças por ser a filha mais velha e também por estar dentro da igreja. Então, o começo (de eu ter me assumido) não foi fácil, como nunca é para ninguém. Me assumi com 18 anos, primeiro dizendo que era homossexual e em menos de 5 meses revelei a minha transexualidade. No começo, não sabia direito o que acontecia comigo, só sabia que gostava de homem e me sentia um pouco perdida... A partir do momento que não fui me sentindo bem com as roupas e com a minha imagem masculina, fui construindo a minha imagem feminina e a minha identidade. Encontrei o meu gênero verdadeiro. Com o tempo, eles foram se acostumando e a me respeitando. Hoje minha família é a base de tudo.

- O que uma miss pode contribuir para a visibilidade trans?

É uma visibilidade positiva. Tiramos as trans de alguns espaços e passamos a falar sobre beleza, desfile, temas que a sociedade não está acostumada. Só o fato de falarmos sobre algo positivo, já ajuda a quebrar muitas barreiras, abrir novas portas e trazer mais oportunidades. Acho que o concurso ajuda a levar o respeito. E, se você tem a capacidade de respeitar o que outro quer para a vida dele, isso já ajuda muito cada um seguir à sua maneira. O respeito ajuda uma trans a entrar para o mercado de trabalho, ajuda uma trans a estudar...

- Uma curiosidade: qual foi a primeira trans que você viu na vida e que trouxe uma visibilidade positiva?

Big Brother Brasil. Ariadna. Foi a primeira. Eu achei linda e na época eu trabalhava em salão, pois a única porta de mercado certeiro é salão e prostituição. Comecei a admirar a beleza dela e acompanha-la na mídia e essas coisas. Só depois dela é que comecei a reparar e a conhecer outras. (Majorie afirma que Valesca ficou super feliz quando Ariadna curtiu algumas fotos dela no Facebook: “Ficou toda contente”).

- Você já enfrentou dificuldades no mercado de trabalho formal?

Não sou poupada de sofrer preconceito, não. Não importa se é bonita, feia, alta, magra, gorda. Eu já sofri preconceito. Uma vez eu fui procurar trabalho com uma mulher cis em uma loja de cosmético. O rapaz que atendeu a gente disse que havia duas vagas e que a gente se encaixava no padrão que eles procuravam. Aí, quando eu entrego o currículo, o assunto muda na hora. Ele vira para a minha amiga e fala: “A sua vaga é mais garantida, né, pelo seu currículo”. E vira para mim: “Você vai precisar esperar para uma próxima, porque eu vi agora que só temos uma vaga”. Ou seja, tinha duas vagas até ele saber o meu nome civil...

- Você não fez a retificação dos documentos?

Ainda não, mas está em andamento. E isso dificulta muito. Vi que um programa de TV chegou a fazer uma matéria com a Ariadna, e ficou esclarecido que há preconceito, sim. As pessoas até tentam falar que não há preconceito, que há falta de vontade das trans em procurar, mas quem é travesti ou transexual sabe que isso existe. E que é muito forte. O mercado do sexo tem até gente que está porque gosta, mas muita gente está porque não tem oportunidade.

- Sabemos que mais de 90% das travestis trabalham na prostituição, segundo a Articulação Nacional de Travestis e Transexuais? O que pensa quem diz que é “uma vida fácil”?

A prostituição é um trabalho como qualquer outro, mas se fosse vida fácil, todo mundo trabalharia nela. Só quem passou pela prostituição e vive dela sabe que não tem nada de vida fácil. O problema é que o ser humano tem a mania de achar o que não serve para ele, não deve servir para mais ninguém. Esquece que a vida é gentil com uns e não com outros. Esquece que temos adolescentes colocados para fora de cada e que vê na prostituição um meio de sobrevivência. E que é por isso e outros motivos que não temos que julgar ninguém. Não é feio ser prostituta, garota de programa ou garoto de programa. O feio é quem fica apontando o dedo sem saber o que o outro passa. Para mim, este é um trabalho que vem lá de trás e que merece respeito.

- O Brasil é o país que mais mata travestis e mulheres transexuais do mundo, de acordo com a ong Transgender Europe. Em rodas de conversa dizem que toda trans já perdeu uma amiga pela transfobia. Você já perdeu?

Já. Perdi uma amiga que trabalhava na rua se prostituindo. Foi morta de uma maneira desumana, um crime de ódio e que é difícil de falar. Então, essa luta que comprei é por ela. Porque ela também era negra, um amor de pessoa e não merecia perder a vida da forma como perdeu. E isso me faz pensar que poderia ser qualquer uma de nós. Qualquer uma. Poderia ser eu e uma outra estaria falando do meu caso. Ou então morre e ninguém fala nada. Isso precisa ser mudado, porque somos pessoas como qualquer outra. Temos sentimentos, temos sonhos, sofremos... Eu sempre pergunto: “O que muda na sua vida eu ser trans?”. Eu acho que ninguém é obrigado a gostar de trans, mas tem que respeitar. Se não gosta e me vê caminhando na mesma direção, que vá para outra calçada. Não tem problema, porque quando você se aceita, a transexualidade é um detalhe. O problema é a pessoa se achar no direito de agredir, xingar e atacar alguém porque não gosta.

- Vamos fazer aquelas perguntas de concursos de Miss. Rola na Câmara a PL do Estatuto da Família, que visa considerar família apenas a união entre homem, mulher e filhos. O que é família para você e de qual maneira esse projeto vai contra as famílias brasileiras?

Família não deve ser definida apenas por uma questão de sangue. Família é toda relação que tem amor, que tem compreensão, que tem confiança, que tem vontade de proteger. Isso é família. Se é entre dois homens, duas mulheres ou um casal hétero não importa. Acho uma burrice e uma pretensão alguém se julgar no direito de estipular o que é família. Por exemplo, a minha mãe mesmo criou eu e meus irmãos sem a presença de um pai durante muitos anos. Então quer dizer que durante muito tempo eu mesma sequer tive família? Só isso prova que essa lei é preconceituosa até com os héteros (cis).

- Bom, voltando aos concursos, como está sendo a sua preparação para o Miss International Queen?

Perdi 8 quilos, passei por uma feminilização facial da Facial Teen e estou me dedicando ao máximo. Trabalhei muito a questão de fotogenia e moldei o meu corpo, porque era mais bombadinha. O vestido vai ser maravilhoso, feito pelo Ribas Azevedo. Ele vai fazer o vestido e o traje típico, mas o detalhe do vestido e como será o traje eu não vou contar. Estamos apostando na estratégia da surpresa no dia do desfile. Posso adiantar que estamos valorizando formas, leveza e delicadeza.

- A Majorie pega muito no pé?

Muito! É uma pessoa maravilhosa, mas às vezes dá uma dorzinha de cabeça. Faz parte, né? (risos). Como ela diz: “eu não sou mãe, não sou namorado e não vou ficar falando que está bonito, se não tiver”. Ela está aqui para me preparar. Eu sou um produto do Miss T Brasil para o Miss International Queen. E, em primeira mão, ela já está querendo me dispensar (risos). Ela acha que acabou o concurso e eu vou sair da vida dela, mas não vou sair. A Majorie é Miss T.

Majorie: A Valesca é uma menina muito disciplina e soube levar o reinado dela com muita dedicação. A Marcela (Ohio, a primeira Miss T Brasil) teve uma aprovação imediata, mas a Valesca e a Raika Ferraz (a 2ª Miss T) tiveram que provar ser merecedoras. A Valesca é muito competente, porque entendeu essa maquina profissional, que envolve fãs, patrocinadores e uma missão a cumprir.

- Pelos concursos de miss, é possível ver que o padrão de beleza de travestis e mulheres transexuais mudou com o passar dos anos. Antes eram mais voluptuosas e, hoje, talvez não invistam em medidas tão fartas. Percebe isso?

A nova geração quer uma aparência mais natural e está investindo em meios menos prejudiciais ao corpo. Tanto que eu não tenho o silicone industrial e não recomendo. Se você for reparar os problemas de saúde que muitas estão tendo hoje em dia, dá um pouco de medo de passar por ele. Acho que há outros meios mais seguros que o silicone (industrial) para a modificar o corpo ao nosso gênero. O que fica bonito em um dia é mutilação no outro. Sou contra (o silicone industrial).

- Em quem você se espelha como beleza?

Só existe uma para mim: Naomi Campbell (foto abaixo). Exemplo de modelo, de beleza e de sucesso. É um espelho e uma referência.




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- Tem alguma dica de beleza para as meninas?

O hormônio é muito importante para nós em vários sentidos. Também aconselho uma boa limpeza de pele, investir uma alimentação mais saudável e academia. Hoje eu estou só na dieta, mas geralmente faço academia seis dias na semana, por duas horas.

Majorie: Quer ser gorda? Desiste do miss. Quer ser miss? Magra! (risos).

- Uma miss pode namorar?

O assédio aumentou, mas atualmente eu estou indo, deixando a vida levar... Eu conheci uma pessoa depois do concurso, mas não gosto de expor o relacionamento.

Majorie: Uma miss T pode ser casada, por fazer programa, pode quase tudo e sem hipocrisia. E o namorado da Valesca é uma graça e é recomendado pela organização do concurso. Ele ajuda muito no desenvolvimento da miss.

- Qual é o seu sonho?

O meu sonho é poder proporcionar uma vida melhor para a minha família, mandar a Majorie para bem longe fazer uma turnê (risos). E poder seguir uma carreira profissional, de preferência no mundo da moda.

- O que diria para as meninas que te veem como um exemplo e que estão na torcida?

A vida não é fácil para ninguém, mas que cada pessoa deve ir atrás dos seus sonhos. É se agarrar firme com Deus e seguir firme na caminhada. Ah! E torçam por mim! 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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