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Filme “Viagem Solitária” segue e desafio (e cobrança) é encontrar protagonista trans



Por Neto Lucon

Baseado no segundo livro de João Nery - considerado o primeiro homem trans a passar por cirurgias no Brasil - o filme “Viagem Solitária”, da diretora Patricia Galucci (Maria João Filmes), ainda está em fase de produção, mas anda chamando atenção da comunidade de homens trans. Tanto pela expectativa de assistir ao filme quanto pelo desejo de o grupo se ver na tela dos cinemas – sobretudo como protagonista.

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A representatividade, tão pedida pela militância T, é uma vontade do próprio João: “Eu gostaria muitíssimo que fosse um transhomen que interpretasse o meu papel, pois esses papeis geralmente são feitos por pessoas cisgêneras”, declara ao NLUCON. Vide as atrizes Hillary Swank em "Meninos não Choram" (1999) e Ellen Fanning em "Três Gerações" (2015)

A diretora reconhece a lacuna – e entende a cobrança de incluir um homem trans no papel principal – mas defende que o casting será aberto para “muita gente”. “Eu também acho que deve ter um protagonista trans. Mas o personagem precisa ter um perfil certo, aparecer na hora certa e do jeito certo. Quero muito que seja um homem trans, mas tem que tocar o meu coração. Isso é o principal”.

Para os atores interessados, Patricia afirma que o casting deve ser aberto somente no fim de 2016. É que, após ter sido contemplado pela Secretaria Municipal de Cultura e pelo Itaú Rumos, os próximos passos da produção é enviar o roteiro, esperar a captação, e, assim que o investimento estiver nas mãos da equipe, iniciar o casting e “botar a mão na massa”. 

Em eventos, mesas e manifestações, João anda conversando com vários garotos trans que trabalham como ator ou que sentem vontade de atuar. Declarou que tem um que é a cara dele quando jovem. Mas diz que, mais que a vontade da representatividade, "o principal é ser um bom ator". "Caso não seja um homem trans, prefiro que fosse um homem cis que uma mulher cis. Politicamente seria melhor”.  

“POR TRÁS DESSA HISTÓRIA EXISTEM VÁRIAS OUTRAS”

Antes de iniciar o longa, Patricia gravou os curtas “Ontem” (2010) e “Irene” (2011) e estava iniciando um documentário para falar sobre papeis de gênero e sexualidade. Foi quando ela encontrou o livro de João e entendeu tudo o que estava pesquisando no rodapé. “Fiquei muito mexida porque, de certa forma, é uma história de 30 anos e que a gente ainda está discutindo hoje”, declara.

Ela entrou em contato com o João e logo estava na casa dele para discutir o filme. “Fui para o Rio de Janeiro, conversei com ele, montei um cronograma e falei: ‘João, não tenho grana agora, e não vou fazer o projeto sem você autorizar. Peço um ano para você ceder os direitos e, se eu não conseguir depois da data, você pode vender o projeto ou fazer o que quiser com ele. Em seis meses, a gente conseguiu ser contemplado”, comemora.




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João afirma que deixou que a diretora ficasse absolutamente livre para escrever o roteiro, incluindo até mesmo elementos ficcionais. “O filme não é meu, é da Patrícia. E o roteiro, que é inspirado no livro, também é dela. A minha única exigência foi que eu lesse o texto final antes de ele ser apresentado”, diz.

A diretora afirma estar sensibilizada com o tema e mergulhada na questão. “É um filme muito humano, pois sei que por trás dessa história existem muitas outras. Pego os assuntos principais do livro e esfrego na cara das pessoas para que haja a reflexão”, diz. Ela declara também
 que o fato de ser cisgênero, branca, lésbica e de classe média faz com que muitas pessoas questionem o trabalho. “Mas minha intenção não é me apropriar deste discurso, é justamente dar voz para essas pessoas falarem". Durante o roteiro, Patricia manteve diálogo com os militantes do IBRAT Luciano Palhano, Alexandre Peixe dos Santos.

João, por sua vez, só pensa na visibilidade que o filme pode conquistar. “É claro que estou feliz, mas não é uma questão de ego, pois já passei dessa fase. É mais uma forma de visibilidade. A literatura tem um grande alcance, mas o cinema tem um alcance muito maior. O objetivo é poder chegar à população o que passa um homem trans, o que é a transexualidade, de botar o público para pensar e fazer muita gente que nem sabe o que é um homem trans a falar sobre o assunto”.

Assista a uma entrevista de João Nery:



About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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