Pride

Curso da Stronger: “Bandeira atual mais importante é a PL de Identidade de Gênero”



Por Neto Lucon

A Stronger – coletivo de jovens LGBT paulistas – promoveu na manhã e tarde de sábado (29) pelo segundo ano o “Curso de Formação Inicial Política: Aprendendo a Usar Sua Força”, no espaço cedido pela Igreja da Comunidade Metropoliana, em São Paulo. Nele, militantes, gestores, pesquisadores e ativistas, bem como a antropóloga Regina Facchini e o sócio-fundador da Parada Nelson Matias Pereira, contribuíram para importantes reflexões sobre a relação da comunidade LGBT com a política e conquistas de direitos.

+ Sem demonizar ou santificar, "deixem os LGBT serem gente"


Na palestra “Direitos LGBT: Avanços, Retrocessos e Desafios”, a advogada e ex-coordenadora estadual de políticas para a Diversidade Sexual Heloísa Gama Alves falou sobre conquistas históricas da comunidade LGBT, bem como a despatologização da homossexualidade, casamento igualitário, Paradas LGBT... E opinou que a pauta mais importante para unir o grupo e brigar atualmente é a aprovação do projeto de lei 5002/2013, também conhecido como PL João Nery.

“Na minha opinião, a bandeira da Lei da Identidade de Gênero é mais importante agora. Pois é uma lei que vai dar dignidade humana a quem sofre diariamente a desigualdade baseada no desrespeito pela identidade de gênero” declarou Heloísa. De autoria de Jean Wyllys (Psol-RJ) e Erica Kokay (PT-DF), o projeto visa garantir o nome social e facilitar, dentre outras questões, a mudança do nome e gênero na documentação, o processo transexualizador e banir a necessidade de autorização judicial e laudos para travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades.






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Ela também comentou sobre a importância da criminalização da homofobia e transfobia - pauta que foi levantada com frequência nos últimos anos. E diz que, apesar de haver outros meios para denunciar os crimes contra LGBT (ainda que não exista lei, eles podem ser julgados como lesão corporal, que fere a dignidade e a honra...) esta conquista visa mostrar o posicionamento do país frente a esses crimes. “Quando não criminaliza a homofobia e criminaliza o racismo, o país diz que um crime é mais grave que o outro”.

Questionada sobre os comuns processos de LGBT sobre estabelecimentos comerciais que são preconceituosos, a advogada destaca o caráter educativo e que vai além da indenização. “É mostrar: ‘ah, casal gay não pode se beijar?’. Então você vai ter que responder, vai ter que contratar um advogado, vai ficar sabendo dos decretos e fazer capacitação. Isso tem um caráter educativo e traz a mudança”.

IMPORTANTE É AUTODEFINIÇÃO

O estudante de jornalismo e ativista homens trans, Luiz Prado Uchôa explicou a diferença de orientação sexual e identidade de gênero por meio de fotos em um power point. Para quem não sabe, orientação sexual refere-se ao desejo íntimo/afetivo/sexual por alguém e abarca o grupo de héteros, lésbicas, gays, bissexuais, pansexual ou assexual. Já identidade de gênero é sobre a identidade com a qual alguém se identifica: travestis, mulheres transexuais, homens trans – e há também outras transgeneridades.

Durante a palestra, o público se manifestou e mostrou que muitas vezes as caixinhas não estão tão fechadas assim. “Eu sou lésbica e namorada de um homem trans. Se eu aceito ele como homem trans (hétero), e ele me aceita como mulher lésbica ao lado, parabéns para mim”, declarou uma assistente social que estava na plateia.

Luiz também se atentou a responder uma pergunta sobre a necessidade de hormonização e cirurgias para ser considerado homem trans. “Nem todo homem trans quer se hormonizar. Eu tenho barba por me sentir mais a vontade com o meu corpo, mas tem homem trans que não quer e ele não deixa de ser homem. O filho do Marcelo Tas (Luc, que a mídia descobriu ser trans neste ano), por exemplo, não se hormoniza e continua sendo homem, entende?", perguntou. "O mais importante é a autodefinição”, continuou Luiz.






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NOSSO CORPO E NOSSA VIDA É POLÍTICA

Doutor em literatura brasileira e representante do Conselho Estadual LGBT de São Paulo, Dário Neto falou sobre “Representação Política” e desmembrou o processo que muitas pessoas passam ao entrar na militância. Discorreu desde os primeiros vislumbres – como viagens e hotéis - até a maneira como se constroem algumas relações de afinidade. “A política não é um espaço vazio. Se você não ocupa, outro ocupa. Mas é importante saber que o nosso corpo e a nossa vida é política”.

Após uma intervenção da plateia sobre as comuns rixas entre sopa de letrinhas – gay que não gosta de travesti, travesti que não gosta de lésbica, lésbica que não gosta de gay... - Dário faz um adendo: “Uma coisa é a população LGBT e outra coisa é a militância, que não pode ter esse tipo de pensamento. Pois é ela que dá o tom político para os espaços”. Pelo menos deveria.

Ele declarou que a tão comentada “representatividade” só existe quando a sua voz se torna uma voz coletiva e que “política e militância é só trabalho, não é reconhecimento”. Dário salientou, aos que querem participar da vida da militância, que algumas perguntas devem ser feitas: “O que quero fazer com isso? Para que vou ocupar esses espaços? Qual é a importância do ato?”.

O doutor disse ainda que é necessário se atentar na linguagem que o receptor tem e muitas vezes se moldar para ser compreendido. Ele conta que em um debate escutou de um conservador que era compreensível que muitos não concordavam com o beijo gay em novelas, pois é uma questão cultural”, logo deveriam evitar. “Tive que pensar a maneira como fazer a informação chegar. Então afirmei que ‘briga de marido e mulher não se mete a colher’ é um pensamento desta cultura e que faz muitas mulheres sofrerem violência. Que o racismo também era visto uma questão cultural. Então, a questão não é se pautar na cultura, mas nos direitos humanos. E a mensagem chegou”.






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LGBTs NEGROS E PERIFÉRICOS SOFREM MAIS

Elvis Justino Stronger, um dos representantes da família Stronger, falou sobre a formação das famílias que agregam LGBT por São Paulo, o preconceito multiplicado que jovens LGBT negros e que moram na periferia sofrem. Ele destacou a importância e força da Stronger nas últimas manifestações contra os crimes por homofobia e transfobia e como arma de visibilidade para mudar a violência.

“Nós organizamos o ato em repúdio à morte do Kaique Augusto (jovem homossexual de 16 anos que foi encontrado morto embaixo de um viaduto na região central de São Paulo no último ano). Quem for atrás e pesquisar o caso, vai ver que se trata de um crime de homofobia, mas ele foi suicidado pela polícia. E a própria mãe dele foi convencida a suicidar o filho”, disse.

Elvis destacou também o assassinato de Laura Vermont (travesti de 18 anos que morreu neste ano após ser agredida por cinco homens e levar um tiro de um policial em São Paulo), cujo desfecho mostra que algumas vidas têm menos importância no país. “Essas pessoas que agrediram e mataram ainda estão soltas e os policiais também não foram punidos. Ou seja, a realidade de um jovem periférico é bem diferente dos demais”.

As reuniões, manifestações e o próprio curso são algumas das armas para dar visibilidade e tentar mudar a vivência. “A gente tem que aprender a usar a nossa força, se empoderar e não aceitar mais que outras pessoas sejam suicidadas”.






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EMPODERE-SE

O estudante de direito Matheus Emílio da Silva – que é criador da página Menino Gay, membro da Stronger e coordenador do projeto Purpurina– falou sobre a necessidade do empoderamento da comunidade LGBT, sobretudo dos jovens. Por meio de posts divertidos, com direito a Inês Brasil e vários memes da internet, ele mostrou a necessidade de não se deixar abater pelo preconceito e insistir em ser exatamente como é.

Dentre os exemplos, mostrou a foto de um universitário que teve o muro pichado com a palavra “bichona” e ele, ao invés de ficar triste, foi em frente ao muro, ressignificou o xingamento e fez uma pose para a imagem. E de outro universitário, que se permitiu ir de sapato de salto assistir às aulas, independente do que os outros falavam.

Luiz Uchôa questionou o discurso e disse que é muito mais fácil usar salto alto em algumas universidades que em outras. “Quero ver ele usar em Guarulhos, onde eu estudo e tive a maior dificuldade de conseguir apenas o nome social”. E foi quando Matheus reiterou: “É claro que há dificuldades, mas é sobre isso que estou falando. Apesar delas, você deixou de ser o Luiz? Deixou de ser homem trans? Deixou de brigar por esse direito?”. Luiz concordou que não.







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PARADA É IMPORTANTE

Na última palestra, Nelson Matias Pereira – que é um dos sócios-fundadores da Parada do Orgulho LGBT e que foi o primeiro presidente da entidade – comentou sobre a história e fortalecimento da Parada, e defendeu que a manifestação histórica ainda é importante para a promoção de direitos LGBT.

Ele destacou ainda que a associação vê como positivas as manifestações espontâneas, bem como a da travesti Viviany Beleboni, que apareceu “crucificada” neste ano. Nelson disse que o fato de a manifestação de Viviany ter sublimado o tema – Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim, respeitem-me” – não causou qualquer desconforto na associação.

“O tema é só uma sugestão, que pode se modificar no decorrer. Principalmente um tema mais superficial como este. Quando eu a vi crucificada no carro, já sabia o que iria gerar. Mas a gente apoia a Viviany e acha que essas manifestações são mais que legítimas na Parada. Levou o debate”, declarou.

Nelson informou que em 2011 eles já haviam feito uma manifestação que incomodou a igreja. “O tema daquele ano foi ‘Amai-vos Uns aos Outros’ e tivemos fotos de santos (fotografados por Ronaldo Gutierrez) em vários trios, com a frase: “Nem santo protege, use camisinha”. E é claro que gerou uma revolta e debates na igreja, o que é muito bom”, lembrou.






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O curso ainda teve a presença do fundador da Stronger, Roberto Stronger, Soninha Francine, coordenadora de políticas para a diversidade sexual, as militantes Adriana da Silva e Fernanda de Moraes. Todos os presentes ganharam certificados.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Dêdê Stronger Silva Sena disse...

Arrasou! 👏👏👏👏👏

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