Pride

Além da rica obra, Phedra de Córdoba emocionava pela visão que tinha do mundo




Por Neto Lucon

Pelas redes sociais, muita gente demonstra ter algo ou alguma história tocante para falar sobre Phedra de Córdoba, a grande artista trans que se retirou de cena no último sábado (09) aos 77 anos. Que bom. A atriz que saiu de Cuba para encantar o Brasil realmente deixou a vibrante força teatral, o semblante da diva que sempre foi e a incomparável personalidade - ora ranzinza ora amável ora cruel ora apaixonante. Mas sempre com emoção.

+ Phedra de Córdoba diz adeus aos 77 anos, vítima de câncer


Conheci Phedra por meio de outra grande diva trans, Claudia Wonder, que na promessa de me apresentar morreu precocemente em 2010. Antes, havia dado uma entrevista à Claudia na extinta G Magazine e me chamou atenção para o título: “Dentro de mim mora uma mulher”. E que mulher! Forte, obstinada, talentosa e... difícil.

Demorei quase um ano para que Phedra finalmente topasse ser entrevistada por mim e que me permitisse entrar em sua vida. Estava magoada com a comunidade gay por uma antiga apresentação mal entendida, então desconversava e às vezes era grosseira. Mas entre um espetáculo e outro, um pedido e outro, esmoreceu. Ficou tocada quando falei sobre a Claudia e empolgada quando mencionei o contato que ela teve com Coccinelle, uma trans francesa dos anos 60. Ela contou que foi Coccinelle quem lhe deu os primeiros hormônios femininos.

Tive, então, o privilégio de ser catapultado para o maravilhoso mundo de Phedra, cujo túnel era representado pelo percurso da praça Roosevelt e o café era acompanhado de Primo Bianco e Rebeca, seus gatos. Um mundo, que no seu olhar petrificante possuía cores vibrantes, histórias fantásticas e que transformava o mínimo em tudo. O aplauso xoxo em flores no palco. A rápida visita em sua casa no melhor evento da semana. Uma apresentação teatral, no último suspiro pela vida. E o carinho que recebia dos fãs e amigos no melhor e mais valioso prêmio de teatro.




.
Certa vez, carregou nas tintas para falar sobre uma experiência que vivênciamos lado a lado. E, cá entre nós, foi muito mais interessante e emocionante escutá-la contando novamente. Tinha vida em suas palavras, significado, drama e THEATRO em algo aparentemente banal. Deixei-a discorrer como se fosse a primeira vez.

+ Leia a entrevista com Phedra de Córdoba: "Tornei-me o meu grande sonho"


Foi por essa visão singular e doce, que aquela altivez inicial escondida talvez por proteção, que certamente ela sobreviveu a todas as opressões e a dura batalha de uma mulher transexual no Brasil, cuja expectativa de vida é de 35 anos. E que a transfobia sempre fala mais alto. 

Seja em Cuba, com uma mãe autoritária, em que ela preferia se atentar para o sorriso de incentivo do pai. Seja tocando castanholas e, dentre uma apresentação e outra, trazendo os primeiros discursos sobre transexualidade. Seja na ditadura, em que se apropriou de uma personagem espanhola e se safou pelos romances com delegados. Ou até num recente namoro com um homem de 54 anos, que a dispensou por considerá-la muito estrela: “E eu realmente sou uma estrela”, devolveu.




.
Sentada na praça ou em frente ao Satyros, muita gente a observava como uma senhora decadente com pose de diva e às vezes grosseira. Neste caso, todavia, eu brigava e fazia questão de dizer que não era ilusão ou romance. Phedra de fato era uma dama do teatro, apenas calejada por pessoas de "boas" intenções ou sem talento.

Brilhou não somente em casas LGBT, tornando-se uma das maiores estrelas da Nostro Mondo, como em espetáculos como "Les Girls", "A Filosofia na Alcova", "A Vida Na Praça Rossevelt", “Transex”, "Hipóteses para o Amor e a Verdade". Também foi personagem dos documentários Cuba Livre", “Cris Negrão”. Foi tema de música, homenagens e teve o talento reconhecido por atores e diretores históricos como Walter Pinto, Zé Celso, Rodolfo García Vásquez, Gero Camilo... 


Merecia e exigia ao menos respeito - e a liberação do "fomento" que, este sim, sempre faltava e era motivo de reclamações.

Preciso dizer que Phedra também me impulsionava e me fazia viajar como jornalista. Desde a nossa entrevista, arregalava os olhos toda vez que me via e dizia: “Ne-to Lu-con”. E fazia questão de me apresentar como se eu fosse um dos melhores profissionais do Brasil e que o melhor a tinha entrevistado. Exagero, claro, mas que essa viagem me deixava muito feliz e motivado a continuar. 
"Você tem que se impor". 

Curiosamente, em 2015, no Dia da Visibilidade Trans, a SP Escola de Teatro homenageou três pessoas: a Thais Azevedo, euzinho e Phedra de Córdoba no Prêmio Claudia Wonder! Coincidência incrível, que não passou despercebida por Phedra, que apontou para a necessidade do encontro arquitetado por Claudia em outro plano e a importância do meu trabalho. “Não falei, Ne-to-Lu-con?”.




.
Em seus últimos momentos de vida, a visitei no Hospital Heliópolis na primeira internação. Pude observá-la contar animada as suas histórias para as enfermeiras na ala feminina. Ela teve o seu nome social respeitado, mas dividia o quarto com outras quatro mulheres. Mesmo assim, dizia estar sendo tratada como uma estrela e até escondeu o real problema para mim. "Foi um mal-estar por não ter me alimentado muito bem".

Foto: Suzana Muniz
Disse até que a comida vinha especialmente com pouco sal para a sua saúde – “são muito atenciosos” - e se atentou que o suco era natural – “vou tomar aos poucos porque a minha boca fica seca rápido”. Qualquer outra pessoa estaria reclamando aos montes, senão fosse Phedra, que se atentou que Gero Camilo iria passar a noite ao seu lado. Duvidei e só fui embora quando ele chegou, mesmo! 

Uma visão que, de tão única, mostra a carência de nossa sociedade, tão atenta ao erro, ao deslize, as pedras, a problematização e ao pecado. E tão indisposta ao aplauso, à arte e ao reconhecimento. Em seus últimos minutos de vida, segundo o diretor Rodolfo, Phedra demonstrou não perder o seu espírito: o cuidador perguntou se ela estava sentindo muita dor ao respirar. A atriz retomou as poucas forças que tinha e disse em um único suspiro: “Sinto muito... Amor”. E morreu.

Num mundo de absoluta cegueira, não seria Phedra uma das poucas pessoas que estiveram acordadas na maior parte do tempo? 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.