Pride

Homem trans negro, Marcelo Caetano se forma pela UnB e emociona em discurso

Crédito: Oliver Kornblihtt 
Marcelo Caetano é o primeiro homem trans negro a se formar em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB). Durante a formatura, que ocorreu na quinta-feira (17), o cientista político emocionou os colegas e amigos com um discurso necessário e importante.

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Dentre as várias reflexões, questionou para quem e para quê servem as universidades, criticou os métodos de pesquisa que só querem falar sobre o outro, sem que o outro tenha oportunidade, e apontou até mesmo sobre o Estado Democrático de Direito. "Se a democracia existe, ela não é para todos".

"Os mortos da democracia se acumulam. Já não se escondem mais nos porões. Mas ficam expostos em plena luz do dia, nas vielas de uma quebrada qualquer. Se a democracia existe, ela não é para todos. Mas hoje saímos daqui com o poder de dizer. É nossa responsabilidade combater esse genocídio. Um genocídio que começa aqui dentro. Quando são brancos todos os nossos professores. Quando é branca e masculina toda a nossa bibliografia. Se a ciência pensa que tem todas as verdades. Digo que não".




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Em seu Facebook, Marcelo declarou ter escutado de alguns amigos que o diploma não era algo "tão importante assim". "Esquecem que, dependendo de quem você é, significa outro mundo. É a diferença entre o termo e o uniforme da cadeia, entre o emprego e a rua, entre o sonho e a fome (...) Tenho muitas coisas para pensar e para dizer o que olhar para o lado e não enxergar nenhum rosto negro junto aos seus colegas; saber-se a única pessoa trans a ter tido a oportunidade de falar naquele púlpito; talvez a primeira pessoa trans a discursar em uma graduação de universidade pública. Há ainda muito a se pensar, um outro tanto a se fazer".

Vale ressaltar que na UnB, Marcelo chegou a travar algumas batalhas para que o nome social fosse respeitado por professores, na carteirinha de identificação da universidade e para que sua identidade de gênero fosse respeitada em todos os espaços.


Assista ao vídeo do discurso e, abaixo, leia-o na íntegra:




"do alto dos seus títulos
daí de onde você vê
a universidade é pra quê?
pra caber quem?
dentro da sua sala
você se esconde
pra não ver lá fora
ou pra quem tá lá fora não te ver?
o conhecimento que você produz
é pro povo ou pro cnpq?
pra sociedade ou só pra enfeitar lattes?
se quem tá dentro
não vê os muros em volta
quem vê de fora
não enxerga nada além da muralha
se no meio da aula
você diz que eu tô todo errado
eu te digo que pra chegar até aqui
atravessei cerca de arame farpado
você escreve
artigo, livro, capítulo
resumo, paper, ensaio
fala da gente
sem nem lembrar
de olhar no olho da nossa gente
alcança seus índices de produtividade
no dia seguinte,
não sabe nossa cara,
nosso nome, desconhece nossa identidade
nossa cor é objeto de pesquisa
nosso sexo, etnografia
nossas casas são seu campo
e seu olhar
branco, macho, eurocentrado
justifica-se com metodologia

na sua nota da capes
o que conta mais:
seus pontos ou nossa voz?
sua tese ou nossa história?
o que vale mais:
suas oito páginas de referência
ou a nossa ancestral experiência?

e não pense que entramos aqui por favor
que não merecemos
ou que qualquer coisa aqui nos foi dada
cotas não são presente
são só um pequeno pedaço do que nos devem
chegamos aqui forjados
pelos que nos precederam
não se esqueçam:
nossos passos vêm de longe
se estou aqui hoje
é só porque tantos outros já vieram
erguer muros não vai nos impedir de entrar
se precisar,
nós vamos derrubar
tomar de assalto o que é nosso
e não queremos só um lugar à mesa
queremos interromper o jantar
e começar tudo de novo
reerguer uma universidade que seja do povo e para o povo
onde não apenas se fala sobre o outro
mas onde o outro se torna um nós que é capaz de falar sobre si mesmo
não criem a ilusão
de que tudo que se diz na academia é a verdade
mas lembrem-se: é sempre poder
inclusive, o poder de dizer
o que é a verdade
como cientistas políticos
termos lugar para dizer o que é a democracia
vivemos em uma, nossos professores vão dizer
Estado Democrático de Direito é o seu nome
Será mesmo?
pois vamos aos fatos:

Planaltina, Distrito Federal, 26 de Maio de 2013. Antonio Pereira de Araújo, auxiliar de serviços gerais, é detido em abordagem padrão. Conduzido à delegacia, nunca mais foi visto.
Rocinha, Rio de Janeiro, 14 de Julho de 2014. Amarildo Dias de Souza, pedreiro, limpava peixe na porta de casa quando policias que conduziam a operação “Paz Armada” o abordaram. Nunca mais foi visto.

Grajaú, São Paulo, 16 de Outubro de 2015. Yago Pedrosa Araújo, estudante de 16 anos, é parado em mais uma abordagem daquelas: padrão! 4 dias depois é encontrado morto, executado. Nunca mais foi visto vivo.

Infelizmente, a lista poderia continuar: Cláudia Ferreira da Silva, Cristian do Carmo, Rafael de Souza Paulino, Roberto de Souza Penha, Carlos Eduardo da Silva de Souza, Wilton Domingos Junior, Cleiton Correa de Souza e tantos outros.

Os mortos da democracia se acumulam
Já não se escondem mais nos porões
Mas ficam expostos, em plena luz do dia
Nas vielas de uma quebrada qualquer
Se a Democracia existe, ela não é para todos
Mas hoje, saímos daqui com o poder de dizer
É nossa a responsabilidade de combater esse genocídio
Um genocídio que começa aqui dentro
Quando são brancos todos os nossos professores
Quando é branca e masculina toda a nossa bibliografia
Se a ciência pensa que tem todas as verdades
Digo-lhe agora que não
Que não sabe o que é caminhar com a cabeça na mira de uma HK
Que não sabe o que é ter o corpo vendido por séculos
Ter a mente diminuída, ver todo um povo destruído
Essa ciência que trabalha com hipóteses
E esquece que o que chama de objeto é feito da carne viva
Ainda aguardamos pelo dia
Em que o preto estará no rosto
Mais do que nas becas
Em que as travestis estarão na escola
Mais do que na esquina
Se esse dia não chega, a gente toma!
Nada nunca foi dado, porque agora seria?
mas ainda vai chegar o dia
Em que outros tantos como eu
Estarão aqui e poderão dizer
Tudo nosso, nada deles!"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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