Pride

Pesquisa diz que crianças trans reconhecem seu gênero na mesma época que as cis



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Depois que uma criança trans de 9 anos ganhou no Brasil o direito de mudar a documentação, uma onda conservadora se fortaleceu. E questionou: “mas e se ela se arrepender?”, “como saber se ela é mesmo trans”, “existe criança trans?”.

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Pois uma pesquisa da Universidade de Washington, da Universidade Stony Brook e da Organização de Gênero revela que a transgeneridade é tão natural quanto a cisgêneridade, que crianças podem discernir o próprio gênero. E que as pessoas trans se apropriam da identidade na mesma época que as pessoas cis.

Importante: Trans é a pessoa que foi designada homem ou mulher ao nascer, mas que identifica com gênero diferente ao que foi imposto. Cis é a pessoa que foi designada homem ou mulher e que se sente confortável com o gênero definido socialmente.

O artigo foi publicado no último ano pela Psychological Sciece.

A PESQUISA

Na pesquisa da psicóloga Kristina Oslon, do psicólogo Nicholas Eaton e do pesquisador Aidan Key, foram escutadas 31 crianças trans ao lado de seus irmãos cis. Todos entre 5 e 12 anos, fase em que ainda não haviam atingido a puberdade e em famílias que os apoiavam. 

Outras crianças cisgêneros da mesma faixa etária também foram recrutadas para comparações analíticas.

Kristina ponderou, em entrevista, que o estudo foi feito com crianças que invocam o seu gênero logo na infância. "Às vezes a gente ouve pais que dizem: 'Bem, você pode ser apenas um garoto que gosta de usar vestidos ', e o garoto diz: 'Não, não é o vestido. Eu sou uma garota'. Essa é a diferença crucial entre um menino que gosta de coisas de garotas e um garoto que diz que é uma menina. Em outras palavras, nem toda criança que explora ou experimenta coisas de outro gênero é necessariamente transexual. No entanto, quando as crianças afirmam uma identidade de gênero, isso deve ser considerado como uma experiência tão autêntica quanto a de crianças cisgeneras."




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Os pesquisadores usaram várias técnicas para conhecer a personalidade das crianças, bem como o autorrelato sobre os aspectos da identidade, associações automáticas (operações fora da consciência e menos suscetíveis a modificações) sobre gênero. No “Teste de Associação Implícita” (TAI) foi avaliado a velocidade em que as crianças relacionavam o “masculino” e “feminino” com os descritores ligados aos conceitos de “eu” e “não”.

Assim como as crianças cis, as crianças trans revelavam forte identificação com determinado gênero. Por exemplo: as meninas trans tinham o mesmo padrão que as meninas cis. Elas queriam ser amigas de outras meninas, brincar com jogos considerados femininos, comer alimentos que refletem essa predileção e se vestir dentro do guarda-roupa considerado feminino. 

E os meninos trans tinham o mesmo padrão que os meninos cis.

CRIANÇAS TRANS NÃO ESTÃO CONFUSAS

Após os testes, Kristina e os colegas concluíram que as crianças trans não apresentam qualquer transtorno – diferente do que sugere o CID 10, que atribuiu a transgeneridade a um distúrbio ou transtorno de gênero. 

“Embora sejam necessários mais estudos, nossos resultados mostram que as crianças não estão confusas, não estão fingindo ser o que não são ou atrasadas nem demonstram resposta atípica ou algum transtorno. Transgeneridade não é doença”, avalia. 

Segundo a psicóloga, todas as crianças trans se comportam exatamente como o esperado de acordo com a idade e com a identidade de gênero. “Crianças trans existem, e a identidade que cultivam está bastante arraigada nelas”, afirmou.

Kristina também alega que é importantíssimo que pais apoiem a identidade de seus filhos e filhas, uma vez que podem haver consequências graves na saúde mental das crianças quando rejeitadas. Dentre elas, a fuga, auto-mutilação e o suicídio. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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