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Homens trans são assassinados, mas casos não viram estatística; saiba motivo



Por Neto Lucon

Ao conferir os dados da LGBTfobia no Brasil e no Mundo, não é possível encontrar nenhum número referente às mortes de homens trans por transfobia. Zero, nada, nulo. Isso, contudo, não significa que o grupo esteja livre de violência e ataques transfóbicos. Ao contrário, significa que podem estar passando por um processo histórico de apagamento.

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Artigos publicados pelo trans queer Mitch Kellaway na revista Advocate diz que três assassinatos de homens trans – sendo um deles no Brasil, outro nos EUA e outro no Japão – despertaram a atenção e mostram que as mortes transfóbicas estão passando despercebidas. E que há alguns motivos para isso.

Um dos mais fortes é que a identidade de homem trans não é mundialmente conhecida e não tem tanta visibilidade como a de travestis e mulheres transexuais. Logo, muitos acabam sendo assassinados e encarados como "mulheres lésbicas" por policiais, pela família e por conhecidos. Característica de uma sociedade machista, falocêntrica e que ainda classifica identidade de gênero pelo genital de nascimento. 

Ou então acabam morrendo sem proximidade com o ativismo para se reconheceram como homens trans. Muitos usam nomes masculinos, referem-se em pronomes masculinos, usam binder e simplesmente não sabem que são homens trans ou sequer desta possibilidade. 

Outra questão levantada é que, com o receio de sofrerem preconceito e após a hormonioterapia e cirurgias, muitos homens trans acabam vivendo em stealth (sem revelar que são trans, sendo lidos e vistos como homens cis). E, após sofrerem uma violência motivada por transfobia, preferem não denunciar, permanecer sem atentar para esta característica, com o receio de sofrer mais preconceito, outras violências ou até morrer. O que dificulta a contabilização, observação de demandas e ações contra a violência.

A MÍDIA

Há ainda a responsabilidade da mídia, que ajuda a perpetuar a invisibilidade ao abordar tais casos. E que, muitas vezes diante de crimes motivados por transfobia, desrespeita a identidade de gênero do homem trans em suas notas e reportagens. Detalhe: é a partir de reportagens da mídia que muitas pesquisas são realizadas, como a do GGB (Grupo Gay da Bahia), que aborda os assassinatos LGBTfóbicos no Brasil.

No Paraná, por exemplo, o homem trans F. Hilário, de 20 anos, foi encontrado morto e com ferimentos na cabeça em uma estrada depois de ser dado como desaparecido. A mídia local, que inicialmente o tratou como homem, ao saber que se tratava de uma pessoa com vagina, informou que cometeu um engano e automaticamente passou a tratá-lo como mulher. E, desta forma, o homem trans foi enterrado e eternizado no noticiário como mulher.


Reportagem foi mudada após descobrir que Hilário tinha uma vagina: identidade do homem trans foi desrespeitada
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A morte de Hilário ocorreu dois meses depois que o homem trans Yoshi Tsuchida, de 38 anos, foi assassinado em Tóquio. Ele foi encontrado morto enrolado em um cobertor, com a cabeça em um saco plástico e rosto esfolado com uma faca. E dois anos depois que o homem trans Evon Young foi torturado, baleado, queimado e jogado em uma lata de lixo nos Estados Unidos.


A mídia internacional noticiou que tratava-se de uma iniciação para que ele entrasse em uma quadrilha e frisou que não tinha nada relacionado a transfobia. Mas um amigo da vítima informou à TransAdvocate que ele foi agredido, mutilado e assassinado assim que o grupo descobriu que ele tinha uma vagina. Ou seja, transfobia.

Kayden Clarke, de 24 anos, foi assassinado em fevereiro deste ano por policiais dentro de sua casa no Arizona. Um amigo do jovem, preocupado com o anúncio de uma tentativa de suicídio, havia pedido para a polícia procurá-lo em sua residência. Surpreso com a invasão, Kayden pegou uma faca e acabou sendo assassinado a tiros pelos policiais. A imprensa classificou Kayden, que já havia saído em inúmeras matérias se dizendo homem trans, como "uma mulher", usando o nome do RG e artigos femininos.



Kayden Clark, Evo Young, F Hilário, Yoshi Tsushida

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CASO NOTÓRIO E MENOS FALADO

Vale lembrar que a violência transfóbica mais notória contra um homem trans, bem como a obra de maior relevância mundial, foi contra o norte-americano Brandon Teena (1972-1993). No interior dos Estados Unidos, ele foi espancado, estuprado e assassinado por dois agressores transfóbicos, que souberam que ele era homem trans. 

A triste história inspirou o documentário Brandon Teena Story e o filme Boys Don't Cry (Homens não Choram), protagonizado por Hilary Swank (vencedora do Oscar), de 1999. E é um dos maiores retratos de violência contra o grupo.

Por outro lado, Mitch destaca que a morte transfóbica de Evo Young, uma década depois e também com divulgação na mídia, não chamou tanta atenção da população e tampouco se tornou símbolo.

E ele aponta o apagamento também para a questão racial: "Ativistas falam sobre desrespeito institucional para a vida dos homens negros. Ela se manifesta na rápida cobertura da imprensa sobre os casos e na rápida conclusão dos processos. Este silenciamento cresce exponencialmente quando o homem negro é LGBT", diz. 


NO BRASIL

Em conversa com o NLUCON, o militante Luciano Palhano, do IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades) declarou que, além de homicídios e violências transfóbicas, outras mortes de homens trans são motivadas pelo preconceito em vários níveis e situações. Ele atentou ainda que homens trans não são apenas os que passaram pela mastectomia e hormonioterapia e que é justamente os que fogem deste padrão - e que acabam tendo a identidade deslegitimada - que acabam sofrendo mais intensamente a violência. 

“Existem homens trans brasileiros em situação de pobreza, no sistema carcerário, sofrendo com a seca no sertão nordestino. Esses são os que mais sofrem violências, que nunca são noticiados e que, quando são, suas identidades são apagadas. Existe uma necessidade urgente do próprio movimento compreender onde a violência contra a identidade de gênero se perpetua, além do homicídio e da agressão. Negação de direitos, impossibilidade de exercer cidadania: a dificuldade no acesso à saúde, à educação, a rejeição da família... Esses são lugares onde a violência se manifesta e mata”.




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Luciano diz que “suicídios não são apenas suicídios”, que quando um homem trans morre porque abusou dos hormônios é porque não teve acesso à saúde, que quando um homem trans morre durante uma cirurgia de mamoplastia é devido à precariedade do serviço e a urgência motivada pelo desespero de realizar um sonho. Além disso, os estupros que sofrem acabam sendo silenciados pelo duplo medo: o medo de ser questionado em sua identidade, de ter a masculinidade apontada e questionada, e o medo das ameaças do agressor. “Essas violências são transfóbicas e, na maioria das vezes, nem esperamos ser assassinados, morremos antes disso”.


De acordo com o militante, antes de contabilizar a violência e assassinatos, que também é importante, é necessário fazer um levantamento da qualidade de vida dos homens trans. “Quem são, onde estão e quais condições vivem. Os direitos relacionados aos homens trans no Brasil ainda estão engatinhando e, recentemente, estamos quase estagnados, considerando o ambiente político e a crise nos movimentos sociais”.

OUTRAS SUGESTÕES

Para Mitch, é necessário criar espaços seguros para se discutir a violência contra homens trans, iniciar pesquisas acadêmicas envolvendo violências à homens trans, notificar as possíveis violências para seres pesquisadas à fundo. Sobretudo aquelas em que a mídia tenta possivelmente invisibilizar. E, quando descoberta a identidade, pedir mudança no nome, na identidade e pronomes aos órgãos de imprensa. 

“As roupas podem ser um dos indícios visíveis de que a pessoa pode não se identificar com o gênero atribuído, mas isso pode ser jogado fora todas as vezes que a mídia descreve uma mulher transexual assassinada como um “homem de vestido”. É preciso que muitos jornalistas e ativistas locais pesquisem para descobrir a
identidade trans das vítimas. Porém, para os homens trans, as chances de se fazem buscas é menos provável, uma vez que é mais aceito socialmente que ‘mulheres’ usem ‘roupas dos homens’. E isso diminui a probabilidade de algum repórter, ao receber da polícia o relatório sobre a morte de alguém identificado como feminino e com roupas do guarda roupa masculino, vão buscar com profundidade se trata de uma pessoa trans”, diz Mitch.

Para nós, do NLUCON, a reportagem termina em aberto e em busca de dados... Pelos relatos, é possível concluir que, caso tais dados surjam nos próximos anos, não significa que elas passaram a ocorrer e nem que aumentaram, mas que finalmente começaram a ser notificadas e noticiadas como se deve.

"O aumento da frequência com que tais crimes são relatados não só ajuda a melhorar a compreensão comum dos perigos enfrentados por parte da comunidade, mas também é fundamental para fortalecer a resolução dos problemas com base na comunidade, que muitas vezes fica de fora destas listas e relatórios", conclui. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Roxelle Lamour disse...

Excelente texto. É necessário trazer esse tema tão sério para as rodas de debate Trans.

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