Entrevista

Mãe acolhe filha trans e ajuda outras mães em grupo: "Precisam de informação"



Por Neto Lucon

Seja ela em qualquer formato, a família é peça importante na vida de qualquer cidadão e cidadã. Porém, quando falamos sobre famílias com filhos LGBT nem sempre é possível encontrar o apoio que se espera e o acolhimento que eles precisam. Ao contrário, muitas vezes é no ambiente familiar que se estabelece a rejeição, a LGBTfobia e o desamor.

+ Conheça o GPT - Grupo de Pais de Trans 


Diferente de muitas histórias, a funcionária pública Maria do Socorro Silva Lima, de 54 anos, optou por receber a filha trans Raul. Silva com os braços abertos. Embora não entendesse num primeiro momento, acreditou que a melhor maneira de cuidar e aproximar a filha era por meio da informação.

No Maranhão, Maria do Socorro procurou então a terapeuta e especialista em diversidade sexual e gênero Edith Modesto, criadora do Grupo de Pais de Homossexuais. E, hoje, faz parte do GPT – Grupo de Pais de Trans. Ao lado da filha, que é estudante de Arquitetura e Urbanismo da USP, elas escrevem uma nova história de amor e respeito. 

Maria topou conversar com o NLUCON e falar um pouco sobre esta vivência e servir de inspiração para outras mães. Detalhe: Socorro ainda não tem o hábito de chamar a filha com artigos femininos - o que a gente deu uma ajudinha no texto. Ela diz que tudo ainda é novo - tanto que a filha ainda não escolheu um nome social e não passou pela hormonioterapia - e que está ciente da necessidade. 

Trata-se, portanto, de um relato sincero, corajoso e necessário sobre este acolhimento neste período inicial. Algo muito importante, porque sabe-se que quando uma filha trans se assume uma mãe vai para o armário - o que definitivamente não é esse o caso. Confira o bate-papo: 

- A maioria das pessoas que são pais e mães sequer cogitam que podem ter filhos ou filhas trans. Esta questão também era algo que nem passava pela sua cabeça?

Quando uma mãe fica grávida, normalmente ela pensa: vou ter um menino ou vou ter uma menina. Vai ser homem ou vai ser mulher. Não pensamos na questão da heterossexualidade, da homossexualidade ou da transexualidade. Nunca pensamos: meu filho vai ser gay ou minha filha vai ser lésbica ou travesti, transexual... Isso é algo que ainda não passa pela cabeça das mães ou dos pais. Eu não sabia quase nada sobre o assunto. E como a maioria, dizia a mim mesma que não queria ter um filho gay ou lésbica. E isto tudo é porque não fomos preparadas para esta situação, para esta possibilidade. Acredito que assim como muitos pais são preparados para saber lidar com um filho que nasce com qualquer deficiência, deveríamos saber que existe a possibilidade de termos filhos não heterossexuais. E que isto é normal. Assim, evitaria muito sofrimento dos nossos filhos, o nosso e da nossa família.

- De qual maneira teve a consciência de que tem uma filha trans?


É uma longa história, talvez daria um livro, mas vou tentar resumir. Quando o minha filha fez 15 anos, ela me pediu que fizesse umas fotos. Quando estávamos escolhendo, algumas eu não gostei e pensei comigo mesma: ‘meu filho tá com cara de gay nestas fotos’. Mas eu não me permitia ter esses pensamentos. Aos 17 ela me contou da sua homossexualidade. Foi um choque, chorei, fiquei triste, deprimida como a maioria dos pais e mães. No entanto eu o acolhi e disse que a amaria do mesmo jeito, que não deixaria de amá-la e que ela poderia contar comigo, com o meu amor. Então, primeiro o Raul assumiu a homossexualidade. Depois começou a usar sapatos de salto em festas gays e depois começou a usar roupas femininas combinadas com roupas masculina. Dizia ser crossdresser. E só depois disse que era transgênero. De início, não lidei bem com a transgeneridade ou transexualdiade, sofri muito.

- O que você pensava?

 
Achava que era só uma fase, que ela estava confusa a respeito disso, que não sabia na verdade em que caixinha se enquadrava. Eu a interrogava muito. Sofríamos as duas. Para mim, ela não dava sinais de que se identificava com o gênero feminino, pois gostava muito das suas roupas masculinas e da sua barba. Ao mesmo tempo em que se vestia com roupas femininas, comprava roupas e sapatos masculinos.


- Pode contar um pouco como a questão da transgeneridade atravessou a sua família e a sua relação com a sua filha?

Bom... Eu não sou casada, portanto Raul não chegou a morar com o pai. Mas eles têm uma relação estável. Na minha família eu e Raul sempre fomos muito queridas por todos. Na família, primeiro vivemos a fase da homossexualidade dela. Como na maioria das famílias, uns aceitam mais, uns aceitam menos e outros são indiferentes. Com a questão da transexualidade notei que, pela falta de informação que toda a sociedade tem, e com a minha família não é diferente, foi bem mais tenso. A minha relação com a minha filha no início não foi das melhores, confesso. Eu a fiz sofrer, assim como eu também estava sofrendo. Tive novamente que procurar informação, entender um pouco sobre o assunto, e perceber que minha filha estava infeliz. Os pais têm que ter mais informações para que eles mesmo acabem com o preconceito que é internalizado dentro deles.

- O que você diria para os pais e mães que têm filhos e filhas trans? 


Precisam entender que uma pessoa trans é tão digna quanto qualquer outra, que é um ser humano que tem suas qualidades, que quer ser feliz, que precisa do amor e da compreensão de todos. Os filhos têm que ser amados, acolhidos e respeitados, não importando a sua orientação sexual ou identidade de gênero. Se os pais não os acolhem, quem vai os acolher? Se não são aceitos dentro de suas próprias famílias, como será o futuros deles? Todas estas respostas era para estar clara na mente e no coração dos pais e mães.


- Foi difícil aceitar ter uma filha trans? O que foi mais difícil neste processo?

No início foi difícil, sim, pela desinformação que eu tinha. E ainda é, pois o preconceito das demais pessoas ainda é muito grande. A discriminação que as pessoas trans sofrem é enorme. A maioria das pessoas não acham normal. Os olhares, os gestos todos são muito reprovadores. E ver que alguém está achando que o seu filho é inferior ou menos digno só porque é diferente, dói muito no coração de uma mãe.




- Quais foram os passos que você deu para o acolhimento? Procurou ajuda de um especialista?

Primeiro eu vi que se não aceitasse e respeitasse minha filha do jeito que ela é, eu estarei contribuindo para a infelicidade dela e consequentemente seria eu também, muito infeliz pois a amo muito. Então, um dia disse pra mim mesma e pra ela que daquele dia em diante eu a aceitaria da maneira como ela era. E, como eu ainda me negava a comprar roupas femininas para ela, fui a uma loja com ela e compramos roupas e maquiagem, que ela adora! (Eu ainda estou me acostumando a tratá-lo no feminino. Ainda não sai naturalmente). A Edith Modesto é o meu Porto Seguro. É um dos meus anjos aqui na terra. Tenho uma enorme dívida com ela e uma gratidão maior ainda. Se hoje estou bem, em grande parte foi por causa dela e do GPH onde as mães são verdadeiras amigas, uma família mesmo.

- Como é a relação de vocês atualmente?  Acompanha o processo transexualizador, por exemplo?

A nossa relação está boa. Estou aprendendo a lidar com esta situação. Acho que já evoluí muito. Ela ainda não tem nome social e não faz uso de hormônios. Está no início. Creio que ela tem algumas dúvidas, apesar de dizer que não. E mesmo se vestindo com roupas femininas, ainda usa barba - o que não entendo muito bem.

- Você faz parte das mães acolhedoras do GPT – Grupo de Pais de Trans. O que pode dizer sobre o grupo?

Muito louvável a iniciativa da Edith. Só ela com a sensibilidade que tem, sabe o quanto isto vai ajudar as pessoas. É muito bom ter alguém para conversar sobre nossos problemas. Lá ficamos à vontade pois são pessoas que estão passando pelos mesmos problemas, pelas mesmas situações. A dinâmica do grupo vai ser idêntica à do GPH - Grupo de Pais de Homossexuais. Claro que vou. Tenho que retribuir tudo o que ganhei. Uns ajudam os outros com as suas experiências, vivências, como o seu modo de ver as coisas. Pássaros da mesma plumagem voam juntos. Esta é uma frase de uma mãe. 

- Sentiu diferença no comportamento dela a partir do momento em que você passou a apoiá-la? O que poderia dizer sobre ela?

Sim. É muito bom quando sabemos que as pessoas nos amam do jeito que somos. Acredito que a partir da minha aceitação, ela ficou bem mais feliz.

- Qual foi o seu maior aprendizado nesta relação?

O meu maior aprendizado é que sei que hoje sou uma pessoa com bem menos preconceito, mais tolerante e melhor do que eu era.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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