Pop e Art

Após críticas e boicotes, Oscar começa a discutir racismo e diversidade



Por Neto Lucon

A 88º edição do Oscar, que ocorreu na noite de domingo (28) estava com script pronto. Falar sobre racismo e falta de diversidade entre os indicados (tema importante que perpetuou nos últimos meses), a quinta sofrida indicação de Leonardo DiCaprio, performance de Lady Gaga, a supremacia de Mad Max e, no Brasil, os comentários pouco aprofundados de Glória Pires.

+ Cantora trans é indicada ao Oscar, mas opta por boicotar


O fato é que o Oscar, mesmo considerado um evento de brancos cis para brancos, héteros e cis, tornou-se um palco para o debate – e, quem sabe, para mudança nas próximas edições. 

Não foi por acaso que o ator e apresentador Chris Rock fez em sua abertura um monólogo em que critica e ironiza a ausência de indicações de atores negros em todas as categorias. Pois é, não houve uma pessoa negra sequer entre os atores indicados. Ele diz que, a exemplo de outros colegas, até pensou em boicotar, mas que não aceitou a sugestões de amigos desempregados e que toda a discussão pode ser resumida em... Oportunidade.

“O que a gente quer é oportunidade. Queremos que atores negros tenham as mesmas oportunidades. E só. Não só de vez em quando. Leo (Dicaprio) consegue um grande papel todo ano. Todos vocês conseguem grandes papéis o tempo todo. E os negros?”, declarou ele, que anteriormente declarou que ao longo da história o Oscar foi racista e que na parte do “in memoriam” iam mostrar “pessoas negras que foram baleadas por policiais a caminho do cinema”.

"White People Choice Awards": 



.
Oportunidade. Palavrinha que a única indicada trans, Anohni, em melhor canção original para o documentário “A corrida Contra a Extinção”, não teve ao não ser convidada para se apresentar ao vivo, diferente dos outros concorrentes comerciais. Ela preferiu não comparecer porque se sentiu humilhada por ser referida pela mídia como “a indicada que foi cortada da apresentação da cerimônia”. 

Oportunidade que atrizes travestis e mulheres transexuais e atores homens trans também não encontram na indústria e que, mesmo com personagens com tais características e vivências, são facilmente preteridos a atores cis. Um exemplo é o filme “A Garota Dinamarquesa”, indicado em duas categorias, que aborda a vida de Lili Elbe, uma das primeiras mulheres transexuais a passar pela cirurgia de redesignação sexual. Todos os artistas envolvidos no longa, bem com os indicados ao Oscar por ele são... Cisgêneros. 

Vale ressaltar que Alicia Vikander (foto), que vive a esposa de Lili, Gerda, venceu na categoria “melhor atriz coadjuvante”. E que o ator Eddie Redmayne (Lili) chegou a concorrer em “melhor ator”, mas perdeu para o favorito Leonardo DiCaprio, que esteve em “O Regresso”. Pois é, finalmente DiCaprio levou!






.
Entenda, não se trata de reclamar que o Oscar não premiou ou não indicou atrizes ou atores trans, negros, LGB... Tampouco minimizar a atuação dos atores de A Garota Dinamarquesa ou de outras produções. Mas justamente de encarar isso como resultado da supremacia de um grupo frente a ausência de oportunidade de trabalho dentro da indústria para pessoas de outros grupos. Uma exclusão baseada, sim, no preconceito histórico.

Trata-se de lutar, portanto, para que estas pessoas sejam escaladas, tenham oportunidade de emprego e, ao mesmo tempo, que tenham a oportunidade de bons e relevantes papeis. 
Em outras palavras, queríamos que Laverne Cox, Mya Taylor ou Jamie Clayton tivessem a mesma oportunidade que Angelina Jolie, Juliane Moore e Kate Winslet todos os anos.

E prestem atenção no discurso de Mya ao vencer o "Filme Independente Spirit Awards" deste ano pelo filme Tangerine: "Há muito talento transgênero por aí... Então é melhor você se levantar e nos colocar nos próximos filmes". 
Faça o exercício de estender tudo isso para latinos, deficientes físicos, indígenas, anões, mulheres em categorias predominantemente indicadas por homens, filmes incríveis mas com baixo investimento, atores assumidamente gays (...) e toda gama que se possa entender por diversidade.   

Dentre os momentos positivos, a cantora Lady Gaga trouxe em seu número – que concorria com a música Til it Happens To You, do documentário The Hunting Groud – várias vítimas de abuso sexual em universidades dos EUA para o palco da premiação. A performance foi emocionante e tocante. Já Sam Smith, que levou a estatueta com a música Writing’s On The Wall, de “007 Contra Spectre”, dedicou o prêmio aos LGBT do mundo. 

“Eu estou aqui como um orgulhoso homem gay e espero que um dia nós todos podemos ser iguais”, disse. 


Ao fim, Mad Max levou seis estatuetas (dentre elas, melhor figurino, maquiagem e cabelo, montagem, edição de som...), o documentário “Amy”, sobre a cantora Amy Winehouse venceu, e Brie Larson ficou com o troféu de “melhor atriz”. O melhor filme ficou para Spotlight: Segredos Revelados”, que também faturou “melhor roteiro original”. 

Fica a dúvida: será que o Oscar, diretores e a indústria cinematográfica vai se atentar finalmente para a questão da diversidade e representatividade ou continuar fingindo que isso não é importante? Séries de TV e outras produções já se atentaram a isso, com excelentes resultados. Viola Davis, no último ano, venceu o Emmy pela professora de direito da série How To Get Away With Murder. Foi a primeira atriz negra a levar esta estatueta e que, vejam só, bateu na mesma tecla. "A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade". 

Por enquanto, o Conselho de Diretores do Oscar já anunciou que aprovou mudanças drástica que afetarão a composição nos próximos anos: o número de mulheres e representantes de minorias vão dobrar entre os mais de 6.200 membros até 2020. Com outros avaliadores e outros olhos menos viciados na branquitude, o perfil dos indicados podem mudar consideravelmente.

Sobre outros comentários mais aprofundados sobre os vencedores e indicados, farei como a Glórinha abaixo. Até porque nesta edição o que menos importou foram os filmes. 





About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.