Entrevista

Luciano Palhano: “Homems trans morrem pela transfobia antes de serem assassinados”



Por Neto Lucon

Há algumas semanas, publicamos um texto falando sobre a ausência de homens trans em listas estatísticas de crimes por LGBTfobia. Alguns leitores se atentaram que parte do texto-base vinha de reflexões de um ativista queer internacional, e pediram para que focássemos na realidade dos homens trans brasileiros e aprofundasse a discussão com o recorte nacional.

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NLUCON procurou, então, Luciano Palhano, militante e coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades – o IBRAT - rede nacional de homens trans ativistas. No bate-papo, ele ajudou a retratar a realidade específica de homens trans brasileiros frente às várias violências que sofrem cotidianamente.

De acordo com Luciano, muitos homens trans morrem de transfobia antes mesmo de serem assassinados no Brasil - e discorre os motivos. O militante também informou sobre a história do movimento de homens trans no Brasil. E dos desafios que tiveram - e que ainda têm - para se fortalecer, combater toda violência transfóbica e brigar por direitos, respeito e cidadania.  


Confira a conversa:

- Não encontramos dados sobre assassinatos de homens trans em pesquisas relacionadas a crimes LGBTfóbicos. Essas mortes não existem e apenas não estão sendo contabilizadas?

Então, Neto, quando a gente fala em homem trans, faz a imagem do homem que conseguiu suas modificações corporais: que é hormonizado, que fez mamoplastia masculinizadora e que geralmente é de classe média. Mas essa não é a realidade da maioria dos homens trans no Brasil. Esses são os homens trans que conseguimos tirar da invisibilidade. Mas ainda existem centenas de homens trans brasileiros em situação de pobreza, no sistema carcerário, sofrendo com a seca no sertão nordestino... Esses homens existem e sofrem violências que nunca são noticiadas, e quando são, suas identidades são apagadas. Outra questão é: quando se trata de violência, geralmente a gente pensa em agressões físicas e homicídios, o que não é verdade.

- Quais são os outros momentos em que podemos falar sobre violência transfóbica, por exemplo?

Existe uma necessidade urgente do próprio movimento compreender bem onde a violência contra a identidade de gênero se perpetua. Negação de direitos, impossibilidade de exercer cidadania, a dificuldade no acesso à saúde, à educação, a rejeição da família... Esses são lugares onde a violência se manifesta e também mata. Suicídios não são suicídios. Um homem trans que morre porque abusou dos hormônios, porque não tinha acesso nenhum à saúde - como aconteceu no ano passado no Espírito Santo - não foi simplesmente descuido da parte dele. Um homem trans que morre numa cirurgia, como também já perdemos um rapaz que faleceu durante uma cirurgia de mamoplastia, é devido à precariedade do serviço e a urgência motivada pelo desespero em realizar um sonho... Em todos esses casos, a violência que se manifesta é uma violência transfóbica. Os estupros silenciados pelo duplo medo: o medo de ser questionado em sua identidade, de ter a masculinidade, que já é por si só tão frágil, apontada e questionada, unido ao medo das ameaças do agressor. Na maioria das vezes, Neto, nós nem esperamos ser assassinados, não dá tempo... nós morremos antes disso.

- Você acha que as várias mortes, seja ela como for, são frutos da transfobia institucionalizada?

Costumo dizer, que não importa como uma pessoa trans morre, ela é assassinada, ela é vítima de transfobia. Sobre a Marina Garlen, minha amiga que faleceu no mês passado, por exemplo, dizem que foi problema cardiorrespiratório. Não! Foi transfobia. Marina tinha medo de procurar profissionais de saúde, não se sentia à vontade em hospitais e clínicas. Pouca gente sabe, mas mesmo quando ela foi socorrida pelo SAMU, foi obrigada a colocar uma camiseta masculina "mais composta", que foi cedida por uma amigo que a acompanhava. Só assim ela pôde seguir com o atendimento. Marina, colocou um silicone industrial em condições decadentes no peito porque não tinha possibilidade de colocar próteses. Na sua radiografia, identificaram uma mancha, que segundo a médica, poderia ser o silicone que vazou para os pulmões... Isso não foi apurado na autópsia, afinal, quem se importa, né? Mesmo depois da sua morte, eu e a Fernanda de Moraes, tínhamos que exigir que tratassem alguém morto pelo gênero feminino. Um luto doloroso. Se a Marina morreu por causa de problema cardiorrespiratório? Não, meu amigo, foi transfobia. Se os meus companheiros que morreram, morreram por transfobia? Pode ter certeza, cada um deles.



- Pelo que ficamos sabendo na mídia, há somente um caso de homem trans vítima de assassinato transfóbico, no Paraná. Temos outros dados ou casos?

Você me fez chorar agora. Não, não foi o único, é como eu te disse... A identidade não é respeitada, e como a maioria são pessoas que não fizeram muitas intervenções, são noticiados como mulher ou homossexual. A invisibilidade dos homens trans ainda é tanta que nem a morte tem um luto que respeite a nossa identidade. Houveram alguns casos, sim. Não sei te dizer detalhes de cada um deles. Cometi o erro de não fazer alguma clipagem das matérias que saíram. Lembro as mortes mas próximas: um companheiro de Brasília, que inclusive era do IBRAT DF, um companheiro de São Paulo, o rapaz do Espírito Santo que morreu durante uma luta de judô com parada cardíaca devido ao alto uso de testosterona sem acompanhamento médico.... Bem, você me alertou à importância de fazer uma clipagem de todas as matérias que saem. Recentemente teve um rapazinho que foi assassinado e publicado como lésbica. Olha como saem as matérias.


(Luciano mostra uma matéria do G1 que diz “Mulher é morta na frente da namorada após ofensas homofóbicas em São Paulo”)

Esse rapaz de São Paulo, dizem que é homofobia... Não! É transfobia, tratam no feminino, com nome de registro. E é sempre assim, ainda mais quando cara é de periferia, quando não tem o corpo “feito”. Porque “a morta” foi a masculina? O crime tem motivação de violência de gênero, sim. Assim a transfobia vai sendo apagada, entende?

- Recebi essa reportagem hoje, mas admito que não soube como lidar. De qual maneira eu vou reproduzir uma matéria de assassinato e classificar a vítima como “homem trans” só por uma questão visual? Afinal, há mulheres que se vestem com roupas tidas masculinas e ainda assim são mulheres... Além disso, muitas vezes a família sequer respeita a identidade masculina e ficamos reféns do que ela fala... E ainda há pessoas que poderiam ser definidas como trans, mas não se identificam assim...

A gente tem que parar de olhar para as coisas com essa ideia de identidades individuais e auto identificações, porque na hora H mesmo, o que vale é o que a gente pode ver. Essa pessoa poderia não se autodeclarar homem, mas a motivação da violência foi pela identidade de gênero. Porque você acha que justo a pessoa masculinizada foi morta? A expressão dele é claramente masculina. Eu não trataria no feminino de jeito nenhum. Trate como pessoa que apresentava uma transmasculinidade, a motivação transfóbica da violência não pode ser invisibilizada. Sobre esta matéria, não foi homofobia. Pode dizer que quem disse isso fui eu: Não foi homofobia. Não estou querendo colecionar crimes transfóbicos, não. Mas a gente precisa reconhecer quando a violência é motivada pela identidade de gênero.

- E como reconhecer se uma violência é motivada por uma questão de gênero – e não de orientação sexual? Ou pelas duas?

A gente não pode correr o risco de elitizar a identidade transmasculina somente a partir da autodeclaração, porque nem todas as pessoas têm acesso à informação para saber quem são seus pares, e se identificam com o que encontram mais próximo disso. O que as pessoas precisam entender é “O que é transmasculinidade?”. Nem toda pessoa transmasculina se identifica como homem. E a transmasculinidade da pessoa da matéria está evidente, mesmo não sendo homem. Você vai afirmar que a expressão de gênero é masculina e que a violência contra o gênero dele pode se estender inclusive pela mídia, que não respeita o cara. 

Olha, fiz um trabalho com transmasculinidade no presídio feminino em Recife e também na periferia. Essas pessoas masculinizadas são transmasculinidades, às vezes são intituladas de “bofinho” e todos se tratam como “o cara”. Mesmo que nem todos tenham nomes masculinos – no presídio tinha um monte – eles misturam muito gênero ao tratarem uns aos outros. Às vezes no feminino e às vezes no masculino. No presídio, vários deles tinham nome social, mesmo sem saber o que era nome social. Era “negão”, “galego”, “Juninho”, “Pedrão”. Tem uma questão de gênero envolvida aí, que a mídia tende a sublimar mesmo.




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- Quais são outros motivadores que provocam essa invisibilização dos casos de mortes de homens trans?

A invisibilidade dos homens trans é motivada pelo machismo, especialmente. Machismo está em todos os lugares, inclusive nos segmentos GBT, do nosso movimento. Misoginia é muito sério, e quando os outros segmentos GBT querem tutelar nossas identidades, nossa luta, falar alto com a gente, interromper nossas falas, "podar" nossas participações e invisibilizar nossa luta e as violências que sofremos, isso é uma misoginia transfóbica. Pouca gente sabe o quanto a gente precisou ouvir para ter hoje um segmento de homens trans nesse movimento. Mas o nosso movimento tem crescido, e com ele, mais homens trans tem se sentido seguro de se assumir socialmente.

- Quais são os passos do Ibrat quanto a essa violência? Ter dados sobre ela é um passo para se entender as demandas?

No Brasil, antes de contabilizar violência, que também é importante, precisamos fazer um levantamento de dados da qualidade de vida dos homen trans. Quem são, onde estão e em que condições vivem Digo isso porque não podemos colocar o "carro na frente dos bois". Os direitos relacionados aos homens trans no Brasil ainda estão engatinhando, e recentemente quase estagnados, considerando o ambiente político e a crise nos movimentos sociais. Nos próximos dias, teremos uma reunião com a comunicação do Ibrat, que está com uma equipe nova. Vou falar com eles para fazer uma clipagem junto com o pessoal do núcleo de pesquisas, fazer um levantamento de dados. Estamos preparando uma pesquisa para o próximo ENATH e os dois regionais que vamos fazer neste ano.

- Você declarou que foi muito difícil para os homens trans conseguirem se firmar como movimento. Poderia contar um pouco desse processo?

Adoraria falar sobre isso, porque pouca gente sabe o que passamos.

- Então vamos lá.

Há pouco mais de uma década, era praticamente proibido homem trans se assumir, dizer que era trans. O processo de ficar invisível era considerado uma vitória e almejada por todos. E aí cada um percorria a sua trajetória quase que de forma solitária mesmo, e era uma dificuldade fazer com que alguns que conseguiram, pudessem compartilhar com outros. Fiz a minha cirurgia em 2008, na época, a mamoplastia, ainda chamada pela categoria médica de mastectomia, era apenas experimental. E não podia ser realizada em clinicas particulares. Fiz a minha cirurgia clandestinamente e o meu cirurgião, me fez prometer que não divulgaria seu nome sob o risco de perder seu registro no CRM.




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- E, detalhe, 2008 não faz tanto tempo assim. E muita gente, sobretudo da nova geraçção, encara como se a cirurgia fosse um direito de sempre... Como vocês se reuniram?

Pois é, foi praticamente ontem. E era assim, a gente ia conseguindo as coisas e ia ficando caladinhos. Eu me incomodava muito com isso, sinceramente. Não achava justo não abrir caminhos. Mas minha inquietação parecia ser só minha. Tinha alguns de nós espalhados, mas ainda muito poucos. Não passávamos de sete homens tentando militar no Brasil: eu, Tenório, o Silvyo, o Ray, o Xande, Regis e o Alexandre do PE. Para a gente era uma legião (risos). Lembro quando conseguimos fazer o primeiro encontro nordeste de homens trans, que reuniu 17 homens trans do Brasil todo. Nossa, foi um encontro histórico. A primeira vez que nos encontramos foi num ENTLAIDS, em Recife. Ali, eram 5, pois uns dois não puderam ir. Foi um encantamento só. Nós nos sentíamos empoderados por estar ali reunidos junto com as meninas. E era tanta resistência da parte delas, que ainda durou anos.

- A resistência ocorria porque achavam que não havia demanda suficiente? Chegavam a encarar a identidade de vocês como algo menor?

Sim, mas não só. A primeira vez que um homem trans pediu espaço na ANTRA para pautar demandas dos homens trans, logo no início dos anos 2000, foi o Syllvyo Lucio, um companheiro do Ceará, um dos fundadores do Ibrat. E, na época, a Keila Simpson, então presidenta da rede, nossa grande parceira até hoje, disse pra ele: "você não pode representar um segmento sozinho, você vai representar quem? Você mesmo? Vá, e volte com mais gente pra dizer que você representa". Ele não encontrou.. Continuou a militância dele lá solitária... Acho que na época, muitas nem acreditavam que existia "isso". Nesse ENTLAIDS de Recife, fomos novamente estimulados a fazer um coletivo para pautar nossas questões junto da ANTRA. Er[amos cinco, um de cada região, já fizemos uma rede nacional (risos). Era a ABHT, nossa primeira experiência política, cujo presidente era o Leonardo Tenório. O vice foi o Marcelo Caetano, que inclusive logo depois foi o primeiro a sair da rede, alegando que não dava pra conviver com o "gênio" do presidente. Não dá nem pra julgar, sabe? Imagina só: uns macho pingado, a maioria sem experiência politica, ainda sem um levantamento coletivo de demandas, a tendência era que a gente ficasse meio perdido mesmo.

- E como a mídia lidou e lida com essa luta por visibilidade?

O João Nery, tinha lançado anos antes o primeiro livro, mas a invisibilidade era quase uma regra geral. Então ele também não mostrava o rosto nas entrevistas. O lançamento do seu segundo livro, em que ele resolve abrir a sua identidade publicamente, foi um marco histórico na nossa militância e visibilidade. Pouco tempo depois do lançamento do livro no Rio de Janeiro - isso pouca gente sabe - nós organizados nessa primeira experiência da ABHT um lançamento histórico do livro dele em Recife, na Livraria Cultura. Foi o dia em que o João mais vendeu livro, essa marca ficou até hoje. O auditório lotado, mais de 400 pessoas se espremiam dentro e fora do auditório, separadas por portas de vidro. Todas as emissoras apareceram, foi capa de todos os jornais. Cara, eu não sei como a gente conseguiu, eu nunca tinha organizado nada daquele porte na vida... Várias universidades aparecera e eu estava elétrico.

- Que tudo! E de qual maneira a visibilidade do João Nery contribuiu para a visibilidade?

Chegamos a fazer uma mesa de debates com nosso então presidente, com o João Nery, com o conselho de psicologia, com o governo do estado e a prefeitura. Todo o movimento social também compareceu. Aliás, nasceu o elo entre o lançamento do livro do João, o movimento social e o segmento de homens trans. A partir dali, todas as aparições dele na mídia estavam conectadas ao movimento. Ele passou a fazer parte disso, divulgar nossas demandas, ideias... Algumas vezes a aparição dele foi junto com o presidente da época e, pouco tempo depois, ele iria se tornar fundador do IBRAT. Ah! Também não podemos esquecer que a peça do Leo Moreira Sá, em São Paulo, ajudou muito a dar visibilidade aos homens trans. Mas, agora é que vem o caroço.




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- Que caroço?

Quando a gente começou a aparecer, foi que vieram os ataques. Lembra dos homens trans que queria ficar escondidinhos, que a invisibilidade para eles era tão cara? Eles começaram a nos atacar e alguns atacam ainda hoje. Falavam que íamos acabar com a vida deles, que a família da namorada não sabia, que ele mudou de cidade para viver a vida dele, várias coisas nesse sentido. Então, mesmo quando deixaram de assumir que eram contra a nossa mobilização, ainda assim davam um jeito de falar mal da gente, queimar o nosso trabalho. Ainda hoje é comum homem trans dizer que não gosta de militância, porque não gosta de aparecer. Como se uma coisa estivesse necessariamente ligada à outra. Como se para militar, eu precisasse necessariamente ter visibilidade. Aí se afastam. Mas o que importava era que a maioria estava do nosso lado e se sentindo empoderada com a mobilizada. As pessoas iam se assumindo...

- E como o movimento de travestis e mulheres transexuais recebeu vocês?

Foi uma luta. A gente não chegou e sentou na janelinha, não. Foi muita luta e muito empurra empurra. Estamos muita coisa do tipo: “Não precisa de mais uma identidade, já tem muita letrinha”. As trans, não todas, queriam empurrar a gente para as lésbicas. Aí as lésbicas diziam: “aqui não”. Foi um empurra empurra, e a gente insistindo em dizer que nossa pauta era trans e tinha que ser com elas. Hoje somos parceiros delas, mas a gente sabe que foi foda.

- Quais foram as conquistas que vocês tiveram até agora?

Nossa mobilização política conquistou coisas importantes para todos os homens trans do Brasil, dentre elas eu posso destacar com muito orgulho: Primeiro que em 2010, a mamoplastia deixou de ser experimental. Conseguimos que o Conselho Federal de Medicina liberasse as cirurgias. Tem homem trans que fala que não precisa da militância porque faz tudo no particular, mas não sabe que esse direito de pagar e fazer a cirurgia com qualquer cirurgião foi um direito conquistado pela militância.

Outra grande conquista foi em 2013, quando conseguimos com muita luta e trabalho que a portaria do SUS para o processo transexualizador também contemplasse os homens trans. Antes eles não eram mencionados em suas especificidades. Na portaria está o nosso direito à hormonioterapia e mamoplastia, e a metoidioplastia em caráter experimental.

E também participamos do processo de ampliação dos serviços de ambulatorios TTs no Brasil, de 4 para 8 em 3 anos. E muito ainda se tem a conquistar. O IBRAT inseriu os homens trans ativamente no excercício do controle social, nos espaços de construção de políticas públicas, como nunca antes no Brasil os homens trans participaram. Quem quiser saber sobre a história do IBRAT, está no site institutoibrat.org



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- Como você disse, muitas pessoas não consideram importante a visibilidade pelo medo de sofrerem preconceito. Mas vocês pensam justamente o contrário, né?

Empoderamento coletivo, não tem outro caminho. O IBRAT atua muito nessa linha, nossos pilares são : 1º Controle Social; 2º Incentivo de pesquisas e 3º Formação política e incentivo a militância... É com formação, com empoderamento, que a gente perde o medo, e o mais importante, que a gente sai do discurso vitimista e colecionador de opressões. Você nunca vai ver fala minha nem entrevista dizendo: " Oi, meu nome é Luciano, sou preto, trans nordestino...”. Você vai ver uma fala de empoderamento, que tem o objetivo de inspirar e motivar outros homens trans para a luta! Não acho positivo colecionar opressões. Elas vão estar na minha pauta política, na minha luta diária no movimento, mas não na perspectiva de empoderar, de criar estratégias para garantir políticas públicas e cidadania equânime. Estarão na perspectiva do orgulho de ser quem sou, mas nunca no lugar de vítima. Eu saio do lugar de vítima, para ser agente que modifica a própria história.

- Em sua opinião, o que as pessoas que investem na invisibilidade precisam saber?

A invisibilidade não é tão segura quanto parece. Eles precisam saber que não estão sozinhos, que existe um monte de gente contra, mas um monte de gente que também nos dá força! Somos uma rede justamente por isso. As pessoas perguntam: " Mas porque o IBRAT é uma rede, e não uma ONG?”. Somos uma rede de ativistas, de luta, mas também de apoio, cada membro do ibrat se doa voluntariamente pela luta de todos os homens trans, inclusive os que eles não conhecem. Os homens trans precisam saber que não estão sozinhos... Atualmente quase todos os estados brasileiros tem um núcleo ou um coletivo de homens trans. As pessoas precisam entender que ninguém precisa ser herói sozinho, mas assim como diz o lema do IBRAT, que é uma frase manjada, mas verdadeira: Juntos somos mais fortes!

- Como você avalia o seu trabalho nestes últimos anos no IBRAT?

Acho que peguei uma fase muito difícil. Quando peguei o IBRAT nas mãos, ele não tinha nada, era somente um sonho, uma ideia de um grupo pequeno de pessoas. Fizemos nosso lançamento político em Curitiba num ENTLAIDS, e de lá pra cá, foi muito trabalho, foi uma gestão de estruturação da rede. Não tínhamos estatuto, nem organograma, nada estruturado. E hoje temos uma estrutura que consegue dar conta minimamente das bases. Ainda tenho muito trabalho a fazer antes da nova diretoria. Mas saio com um sentimento de que fiz o meu melhor.

- Luciano, quais são os próximos passos do Ibrat?

Esse é um ano especial no IBRAT, assim como na ANTRA, esse ano é ano de eleição da nova diretoria. Em outubro, no II ENAHT, vamos eleger a segunda diretoria do IBRAT, eu fiz parte da primeira. E foi uma experiência muito especial pra mim, tanto fundar, quanto dirigir a rede. Esse ano eu vou passar para o corpo de conselho nacional, no nosso organograma, os conselheiros são pessoas que ajudam a diretoria, orientam quando precisa e aconselham politicamente. Outra pessoa que também já anunciou a saída da diretoria, foi o companheiro Raicarlos, que provavelmente também passará a compor o conselho. O Xande fala que é o conselho de anciãos (risos) pra quem se aposenta. Tem muita gente nova, muitos orgulhos e novas lideranças no IBRAT.

O IBRAT tinha planos para uma pauta política, que acho que precisarão ser adaptados por causa do contexto político que estamos vivendo. Por exemplo: queríamos uma nova revisão da portaria do Ministério da Saúde. Mas considerando os ataques conservadores que estamos sofrendo, achamos melhor não chamar a atenção desses carniceiros agora. Acho que o melhor trabalho a fazer nesse momento, é formação política e fortalecimento da causa, pra enfrentar essa onda que tá vindo com tudo.

- Luciano, para finalizar, gostaria de saber o que você acha do nosso trabalho com o NLUCON? Já me disseram que você tem algumas críticas e gostaria de saber para melhorar e alinhar com a militância dos homens trans.

Nunca disse que não gosto do seu trabalho. Uma época fiz uma crítica, e não só a você, pelo excesso de visibilidade dada a homens trans brancos e padrão. Fiz uma crítica também no sentido de que os homens trans que são lideranças desse movimento, são na maioria negros que eu identifico esse apagamento ao nosso movimento como racismo. Mesmo que não seja intencional. Mas depois que você fez uma matéria com a Fernanda de Moraes e o Leo Peçanha melhorou muito o nipe democrático (risos). Nego, você já é um grande apoiador da causa. Esteja próximo como sempre está, esse é o nosso apoio. Estar próximo e respeitar o protagonismo. Isso tudo você já faz.



About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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