Entrevista

"Estado é o maior inimigo das pessoas trans", diz João Damico, que luta por cirurgia



Por Neto Lucon

Grande parte da população não sabe, mas há muitas pessoas no Brasil que enfrentam a luta por sua própria identidade e também pelo desafio e até a “autorização” (por meio de laudo) de fazer as mudanças que almeja em seus próprios corpos. São pessoas trans, que buscam não somente estética, mas saúde física, mental e social.

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O jovem João Felipe Damico é um deles. Homem trans de Campo Grande, ele divulgou nas redes sociais uma alternativa para conseguir olhar-se no espelho com mais conforto: uma rifa no valor de R$ 10 para conseguir dinheiro e, assim, realizar a mamoplastia masculinizadora (a remoção dos seios), que chega a R$ 12 mil.

A cirurgia é dada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, mas o número de cirurgias realizadas é baixo perto da alta demanda. E, de acordo com alguns militantes trans, a fila de espera pode levar até 10 anos. Além disso, toda pessoa trans precisa de um laudo psiquiátrico, realizado durante dois anos no mínimo, para atestar a sua transexualidade e dar entrada para esperar por mais tempo.

Aos 22 anos, João alega não querer ficar tanto tempo – no caso, estaria com 32 - sem conseguir se olhar no espelho, andar sem camisa na praia ou num parque, e se sentir confortável com o próprio corpo. “Não me vejo nu no espelho, vejo uma casca que precisa ser quebrada”, declara ele ao NLUCON. “Meu maior sonho é a cirurgia. Pretendo sair sozinho, sem camisa, ouvindo minha música preferida e sentir o vento tocar meu corpo. Meu corpo. Meu”.

Abaixo, João fala não somente sobre as cirurgias, mas também sobre sua vivência trans, a exemplar aceitação familiar que recebeu, militância, fontes de pesquisa sobre a questão trans e futuro. 

- Assim como alguns homens trans, você está recorrendo a uma vaquinha online para conseguir a mamoplastia masculinizadora. Essa é uma alternativa frente à falta de suporte e cirurgias que o governo oferece aos homens trans?

Sim, absolutamente. Partindo do princípio de que é impossível operar pelo SUS, por motivos de a fila de espera levar anos, anos, anos e o poder público usar a venda e não perceber que existimos. Para conseguir o uso do nome social na faculdade é uma guerra. Como se não tivéssemos o direito de usar nossos nomes em todos os ambientes. Para mim, o Estado é o maior inimigo da comunidade trans. A alternativa mais justa que eu encontrei foi a venda das rifas e consequentemente a colaboração voluntária da galera.

- Muita gente desinformada questiona a necessidade da cirurgia e diz que se trata de uma questão meramente estética – e não como saúde. O que podemos dizer para estas pessoas?

Acho muito rasa essa afirmação de que é uma questão meramente estética. As pessoas não fazem ideia do que essa cirurgia representa na vida de um guri trans com disforia gritante. Conheço meninos trans que não tem disforia com os seios, mas tem com a genital. Outros, não tem com a genital mas tem com os seios. Eu estou no segundo grupo. O que eu diria para estas pessoas é que elas se olhassem nuas no espelho e se observassem. Eu tenho quase 23 anos e nunca me vi frente ao espelho e nu. O que eu vejo é uma casca que precisa ser quebrada. Talvez isso responda.

- Você já conseguiu o dinheiro suficiente para a vaquinha? Tem recebido muitas mensagens de incentivo?

Não consegui, infelizmente. O valor gira em torno de 10.500 a 12 mil, incluindo cirurgia, equipe médica, 24 horas no hospital, colete pós operatório e medicamentos. O médico é o Dr Alcebíades Duré. Recebo muuuuitas mensagens incríveis de pessoas mais que maravilhosas. Uma que me marcou muito foi a de uma menina que mora em Minas e ela me mandou a seguinte mensagem: "Obrigada pela atenção. Assim que eu depositar eu te aviso. E boa sorte, que Deus acompanhe a todo momento. Minha mãe (vó) tem 72 anos... eu costumo ler as coisas pra ela no face, e ela se interessou muito em te ajudar. Pediu muito pra que eu te dissesse que vai dar tudo certo, que está rezando por você... Boa noite João, beijo meu e dela.’’ Lindas!

- Você mora no Mato Grosso do Sul. O que pode dizer sobre o atendimento de saúde daí para homens trans?

Não existe atendimento de saúde para homens trans aqui no Mato Grosso do Sul (risos). Em Campo Grande, na Capital, onde eu moro, só existe uma endocrinologista que atende pessoas transexuais. Uma profissional numa cidade com quase 900 mil habitantes. Como sei disso? Porque eu levei inúmeras portadas na cara quando comecei a me hormonizar e precisava fazer acompanhamento. O fiz sozinho apenas com informações pegas na internet durante 11 meses e então encontrei a Dr Renata e hoje a indico para os guris que estão começando. Recentemente foi aceita a petição do movimento trans para que o ambulatório se tornasse uma realidade em nossa cidade. As assinaturas que compravam a demanda e consequentemente a necessidade em se ter esse ambulatório foram entregues, mas até agora não houve nenhuma resposta.
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- Qual é a sua opinião sobre a obrigatoriedade do laudo para a mudança de nome e gênero nos documentos e cirurgias? Aliás, você já mudou a documentação?

A transexualidade é como eu me sinto, como me vejo e como desejo ser visto, então, a partir do momento que eu preciso da autorização de uma outra pessoa para ser quem eu sou, a partir desse momento, o significado de tudo o que envolve identidade de gênero é quebrado. Parece que fui acusado de um crime e preciso provar que sou inocente. Quando, na verdade, o criminoso é o Estado que me impede de ser livre. Entrei com o processo de retificação em abril de 2015 e até agora não tive nenhuma audiência. Nadica de nada. 

- Você diz que o Estado é o maior inimigo da comunidade trans. Não acha que, comparando com alguns anos atrás, há mudanças significativas para esta população? Por exemplo: hoje temos uma fila com um grande tempo de espera para a cirurgia, mas antigamente sequer existia uma fila...

Eu considero o Estado o maior inimigo burocrático da comunidade trans pela falta de empenho para conosco. O Estado nos dá esmolas, essa é a verdade. O que adianta existir uma fila se é quase impossível operar pelo SUS? Migalhas e mais migalhas, e merecemos muito mais que migalhas. Para você alterar o seu nome, seu nome, você depende do Estado. Para você fazer qualquer cirurgia, você depende do Estado. O Estado não consegue lidar nem com as questões básicas, como uma segurança digna, e quer dar pitaco sobre o que uma pessoa é, quer dar pitaco sobre o que uma pessoa deve ou não fazer no seu próprio corpo. Porque a partir do momento que eu sinto a vontade ou a necessidade de fazer qualquer alteração seja no meu corpo ou documentos, a única vida que estará sendo mudada com isso tudo é a minha. Não vejo motivos para o Estado intervir tanto. Aí depois a pessoa se suicida e é pregado que a pessoa se matou por ser trans. Não. Ser trans não faz com que ninguém cometa suicídio. A transfobia e a falta de inclusão, sim, faz. 

- Além das mudanças do corpo, o que este processo tem contribuído em sua vida? Tem algum exemplo para falar?

O que é mais forte em mim é o fato de que, pela primeira vez na vida, eu estou me vendo. Eu estou observando meu renascimento, sabe? Lembro que quando começou a nascer minha barba, eu me olhei no espelho e apenas chorei. Chorei, chorei, chorei, chorei. Fico feliz com um pelinho a mais no rosto, na barriga ou nas pernas. Aprendi a enxergar e valorizar as pequenas coisas da vida. Coisas que eu jamais conseguiria valorizar se eu não fosse como sou.

- Você diz que só se entendeu homem trans depois de assistir a um programa de TV. Qual foi este programa e quem foi a sua referência de homem trans? O que mudou depois que se entendeu homem trans?

O programa foi o Na Moral, do Pedro Bial. Nesse dia, o tema era transexualidade e quando o Erick Barbi começou a cantar Tudo o Que o Mundo Vai me Dar, eu desabei. Até hoje, foi a coisa mais intensa que eu senti. O Erick foi, é e sempre será meu herói e minha referência mais sincera de admiração. O que mudou? Tudo (risos). Me encontrei. Soube que fazia parte de algo e que não estava sozinho no mundo. Cresci nos anos 90 e naquela época, a palavra transexualidade não existia. Cresci sem informação alguma. Os professores percebiam comportamento diferente, chamavam minha mãe e o meu pai para uma reunião e diziam: ‘’vocês tem que ensiná-la a ser uma menina normal’’. Mas de qualquer forma, sou muito grato aos meus pais, meu avô paterno, minha avó materna e todas as pessoas lindas que estiveram presente na minha vida durante a minha infância e impediram que ela se tornasse um desastre total. Vô, muito obrigado por ter comprado aquela botina que eu tanto queria aos 4 anos de idade.

- Você acha que ainda hoje há muitos homens trans que sequer sabem que são trans?

Acho sim. As informações dificilmente chegam e quando isso ocorre é de uma forma totalmente equivocada e sensacionalista. Eles colocam como se a transexualidade fosse um monstro, um bicho de sete cabeças e não é nada disso. Ouço muitas pessoas falando que ‘’agora todo mundo é transexual’’. Não! É porque agora as pessoas não tem vergonha de serem o que elas realmente são e enfrentarem!

- Em sua opinião, o que precisa ser desmistificado sobre ser homem trans?

Cara, se tem uma coisa que me irrita é a frase ‘’quer virar homem’’. Meu Deus, como me irrita!!! Ninguém quer virar nada. Ninguém acorda um belo dia e se diz transexual. É algo que com o tempo só se fortalece e vai se tornando mais nítido dentro da pessoa. O que precisa ser desmitificado é essa história de que ‘’quer virar homem, a menina que virou menino, se tem vagina é mulher, menina que se envolve com cara trans é lésbica...’’ Sério mesmo que uma pessoa pode ser definida apenas por uma parte do corpo?

- Recentemente, uma matéria do Jornal Nacional mostrou uma garota trans de 9 anos que conseguiu a mudança dos documentos. Você disse que aos 13 já se percebia diferente das demais crianças e que, ao se revelar homem trans em 2013, a sua família o apoiou. Foi simples assim?

Foi simples assim, graças a Deus. Era uma tarde de outubro, ano 2013. Eu comecei a chorar muito e minha mãe perguntou o que estava havendo. Eu disse pra ela: ‘’Olha pra mim, eu não sou uma menina! Odeio essa voz, esse rosto liso e essas mãos pequenas. Eu odeio esse corpo e esse nome. Isso tudo não sou eu, mãe.’’ Ela me abraçou, percebeu que eu me afastei. Ergueu minha camiseta e se deparou com vários hematomas causados pelos socos que eu dava nos meus seios. Me abraço novamente mais forte e perguntou ‘’Já escolheu o nome?’’

- Uau! O que diria para pais de filhos trans?

Pediria que eles compreendessem seus filhos e diria que a vida as vezes nos pregam surpresas mas isso não significa que essas não sejam lindas e únicas. Pediria que eles abraçassem seus filhos todas as noites antes de dormir e dissessem o quanto é grande o amor de vocês por eles. Encontrar o calor da família e o olhar de felicidade da mãe ao nos ver felizes é uma injeção de ânimo, sério. Ninguém pede ou escolhe ser transexual. É algo natural, leve, livre e lindo. Muito lindo.

- Tendo em vista que a informação é o melhor caminho para o conhecimento e o autoconhecimento, qual é a sua fonte de informação? E quais você indicaria para quem está neste processo?

Existem vários documentários sérios e bacanas, como por exemplo, Meu Eu Secreto. O David, dono da página Homens Trans também faz um trabalho muito legal. Um cara chamado Neto é outro que leva informações sensacionais (risos). Eu indicaria estes que já citei, incluindo documentários da BBC. No Youtube vocês poderão encontrar, o livro Viagem Solitária, do João Nery. Tem também vários artigos de psicólogos e psiquiatras que defendem a transexualidade. Leiam e assistam de tudo, menos programa da Luciana Gimenez (risos).

- Você faz parte de uma nova geração de homens trans? Vocês são unidos, trocam figurinhas?

Fiz amigos de verdade e troco figurinhas com esses guris. Mas como em todo grupo social, existem as ‘’inimizades’’. É normal. Mas no geral, a galera é unida. Alguns não se misturam com outros por conta de divergências políticas, por exemplo, mas os que estão juntos são muito unidos sim. Mas é aquela coisa, né, não é porque a pessoa é trans que ela tem que pensar igual a todos os outros trans do mundo. Antes de sermos trans, nós somos indivíduos.
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- Você tem uma aparência absolutamente masculina e pode ser encarado como mais um homem no meio da multidão. Por qual motivo você acha importante falar que é um homem trans publicamente?

Porque não quero que ninguém passe pelo o que eu passei. Porque não quero que o guri ou guria de 12, 14 anos perca anos de vida tentando entender o que está acontecendo, quando poderia ter acesso a informação e viver de acordo com sua identidade de gênero e ser, de fato, livre o mais cedo possível. As coisas que estamos lutando pra conseguir é algo que a próxima geração irá usufruir e isso me deixa esperançoso. Quero chegar aos 40, 50 anos e ver um guri trans de sei lá, 12 anos vivendo livre e sendo o que ele é. Sem burocracia, sem sofrimento, sem falta de informação.

- Diante do fundamentalismo religioso e de tantas violências transfóbicas, você tem medo de ser vítima? O que sente quando vê notícias referentes a ataques motivados por preconceito?

Tenho medo, sim, ainda mais por conta da exposição e tudo mais. Como você disse, eu poderia passar despercebido, mas não o faço porque sei que em algum lugar, uma criança trans pode ler algo que eu disser e sentir esperança de dias melhores. O que eu sinto? Cara, eu me sinto uma mistura de frustação, raiva e mágoa. Aquele sentimento de impotência, sabe? Eu morro de pena e na maioria das vezes procuro nem ler as matérias, de verdade.

- Qual é a sua opinião sobre a militância dos homens trans?

Acho a luta por liberdade importantíssima. Tenho algumas críticas em relação à militância, não nego e quem me tem no Facebook sabe disso. Mas eu os admiro. O assunto está aí e tem que ser discutido e exposto sim. Ninguém nasceu para viver nas sombras.

- O que pensa no futuro em relação à profissão?

Quero cursar Ciências Sociais e levar toda a minha experiência e aliar isso em prol da luta por liberdade.

- João, te sigo no Face e vejo que você recebe muitos elogios. Como lida com isso?

Pode não parecer, mas em alguns momentos eu fico com muita vergonha (risos). Mas eu gosto dos elogios. Quem não gosta? É um sinal que as pessoas me admiram e curtem minhas ideias.

- Qual é o seu maior sonho hoje? E o que pretende fazer assim que estiver recuperado da cirurgia?

Meu maior sonho é a cirurgia, claro. É o sonho da minha vida, na verdade. Eu pretendo sair sozinho, sem camisa, ouvindo minha música preferida e sentir o vento tocar meu corpo. MEU CORPO! MEU!

SERVIÇO:As compras das rifas ou doações podem ser realizadas por meio de depósitos na conta corrente do Banco do Brasil 37437-7, em nome de Pedro Medeiros, agência: 1873-2. Para o preenchimento das rifas as informações devem ser passadas pelo WhatsApp: (67) 9101 1255.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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