Pride

Transfeminista Kayla França comete suicídio após transfobias; poderíamos ter evitado?




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Desde que Gabriela Monelli cometeu suicídio em 2013 – e outras travestis e mulheres transexuais também cometeram dias depois – optei por não divulgar mais tais casos. Existe uma discussão dentro do jornalismo de que, ao divulgar casos de suicídio, o profissional pode indiretamente provocar o que chamam de “suicídio por repetição”.


Mas num momento em que se falam sobre assassinato por transfobia – e que esses números são minimizados e questionados até por militantes gays cis - é necessário atentar para outro tipo de violência que leva muitas travestis, mulheres transexuais e homens trans à morte. O suicídio frente ao sistema (ou CIStema) de transfobia. E pensar estratégias para impedir que casos como o debaixo se repitam.

Morreu na madrugada de quarta-feira (3) a militante transfeminista Kayla Lucas França – jovem atuante na militância e que há poucos dias participou da Caminhada pela Paz – "Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito”. De acordo com relato de amigos, ela se jogou do apartamento onde morava em São Paulo, capital, depois de escrever um texto no Facebook em que relatava as pressões transfóbicas e que se despedia num último suspiro:

Como desistir de quem você é? Isso não significa a própria morte?
E quantas vezes nós morremos esse mês?

Segundo a amiga Samantha Andrade, Kayla era uma pessoa tranquila, quieta e que na noite de terça-feira (2) chegou a mandar mensagens estranhas, bem como "qual seria a sua última pergunta?". E ao ser convidada para sair, disse que "não estaria aqui a tempo". “Ao acordar hoje, uma pessoa postou a conversa que teve com uma parente dela, dizendo que ela havia pulado do apartamento”. Em outro relato dela, Kayla disse que pessoas que moravam próximo ameaçaram tacar fogo.




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O coletivo Primavera nos Dentes, de Minas Gerais, escreveu post frisando que o suicídio de Kayla foi na verdade o assassinato de uma sociedade transfóbica, racista, elitista, misógina e segregacionista. De certo, ser travesti, negra e periférica a fez sofrer inúmeros preconceitos, seja no âmbito familiar, escolar, profissional, afetivo, até o ponto em que, mesmo sendo empoderada e dentro da militância, não resistiu mais.

Durante a Caminhada pela Paz, Kayla esteve ao lado de outras travestis, mulheres transexuais e homens trans que repudiavam todos os assassinatos motivados por transfobia. Se já pensava em desistir de tudo, concentrava forças para estar lá brigando por dignidade e respeito. Era mais uma de suas contribuições para a militância e a luta contra o preconceito, que a 
Primavera nos Dentes destaca:

“Não podemos esquecer, jamais, da relevância de Kayla na luta contra as opressões enquanto estudou na Universidade Federal de Viçosa e enquanto viveu. Foi uma militante ativa do coletivo Primera nos Dentes, atuante na UFV e na região da Zona da Mata, além de ter ajudado a fundar a gestão Ação Coletiva do DCE-UFV e ter sido muito importante na composição do EIV – Zona da Mata. Não podemos, jamais, nos esquecer de sua memória e de suas relevantes contribuições. Essa perda nos enfraquece momentaneamente, mas é o motivo para nos dar cada vez mais força para lutar e impedir que mais assassinatos como esse sejam cometidos por uma sociedade doentia. Kayla se foi mas sua força continua conosco todos os dias e continua no mundo ecoando através da eternidade”.

ESTATÍSTICA? NEM ISSO...


Casos de suicídio frente ao cenário de transfobia são noticiados comumente pela mídia internacional, bem como o da adolescente transexual Leelah Alcorn, de 17 anos, que cometeu suicídio e escreveu uma mensagem para que as pessoas consertassem a sociedade, em Ohio. E do adolescente trans Alan, de 17 anos, que cometeu suicídio na noite de Natal após sofrer bullying na escola, na Catalunha.

Porém, apesar de Brasil ser o 8º Brasil com o maior índice de suicídio no mundo (segundo a Organização Mundial de Saúde), de a maioria dos casos ocorrer entre jovens de 15 a 29 anos, sobretudo entre pessoas do gênero feminino, não há nenhum dado que contabilize os suicídios da população LGBT. Ou seja, Kayla sequer vai virar estatística para ajudar outras trans – se virar, será enquadrada como homem cis - uma vez que não existem pesquisas abordem o suicídio da população trans.

Dados internacionais da National Gay and Lesbian Task Force apontam que 41% das pessoas trans já tentaram suicídio nos EUA em algum momento, contra 1,2% da população cisgênero (aquela que não é trans). Uma pesquisa do Instituto Williams de Los Angeles publicada em 2014 estimou que 40% das pessoas trans já tentou cometer suicídio. Já uma pesquisa da Universidade de Columbia nos Estados informa que o índice de suicídio é 5 vezes mais frequente entre LGBT. 




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Ou seja, já passou da hora de a militância LGBT brasileira falar sobre suicídio. Sobretudo ter ações, campanhas, promover estatísticas e debates para que essas mortes sejam evitadas. E que a comunidade trans consiga encontrar forças para resistir e sobreviver apesar dos pesares, enquanto outras ações são realizadas para que essa vivência seja feita com dignidade e respeito. Que a morte-suicídio-assassinato de Kayla não seja em vão.

O velório de Kayla será 23h30min e o sepultamento na quinta-feira as 10h no cemitério da saudade. End:Av. Píres do Rio, 2000 - São Miguel Paulista, São Paulo. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

13 comentários:

Anônimo disse...

Sobre a noticiação do suicídio.
http://repositorio.uniceub.br/bitstream/123456789/1853/2/20412681.pdf

Jaqueline Gomes de Jesus disse...

Mais uma assassinada pela transfobia... Muito triste.
Meus sentimentos aos familiares e amigos.

Unknown disse...

Sociedade doentia essa....

Jhoniel Rodrigues disse...

Sociedade doentia essa....

Abel Reit disse...

Nada de valor foi perdido.

Anônimo disse...

É triste saber que tantos cometem suicídio, aos familiares e amigos meus sentimentos...
escolhemos caminhos e todos somos ameaçados e testados...nos dias de hoje não tem mais essa de que só um classe social é ameaçada pois todos nos julgamos e seremos julgados pelo o próximo... não sou a favor do que ela defendia sou a favor da vida e uma vida perdida sempre é triste. Todos nos fazemos escolhas e ela fez a dela.

Anônimo disse...

Como tu tem coragem de falar uma merda dessas, seu lixo? Você seria valor? Você que não soma em absolutamente em nada? Ou ela que resistiu até onde pôde, por um mundo melhor? Você com certeza não faria falta. Ela fará demais, nem consigo imaginar o quanto.

Anônimo disse...

Não tem? Em que mundinho tu vive? Negros, mulheres, transexuais e homoxessuais são perseguidos, agredidos e humilhados todos os dias por simplesmente serem o que são, por pessoas que pensam exatamente como você. Isso é revoltante demais, a gente tenta mas o mundo parece nunca mudar, isso é frustrante. Vocês sim são uma vergonha e um erro, pq tentam roubar nossa liberdade.

Ale Lima disse...

Como você consegue falar tal coisa? Você tem noção de quantas pessoas estão agora, sentindo imensamente a falta dela? Tem noção do que essa pessoa passou pra chegar a tal ponto? Seu bosta, vê se cria um pouco de empatia. Se fosse um amigo seu, certamente faria falta. Lixo.

Giovani Oliveira disse...

São pessoas como você, Abel, que mataram Kayla, que matam homossexuais, trans, lésbicas, negros. São falas como a sua, sem nenhum pingo de consideração pela vida alheia, que se materializam em facas, janelas abertas e cordas que penduram pescoços. Vocês pensam que podem sair por aí proferindo o que insistem em chamar de "opinião"(sem saber nem ao menos o que significa isso) e acham que está tudo bem, tudo certo e tranquilo. Vamos colocar o cérebro e a empatia para trabalhar?Já pensou no peso que suas palavras causam em outro alguém, ein?Larga a mão de ser um patife egoísta, que de pessoas como você o mundo tá transbordando. Ninguém precisa da sua transfobia e da tua falta de simpatia.

mylla disse...

Abel Reit você é um lixo

Anônimo disse...

Fiquei muito comovida com a história de Kayla e resolvi escrever um texto sobre ela, para ela: http://www.facesfemininas.com/para-kayla/

YURI MACEDO disse...

Vai deixar saudades amigo!

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