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"1ª Caminhada pela Paz" emociona e marca luta histórica contra a transfobia




Por Neto Lucon (fotos: Alex Bencke)

Faixas, gritos, música, corpos ressignificados e empoderados e uma performance emocionante para repudiar todos os assassinatos transfóbicos – o preconceito contra travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras identidades.  Foi assim que cerca de mil pessoas (mais de 500 segundo a PM) compareceram à 1ª Caminhada Pela Paz – Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito – neste sábado (30) na Avenida Paulista até a Câmara de Vereadores, em São Paulo.

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Organizado pela CAIS (Associação Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais), o evento teve a proposta de repudiar todos os crimes motivados por transfobia – que coloca o Brasil em primeiro lugar no ranking mundial contra a comunidade trans – e dar visibilidade ao Dia Nacional da Visibilidade Trans, que ocorreu no dia 29.

“Conquistamos visibilidade e falamos sobre transfobia. Nesta Caminhada, foi importante ver travestis, mulheres transexuais, homens trans e apoiadores unidos num mesmo propósito, carregando as faixas, orgulhosos de seus corpos, reivindicando direitos e mostrando para esta sociedade que também somos sociedade”, diz a presidente da CAIS Renata Peron. “Ao todo, da concentração ao fim, tivemos mais de 1000 pessoas".

A concentração ocorreu no Vão livre do MASP por volta das 13h, onde ativistas, militantes, artistas e apoiadores da causa T se prepararam para dar início ao evento. Enquanto várias pessoas escreviam em cartazes, faixas e falavam sobre a questão trans, os cantores Chokito e Luciano Palhano tocaram e cantaram música popular brasileira, todas falando sobre paz, perseverança e resistência. 

As Mães pela Diversidade colheram assinaturas entre os presentes para um abaixo-assinado que solicitava uma audiência pública com os vereadores de São Paulo para debater as demandas da comunidade trans. Segundo a CAIS, faltou pouco para mil assinaturas no dia, somadas a outras 500 online, que foram entregues para o vereador Toninho Vespoli (PSOL).







A CAMINHADA

Um dia antes de ocorrer o ato, a organização recebeu um comunicado da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), dizendo que a caminhada não estava autorizada a ocupar a Avenida Paulista para não atrapalhar o trânsito e que o carro de som poderia ser multado. 

Sentindo que a decisão tinha cunho transfóbico – afinal, várias outras ocorrem no espaço sem qualquer interferência- Renata Peron decidiu resistir ao comunicado e colocar, sim, as pessoas trans e apoiadores da causa na rua. Mostrou as identidades Ts não se intimidam e provou, como disse já Luana Muniz no programa "Profissão Reporter", da TV Globo, que travesti não é bagunça.

Às 14h, vários Fóruns, autoridades e representantes já estavam discursando em cima do trio. Representando o IBRAT – Instituto Brasileiro de Transmasculinidades - Samuel Silva declarou: “Eu nasci com boceta, e sou homem como qualquer outro. Nós, homens trans, estamos cansados de sermos esquecidos pelo movimento LGBT. Estamos cansados de sermos estuprados e silenciados e de ninguém fazer nada”, discursou ele, recebendo apoio dos presentes.

Por volta das 15h, a caminhada estava nas ruas e contou com a apresentação de Alexandra Braga, militante de Mogi das Cruzes e mulher transexual que ficou nacionalmente conhecida após participar ao lado do marido, Alex Chagas, do quadro “Lata Velha”, do programa Caldeirão do Huck. “O evento abrirá portas para a dignidade e respeito das pessoas trans. A caminhada chegou ao objetivo, todos estavam na mesma sintonia, um ato pacífico e na paz”, declarou.

Dentre os cartazes, as mensagens de empoderamento: "O CIStema faz você odiar as pessoas que estão oprimidas e apoiar as pessoas que estão oprimindo. Nós queremos ter o direito de amar e viver a liberdade, o respeito e a dignidade. Basta de Transfobia", "Lei de Identidade de Gênero Já. Meu nome, minha identidade, meu direito". E: "Nem do Estado, nem da Igreja: esse corpo é meu! Sou homem trans e quero dignidade e respeito".  









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A caminhada tomou corpo, engrossou, seguiu pela Avenida Paulista, desceu a Rua Augusta rumo à Câmara. Durante o percurso, Renata Peron cantou a música “Ferida”, uma paródia sobre a comunidade trans do hit “Comida, de Titãs”, embalou o grito “Não à discriminação, atrás do silicone também bate um coração”.

O cantor André Lino fez um solo de “Balada do Louco” e o DJ Fab Canne – que é homem trans – tocou músicas cantadas por artistas trans ou com referência ao tema, como “Um Beijo”, de MC Xuxu. Todos cantaram e dançaram o funk: 

"Um beijo pra quem é DJ,
Um beijo pra quem é MC,
Um beijo pra quem é do bem,
Um beijo pras travesti"

“Quando li o post procurando por DJ no Facebook, na hora solicitei participar voluntariamente. Tanto porque amo o que faço quanto por também ser trans e querer poder ajudar na causa de alguma forma. E vou continuar como puder”, declarou Fab.

Várias pessoas discursaram durante o trajeto. Dentre elas, a militante Daniela Andrade, que discorreu as demandas da comunidade T, a modelo Viviany Beleboni - a travesti crucificada na Parada - e o ator Thammy Miranda, que disse se aproximar da comunidade para “representar cada vez melhor” e “não falar nenhuma besteira”.






Ao NLucon, Thammy comentou: “Não podemos parar de remar. Para frente, sempre. Vamos transformar todo preconceito em amor. Porque é só o que temos para dar... Muito amor”. Neste ano, Thammy está cotado para entrar na nova novela de Glória Perez, que promete dar visibilidade à causa trans.

Já Viviany afirmou que fará uma nova performance na Parada LGBT deste ano focando na questão religiosa. "É a bancada fundamentalista que está barrando os nossos direitos. Vou novamente focar nesta questão".

O militante e estudante de direito Léo Barbosa, que é homem trans, chamou atenção para o empoderamento do corpo das pessoas trans: "Precisamos legitimar os nossos corpos e não precisamos adequar os nossos corpos aos corpos de pessoas cis. Elas tem os corpos delas. E nós temos os nossos". Também foi muito aplaudido.

OS CRIMES

Duas faixas levantadas lembraram dois crimes cometidos contra a comunidade trans. O primeiro envolvendo Laura Vermont, travesti de 18 anos que foi espancada na rua e morta por cinco homens e que, ao ser socorrida pela polícia, levou um tiro dos próprios policiais. Eles chegaram a mentir e omitir a informação, mas o exame do IML comprovou o disparo. Nem por isso foram presos.

Outro é sobre Verônica Bolina, que foi presa ao agredir uma vizinha e que sofreu abusos na cadeia. No presídio masculino, ela foi espancada e torturada por policiais e dentre as agressões teve uma vassoura enfiada em seu ânus. Verônica continua presa, mas todos os assassinos de Laura e os policiais que abusaram de Verônica continuam soltos


De acordo com a organização Transgender Europe, 51% (689) dos assassinatos de pessoas trans na América Central e do Sul, entre 2008 a 2014) aconteceram no Brasil. E a maior parte é contra jovens.

A professora de filosofia Luiza Coppieters, que é mulher transexual e lésbica, disse: "Uma vida digna é uma vida em que a pessoa não sofra violência. E violência não é só física, ela pode ser psicológica. E nós sabemos muito bem disso toda vez que saímos de casa". A professora Paula Beatriz também discursou e frisou que procura levar a bandeira trans para a sala de aula. "Sempre briguei, discuti e estarei falando sobre gênero".


TRAVESTIS ENSACADAS

Quando a caminhada parecia chegar ao fim, uma performance surpreendeu os presentes no Palácio Anchieta, sede da Câmara Municipal de São Paulo. Ao som de Rise Like a Phoenix, de Conchita Wurst, várias pessoas trans e cis se vestiram com sacos plásticos pretos e deitaram na rua, envoltos de velas e bandeira trans (rosa, branca e azul) ensanguentada.

A música dizia “Os vizinhos dizem que somos um problema, esse tempo já passou” e as lágrimas rolaram. A performance terminou com 1 minuto de silêncio em memória a todos os assassinatos transfóbicos.


A apresentadora Alexandra, que participou da performance, se emocionou: “Chorei muito ao encenar as vítimas trans assassinadas por transfobia. Senti a dor de cada uma que foi morta. Tenho certeza que nossa voz chegou longe e que todos sabem que não queremos privilégios, queremos viver seguras e com dignidade”.






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Angela Lopes, militante transexual, ex-gestora pública de São Carlos  e organizadora, disse que o último ato foi fortíssimo e que representa a realidade. “Não foi uma encenação, aquilo ali é o que acontece na vida real”. Ela também declarou que teve sentimento de vitória e empoderamento durante o percurso.

“A caminhada foi histórica e me emocionei desde o momento em que cheguei na Paulista e vi que tínhamos mais de 500 pessoas. E a ideia é mostrar isso: o potencial humano desses indivíduos que são desumanizados. A expressão de vida destas e destes que historicamente são invisibilizados e deslegitimados como pessoas, seres humanos e cidadãos de direito. Foi um marco histórico para a cidade de São Paulo e um marco histórico para a militância de travestis e transexuais”.


Renata Peron também diz que a avaliação é positiva e que o número superou as expectativas. “Fiquei emocionada quando vi que a gente conseguiu colocar as pessoas na rua. Depois, quando a caminhada saiu, tomou forma e eu senti a concretização de um sonho. Também no meio do percurso, quando estávamos na Rua Augusta e eu vi o pico no número de participantes, e pessoas que estavam na rua entrando na caminhada. Agora, na performance final, eu chorei mesmo. Lembrei de todas as vítimas de transfobia, todos os preconceitos que passamos e todas as dificuldades que tivemos para realizar. Me tremi toda (risos)”.

PRÓXIMOS PASSOS

Ao dar um abaixo-assinado para Toninho Vespoli, Renata solicitou que ele e outros vereadores contratem pessoas trans. E que o debate sobre a identidade de gênero seja realizado com dignidade na política. “Esse abaixo assinado é uma provocação, não só com a sociedade, mas jurídico, vereadores e legislativo. Esquecem que nós votamos, somos eleitores e eleitoras”, disse, fazendo um adendo para a união dos movimentos.

“Gostaria que ocorresse esse união não só na caminhada, mas no ano inteiro. Porque no dia em que todos pensarem no coletivo, pedindo dignidade e respeito, teremos alguma mudança. Contamos com a presença de todas e todos na próxima caminhada, que certamente vai ocorrer em 2017". 





Angela falou sobre a importância de ir às ruas: “Acredito que a partir desta caminhada a militância entenderá o seu potencial de ir para a rua. Ir para rua é o que de fato toca, mobiliza e mostra a expressão. Ir para rua, focando na comunidade trans, é o que estava faltando para empoderar o movimento”.

Após conferir a caminhada do trio, Daniela Andrade acrescenta. "Faço uma avaliação muito positiva da caminhada. As pessoas trans e travestis precisam manifestar a preocupação com nossos direitos diariamente violados em todos os espaços possíveis; e creio que a rua é um desses importantes locais. É preciso esfregarmos na cara da sociedade e do estado que existimos e que visibilidade também deve significar respeito aos direitos e garantias fundamentais de grupos discriminados".

Responsável pelas fotos desta matéria, Alex Bencke declara ter vivido uma tarde de militância emocionante e inspiradora. "Foi incrível ter feito parte desse momento. Esse dia vai entrar pra história e os esforços feitos pela CAIS e por todos os envolvidos pra lembrar as nossas perdas e evitar que novas aconteçam são inspiradores". 


VERA HOLTZ


Vale lembrar que o ato contou com o apoio da atriz cis Vera Holtz, que divulgou um vídeo em que segura uma placa e anuncia a Caminhada. Outros artistas trans também apoiaram, bem como Mel Gonçalves (a Candy Mel da Banda Uó), o cantor Erick Barbi.

* Integrante da CAIS, o NLucon também esteve na organização desta caminhada.

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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