Pride

Transfobia: Pesquisa aponta que 14% dos alunos brasileiros não querem colegas trans



Por Neto Lucon

Num país em que políticos relutam em discutir gênero na escola, não é de se duvidar que alunos continuam com o preconceito contra LGBTs nestes espaços. E que há vários relatos envolvendo opressão, o bullying e o abandono escolar. Segundo a pesquisa "
Juventudes na Escola, Sentidos e Buscas: Por que frequentam?" 14% dos estudantes admitem que não gostariam de estudar com pessoas trans. 

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Os dados são da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais em parceria com a Organização dos Estados Ibero-americano e Ministério da Educação, que foi publicada no último ano, mas que trazemos no NLUCON com o recorte de travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades. 

Ela mostra que 7,1% dos alunos não querem ter ao seu lado uma aluna travesti, 4,4% não querem transexuais e 2,5% rejeita qualquer pessoa que se considere transgênero. Detalhe: travestis ficaram em terceiro lugar no ranking, perdendo só para "alunos bagunceiros" e "puxa-sacos" - categorias que não indicam preconceito - sendo o primeiro grupo marginalizado a aparecer na lista. 

A pesquisa também mostrou 5,3% também relutam em estudar com homossexuais. E que 52% não concordam com o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Outras formas de preconceito também apareceram, em proporções menores, como não querer negros (0,3%) ou pessoas com algum tipo de deficiência (0,6%) na sala de aula.



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Ao todo, foram entrevistados mais de 8.3000 estudantes entre 15 e 29 anos do ensino fundamental, médio e Educação de Jovens e Adultos. O formato da pergunta levava o estudante a escolher apenas um tipo de perfil indesejado em sala de aula, o que dificulta o entendimento das opressões e do preconceito. 

Afinal, o estudante que escolheu não querer estudar com “bagunceiros” pode ter algum tipo de preconceito com “travestis”, por exemplo. Ou alguém que tem preconceito com homossexuais podem também ser racista. Mas a opção por uma única categoria diz muito sobre o preconceito significativo que o estudante tem dentro e fora de sala sobre um grupo. 

Vale ressaltar que a pesquisa aponta diferença de resultado caso separado por gêneros. O preconceito contra LGBT aparecem em 31% dos estudantes homens e 8% entre as estudantes mulheres. Especificamente sobre a comunidade trans, 22,5% dos homens admitem não querer trans na sala de aula, contra a rejeição de 6,1% das mulheres sobre o grupo.


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Apesar do número referente ao preconceito, 86% dos entrevistados dizem que a escola precisa, sim, de programas contra o preconceito. Em reportagem ao Seu Jornal, da TVT, a doutora em educação Sylvia Cavasin diz que os dados são reflexos “da avalanche conservadora e da defesa de que a diversidade não pode ser trabalhada em contexto institucional”.

Ela afirma que a escola precisa realizar um trabalho contra a LGBTfobia desde a inibição de piadinhas até a inclusão de filmes em que o LGBT é retratado como dignidade.

Já a doutora em educação Denise Carreira alega que a LGBTfobia leva à exclusão social e econômica de milhares de pessoas. “É necessário que a sociedade brasileira se uma contra esses grupos fundamentalistas e que os grupos religiosos que atuam numa perspectiva democrática também digam ‘não’ a esse fundamentalismo, que cresce no país".

Denise continua: "A gente precisa de políticas públicas de formação de professores, de material didático, precisamos também orientar escolas de como atuar em casos como esse”. Ou seja, a gente precisa, sim, discutir gênero nas escolas. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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