Pride

O enterro da transfeminista Kayla Lucas França e a mensagem ao mundo


Por Neto Lucon

O início deste mês foi marcado por uma triste perda para a comunidade trans, familiares e grupos de militância: a transfeminista Kayla Lucas França cometeu suicídio após diversos episódios de transfobia pela sociedade. O caso chocou a comunidade trans, familiares, amigos e apoiadores e evidenciou a necessidade de falar sobre transfobia, apoio e suicídio.

+ Kayla comete suicídio após sofrer transfobias; poderíamos ter evitado?

Sabendo que o enterro ocorreria na manhã do dia 4 no Cemitério da Saudade, em São Miguel Paulista, São Paulo, s
eis amigos e militantes, dentre eles este jornalista que vos escreve, se organizaram para dar adeus à Kayla. Durante todo o percurso, sentiam receio de serem expulsos do local por familiares ou enfrentarem alguma resistência. Motivo para a preocupação há de sobra.

Em outros enterros de trans, o corpo dessas pessoas voltaram para as mãos e o poder de familiares – muitos deles preconceituosos e transfóbicos. E que optam por, mesmo após a morte, desrespeitar a identidade de gênero daquela pessoa e enterrar travestis sendo homens, ou homens trans como mulheres. Inclusive na vestimenta e no nome que ficará eternizado na lápide - e que pouco diz sobre aquela vivência.

Em 2013, presenciei o enterro de uma amiga transexual que foi brutalmente assassinada em Campinas e que teve a identidade desrespeitada em vários momentos. Na mídia, foi anunciada como “enfermeiro gay é queimado vivo”, no velório a mãe gritava “mataram o meu filho” e na lápide encontrava-se o nome de registro. Só não foi enterrada de terno e gravata porque o caixão estava lacrado e o corpo estava muito degradado pelas agressões.

No velório de Kayla, diferente do que esperavam (e dos bastidores que há nesta tragédia), todos se surpreenderam. Havia logo na entrada um banner com imagens de Kayla abraçada à mãe Neguinha França e o nome social bem grande ao topo. As coroas de flores também respeitavam o nome. A própria mãe – que era uma das pessoas que nutria respeito pela identidade da filha - foi buscar o grupo e deu um forte abraço com lágrimas nos olhos. 

No caixão, a transfeminista estava serena e com uma roupa florida. 

O coração apertou quando a mãe abraçou Samantha, uma das amigas de Kayla, também trans e negra, e comentou sobre a semelhança entre elas. Depois disse para o grupo que gostaria de conversar com outras mães de LGBT. E terminou: “Não façam isso, existem outras maneiras de pedir ajuda, outras maneiras de protestar. Se cuidem”.

Antes de irem embora, o pai
 demonstrou a vontade de que o nome social de Kayla estivesse escrito no túmulo, sublimando totalmente o nome de registro. Na quinta-feira (25), a mãe publicou uma foto da lápide onde Kayla está enterrada. 

De fato o nome que ela escolheu para si estava lá: Kayla Lucas França, bem como a frase Hasta Siempre (até sempre), que ela havia escrito em sua carta de despedida. “Até sempre minha estrela, te amo tanto”, escreveu Neguinha na rede social.

Para Kayla, esse reconhecimento por sua identida feminina já não vale agora, quando o pulso já não pulsa. Mas vermos sua identidade sendo respeitada é um soco no estômago dessa sociedade transfóbica. Fica a mensagem às inúmeras famílias preconceituosas e relações pautadas pelo preconceito: faça as pazes com as escolhas dos seus filhos e filhas. Mesmo que vocês não entendam ou não aceitem, exercitem o respeito. Porque os mortos sempre ficam em paz, mas os vivos continuam a carregar o peso das escolhas mesquinhas que fizeram. A família de Kayla entendeu (já havia entendido), que o preconceito nunca é o caminho, tampouco prova de amor.

A luta contra a transfobia - este mal que acaba, assassina e faz muita gente desistir da vida - continua. Kayla, presente!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Beto disse...

Difícil ler essa matéria sem encher os olhos de lágrimas.

Anônimo disse...

Depois de tanto tempo eu ainda choro ao ver o rosto dela, eu só consigo lamentar por isso...

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