Pop e Art

Workshop no Ssex Bbox leva público às lágrimas ao tocar feridas e inspirar cura



Por Neto Lucon (fotos: Dani Villar/SsexBbox)

Quando ingressei no workshop “Integração de Dualidades e Contradições”, uma das atrações do Ssex Bbox na quinta-feira (19) pouco sabia o que estava por vir – e na forte emoção que a Sala de Ensaio 2, do Centro Cultural São Paulo evocaria ao fim. Dentro dela, uma variedade de pessoas de variadas expressões de gênero, orientações sexuais e identidades, que se reuniram com olhares curiosos e feridas.

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Com o auxílio da tradutora Marta Botto de Barros, a experiência foi realizada pela norte-americana Claire Rumore, coach, massoterapeuta e professora de sexualidade tântrica com base espiritual. E também pela artista social, gender queer e fundadora do SSex BBox, Priscilla Bertucci.

Inicialmente, foram realizados exercícios aparentemente simples, bem como caminhar pelo espaço entre as pessoas, seja lentamente, mais rápido ou imaginando ter uma calda de dinossauro. Tocar diversas partes do próprio corpo, fazendo com que o cérebro percebesse locais que são pouco ativados cotidianamente. E segurar com as mãos abaixo do umbigo e ficar os pés estatelados no chão, como se ele tivesse raízes, e respirar de uma maneira que emitisse som. 

Ao fim da primeira experiência, alguns relataram sensações variadas e todos tiveram que falar uma palavra que simbolizasse o que viveu. “Consciência”, disse eu, mais como uma maneira de não repetir outras que palavras já ditas.

Pensei que os próximos exercícios seguissem da mesma maneira, mas me surpreendi. Claire pediu para que cada um escolhesse o lado de uma linha que estava ao chão e adiantou por meio de um elaborado discurso que a sala compartilharia insights com a finalidade de buscar a paz interior que muitas vezes buscamos no outro. Oi? Vamos lá...




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Posicionados de um lado da linha, ela orientou todos a lembrarem mentalmente de experiências negativas, que revelam fragilidades, dramas pessoais e preconceitos sentidos na pele. Pediu para cada um viver de fato aquela emoção, trazer de volta à tona, cutucar a ferida, investir no sentimento e nas lembranças que atuam como os piores fantasmas. 

Quando todos estavam prestes a esmurrar o mundo, ela pediu para que as pessoas seguissem para o outro lado da linha e pensassem em boas lembranças, momentos de alegria e que investissem no sentimento de pura felicidade. Era necessário viver aquele sentimento positivo. 

Falando sobre comunidade LGBTQI, não é difícil encontrar experiências fortes de preconceito, agressão e intolerância - o que de fato mostra relevância do workshop, que naquele momento propunha a superação. 

Confesso que, no início até tentei praticar – pensei na infância, agressões e na liberdade - mas depois a minha curiosidade de saber como a sala estava levando aqueles dizeres foi maior. Pude ver pessoas chorando, outras sorrindo, outras agachadas, pulando, rebolando e se contorcendo... Pude ver que, apesar de eu estar desconcentrado, aquilo tudo estava fazendo sentido para a maioria e realmente tocando aquelas pessoas. Foi de arrepiar. 

Em seguida, a coach pediu para que repetissem a experiência de viver os sentimentos em polos de alegria e tristeza. A diferença desta vez é que, assim que ela batesse palmas, todos deveriam mudar de polo (ou seja de posição da linha). Você investiria em um sentimento de alegria e após as palmas no de raiva. No de raiva e logo depois o de alegria. Até que as palmas fossem tão comuns e rápidas que todos estivessem no meio da linha, percebendo que os dois sentimentos se misturavam de uma maneira única ou viraram apenas um.




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Ao fim, houve novamente a troca de experiências. Um reconheceu que é muito mais fácil focar em sentimentos de raiva que o de alegria. Outro que conseguiu sentir os sentimentos, que até então eram polarizados, unificados e que pôde sentir, sim, a paz interna.

Porém, um depoimento de uma pessoa de 42 anos, Lorys, levou a sala às lágrimas. Tratava-se de um LGBTQIA – ainda sem se ater a uma definição, pois disse para mim sentir-se "tudo" – que passou parte de sua vida como pastor, em um casamento com mulher cis e vítima da chamada “cura gay” – uma grande mentira, que provocou cicatrizes que ressoam ainda hoje.

Lorys discorreu sobre sua experiência com emoção, revelou os conflitos com a mãe e a família, a dor da rejeição social, os medos que o fizeram adiar a própria vida. Mencionou também o amor pela filha e também pela cantora Madonna – de quem tem o nome tatuado no braço. “Você sabe o que é ter 42 anos e nunca receber um ‘eu te amo’ da sua mãe? Ela conseguia me dilacerar só com um olhar. Mas diferente da minha mãe, digo que amo a minha filha todos os dias. Falo: ‘filha, te amo’. E ela me responde: ‘Vogue’”. A sala, que estava chorando, riu. E este trecho diz muito sobre o workshop. 






Claire chamou Lorys para passar por uma nova experiência. Ela a deixou do lado da linha que polarizava as experiências negativas, que provocou um verdadeiro desmoronamento em lágrimas. “Vejo que eles também têm medo de mim, mas eu só quero ser assim, eu não sou uma ameaça”, disse.

Depois, direcionou para lado da felicidade, no qual Lorys mencionou o prazeroso sentimento de liberdade. “Quero lutar até a morte por ser quem eu sou. Mas mesmo que eu morra, nós somos muitas e eles não vão conseguir nos calar. Galera, se eu morrer, conto com vocês, hein?”. Todos aplaudiram. 

Fortes abraços, lágrimas e um processo que auxiliou grande parte da sala a curar um pouco de suas dores. De fato, um worshop positivo, surpreendente e transformador. Pelo menos para todos aqueles que se manifestaram e que se permitiram. 

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A prova de que muitas vezes não é tentando esquecer uma experiência traumática que há mudança, mas a enfrentando, confrontando (muitas vezes em nível hard), ponderando, se empoderando e vendo outros lados para superação. Foi incrível. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

LORYS V CICCONE disse...

Foi a maior experiência da minha vida, um marco.
Um novo início de vida.
Só tenho que agradecer ao Ssex Bbox, aos organizadores e palestrantes.

Mr Marcinho disse...

Me emocionei ao ler esse post e até consigo imaginar a emoção ao vivo! Estamos junt@s Lorys...te amo!

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