Entrevista

Ex-gestora Ângela Lopes faz duras críticas à militância trans: “Autodestrutiva”



Por Neto Lucon

A militante transexual Ângela Lopes, de 41 anos, é dos principais nomes que encabeçaram a campanha nacional “Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito”. A luta é justificada pelas cicatrizes físicas e psicológicas que carrega e que vê grande parte do grupo no qual faz parte enfrentar cotidianamente.


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Ela é ex-diretora da Divisão de Políticas para a Diversidade Sexual de São Carlos, cidade do interior de São Paulo, e primeira gestora transexual. Dentre os feitos, conquistou o decreto ao nome social no município e protocolou o atendimento para retificações de prenome.

Na vida pessoal, Ângela nasceu numa cidade do interior do Paraná, diz que teve uma infância marcada pela pobreza e episódios de violência. Sobretudo porque desde os 6 anos revelava os traços de sua mulheridade, o que era incompreendida pelo pai. Aos 15 foi expulsa de casa, viveu e sobreviveu aos estigmas da comunidade trans.

Anos depois, boicotou a identidade feminina para conseguiu emprego no 2º Tabelião de Notas de São Carlos. Mas após três anos de trabalho, enfrentando vários entraves pessoais e sociais, conseguiu finalmente ser Ângela. E trabalhou por mais de 10 anos no cartório, até ser chamada para ser gestora pública.

Em entrevista franca, corajosa e consciente ao NLUCON, Ângela fala sobre militância, direitos trans e a peleja para a tão desejada dignidade e respeito. Tem fala elaborada, consistente, politizada, destemida e consciente. Confira: 

- “Sou trans e Quero Dignidade e Respeito” é o nome da campanha nacional que você esteve por trás. Ainda falta muito para a comunidade trans conquistar em termos de dignidade e respeito? 

Quando começamos a discutir a criação da campanha nacional "Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito", partimos da angustiante realidade em que pesa o prejuízo no exercício do direito de existir, na medida em que a identidade, a personalidade, a privacidade e as expressões da orientação sexual estão descritas no conjunto dos direitos fundamentais constitucionais, considerados princípios elementares para a manutenção da dignidade da pessoa e molas propulsoras para a auto afirmação social. Entretanto, nós transexuais sofremos um profundo déficit e prejuízo no exercício destes direitos.

O que para a maioria das pessoas, o direito a identidade, como conjunto de direito da personalidade/individualidade, estão naturalmente resguardados e preservados, para nós pessoas trans, não há possibilidade da garantia plena deste direito. O que nos sentencia a uma existência precária, sentenciando nossas relações sociais e nos obrigando a viver à margem da sociedade.
Portanto, a mobilização da campanha parte deste pressuposto básico como garantia do direito primário, ainda sem nenhuma garantia plena na atual conjuntura.




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- Muito se fala sobre o nome social ou a mudança do nome e gênero nos documentos. Sabemos que isso é algo importante, mas que não lima totalmente a transfobia. Quais são os principais direitos que o grupo deve ir atrás além desses?

São infinitos os prejuízos no exercício da dignidade de travestis, mulheres transexuais e homens trans. Garantir o direito ao nome e o exercício e proteção da identidade, é uma das primeiras necessidades e primeiras reivindicações das pesssoas trans, considerando ser esta a possibilidade de auto afirmação pessoal e social.

O nome social é uma possibilidade encontrada para sanar o prejuízo na afirmação dessa identidade, entretanto, frágil e precário na medida da não incorporação efetiva e eficaz em todos os âmbitos sociais.

Havendo entretanto, garantido o direito ao nome e a identidade e a possibilidade de recolocação social, outras necessidades e urgências começam a ser reivindicadas, no campo da saúde, do emprego, da educação, da assistência social e outros.

- Nesta campanha, você e Renata Peron chegaram a ir para Brasília. Poderia relatar o que aconteceu e qual é a perspectiva em relação ao feedback da campanha, neste atual cenário político caótico?

Bom, foi um grande desafio, queríamos que a campanha fosse a expressão e a voz direta das travestis, das mulheres transexuais e dos homens trans. Brigamos muito para para essa mobilização fosse de fato expressão do movimento social, sem protagonismo e interferência de órgãos institucionais. Portanto, com poucos recursos pessoais, chegar a Brasilia se tornou um desafio.

Fomos recebidas e recebidos pelo Secretário de Direitos Humanos, Sr. Pepe Vargas, pelo Deputado Jean Wyllys, e pela assessoria das deputadas Érika Kokay e Janete Capiberibe, que havia sido recentemente nomeada a relatora do PL 5002/2013, que é a Lei de Identidade de Gênero, conhecida como Lei João W. Nery.

Saímos de Brasilia com impressões positivas e também algumas negativas, por exemplo o desabafo feito pela assessora direta da relatora Janete Capiberibe, afirmando que a Deputada, estaria sofrendo pressão e retaliação em sua base em razão dessa relatoria e que provavelmente renunciaria a designação de relatora, e foi exatamente o que ocorreu dias depois. Ficamos muito tristes e decepcionadas, mas nos mobilizamos novamente e a relatoria do projeto foi designada a um novo relator, o Deputado Luiz Couto (PT), que deu parecer favorável a aprovação do projeto e determinou a continuidade na tramitação, que agora segue para pauta na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

É preciso dizer que a aprovação da Lei de Identidade de Gênero é a possibilidade de ver garantido o direito pleno ao nome e a identidade, sem que haja a necessidade de um desgastante processo judicial.

Ainda em Brasília, o Ministro de Direitos Humanos assumiu conosco o compromisso de realizar uma campanha nacional pela sensibilização social em respeito a todas as travestis, homens e mulheres transexuais, a mesma promessa foi feita pelo Deputado Jean Wyllys, entretanto, nenhuma mobilização foi feita a esse respeito até o momento.




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- Por falar em política, o que tem achado das manifestações contra corrupção, pró e contra o governo de Dilma Rousseff? O que poderia falar em relação a essas manifestações e a pauta trans, que parece sempre estar invisibilizada?

Evidentemente que tenho minhas preferências políticas, mas procuro sempre olhar todos os lados da discussão com muita responsabilidade. É fato que vivemos uma crise ética e moral dentro da política e ela precisa sim ser discutida, debatida e questionada. Ir as ruas reivindicar, não é apenas um reflexo positivo da liberdade e da democracia, mas sobretudo reflexo de uma insatisfação e um descontentamento que precisa sim ser levado em consideração.

Tenho visto críticas e tentativas violentas até em querer deslegitimar e descredenciar as manifestações e mobilizações sociais pró e contra projetos políticos governistas, e aí cabe uma profunda reflexão: se eu não consigo conviver e aceitar o fato de que pessoas estão indo as ruas defender um projeto político do qual eu não concordo e assim não consigo conviver com o contraditório, eu preciso rever o meu conceito de democracia e liberdade.

Fica muito evidente que em torno de todas as discussões políticas da atualidade as pautas das pessoas trans estão totalmente invisibilizadas. Especialmente no momento em que é preciso buscar pautas políticas com potencial eleitoral, defender a pauta de indivíduos trans parece não ser potencialmente positivo no quesito popularidade eleitoral.

- Qual é a avaliação (ou crítica construtiva) que você faz da militância trans? Sente alguma repercussão dessa militância em sua vida?

Faço minha militância desde os 12 anos de idade, momento em que fui expulsa de casa e precisei morar na rua, estou falando de quase 30 atrás.

Fui a primeira mulher transexual de São Carlos e uma das primeiras do Brasil a ocupar um cargo formal de emprego na área jurídica. Fui ainda a primeira mulher transexual de São Carlos e uma das primeiras do Brasil a conseguir a retificação judicial de prenome antes de realizada a cirurgia de redesignação sexual, isso em 2005. Fui também a primeira gestora pública de política LGBT do Estado de São Paulo. Portanto, minha militância sempre foi despretenciosa, motivada apenas e tão somente pelo desejo de construir um caminho para a minha própria sobrevivência, e assim houveram muitas transformações por onde passei.

Entrei recentemente para a militância formal, e não me agrada em nada o que tenho visto e presenciado. Sinto que existe uma disputa excessiva e desleal por espaços de poder e egos inflamados. Sinto ainda que existe uma espécie de boicote e desmoralização em razão do surgimento de novos e novas militantes que propõem a desconstrução e a reflexão desse modelo de militância. Sinto ainda que há uma cooptação nociva de militantes trans apenas para defesa de projetos políticos partidários, e assim fica valendo violentar, descredenciar e rechaçar ações e projetos daqueles que eu considero meu inimigo político.

Minha crítica é pontual e incisiva, enquanto militantes, estamos errando muito, é preciso sim repensar o modelo de ação e atuação, sinto que essa militância formal está se auto destruindo e é preciso rever para sobreviver.

- Ainda estamos acostumados a ver pessoas cis no cargo de gestor. Quais foram os caminhos que percorreu para chegar ao cargo de gestora em São Carlos?

Representatividade e empoderamento importam sim, é necessário. Quando fui convidada a ocupar o cargo de Chefe de Divisão de Politivas para a Diversidade Sexual do município de São Carlos, pesou nessa indicação, minha trajetória pessoal, minha capacidade técnica e também minha condição de mulher transexual. Eu já estava devidamente empoderada e colocada num espaço formal de trabalho, mas no que refere-se a políticas públicas para a população LGBT, foi muito importante para as pessoas trans do município se verem representadas.

- O fato de ser uma mulher transexual interferiu de qual maneira em sua gestão? Sentia, por exemplo, alguma cobrança ou resistência de levantar as pautas da comunidade trans?

No alto dos meus 40 anos de idade, sempre vivendo em São Carlos, conquistei meu espaço e a admiração de muitas pessoas, muitas me veem como exemplo de ascensão, outras com exotismo e alguns com repulsa e indignação, isso é fato.

Evidentemente que houveram inúmeras resistências sobre pautas direcionadas as pessoas trans, não é confortável para o gestor público não LGBT, discutir ações e políticas públicas para travestis e transexuais, perde-se um tempo enorme desconstruindo a transfobia, a resistência e fazendo um jogo de sensibilização e de desconstrução da precariedade de conhecimento. Isso porque eu sou mulher transexual, tinha conhecimento de causa e tratava os projetos com muita particularidade, o que dizer portanto de gestores que não possuem esses elementos fundamentais na ótica do convencimento.

Sim, propor políticas públicas para travestis e transexuais no Brasil é um jogo constante de barganha e convencimento de legitimidade.




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- Como os seus colegas lidavam com uma gestora que é transexual?

A maioria dos meus colegas de trabalho me tratavam com muito respeito, mas no comportamento de alguns, era possível ler nas entrelinhas a transfobia exalando. Havia sim em alguns, a sensação de incomodo pela minha presença. Era a transfobia latejando no senso comum de seu subconsciente dizendo que ali não era o meu lugar.

- Qual é a avaliação que você faz deste seu trabalho? O que conseguiu desenvolver em São Carlos?

Bom, fiquei a frente da Divisão de abril de 2013 a novembro de 2015. Foram mais de seis meses dialogando, sensibilizando e compreendendo a lógica desta atual gestão. A política LGBT no município de São Carlos é muito jovem e por isso muito frágil, dessa forma, pela fragilidade e pelo desconhecimento dos gestores, foi preciso um árduo trabalho de formação de rede, estudos de demandas e muita sensibilização.

Como gestora, mulher transexual e responsável por traduzir a necessidade da população trans para a gestão pública, senti a falta de um referencial, por isso defendo a criação de um Plano Nacional de Políticas Públicas para Travestis e Transexuais. Um plano que seja específico e que traduza todas as necessidades e particularidades das pessoas trans na implementação de políticas públicas.

Consegui em São Carlos criar uma rede de atendimento envolvendo educação, cidadania, saúde e emprego e renda. Essa rede foi sensibilizada e capacitada a atender e acolher todas as travestis, homens e mulheres transexuais. Consegui ainda aprovar o decreto do nome social, com possibilidade de instauração de processos administrativos contra servidores que desrespeitam o nome e a identidade. Criei ainda um protocolo de atendimento com a Defensoria Pública, com ênfase nas ações de retificação de prenome. Capacitei toda a rede municipal e estadual de educação. Participei da aplicação do protocolo de humanização da Santa de Misericórdia.

Muitas outras ações foram desenvolvidas, sempre priorizando as pessoas trans, por considerar a condição de vulnerabilidade.

- Atualmente, você não trabalha mais na prefeitura da cidade. O que aconteceu? Teve alguma relação com transfobia?

Fui exonerada de minhas funções em novembro de 2015. Uma ação movida pelo Ministério Público, ingressada em gestões passadas, questionava a regularidade e legalidade de cargos em comissão, ou seja cargos de confiança, especialmente os de chefia e coordenação. Nisso o Ministério Público determinou a extinção destes cargos por considerá-los inconstitucionais. Dessa forma, juntamente com outros colegas, fui exonerada em razão dessa determinação judicial. A Prefeitura Municipal de São Carlos, segue agora apresentando uma proposta para a reestruturação e reorganização administrativa a fim de recompor estas funções extintas.

O que posso afirma é, perdemos o referencial de política pública para LGBT no âmbito do município de São Carlos, nisso sinto que o movimento social foi impactado, a continuidade do trabalho direcionado as pessoas trans foi interrompido, tudo em razão de um entendimento legal do MP que fragiliza e vulnerabiliza ainda mais essa população.

- Como está sendo a luta por se recolocar no mercado de trabalho? Pensa em se candidatar nas próximas eleições?

Estou desde novembro desempregada, sofrendo os efeitos difíceis do mercado de trabalho e a evidente rejeição motivada pela transfobia. Mesmo com todo o histórico profissional, sigo sendo dispensada das vagas que me candidato.

Não tenho nenhum interesse em candidatar-se nas próximas eleições, entretanto, reconheço que a construção, continuidade e a preservação de politicas para as pessoas trans, dependem obrigatória e necessariamente de representatividades ocupando estes espaços.

- Chegou a enfrentar alguns estigmas e preconceitos comuns entre as travestis e mulheres transexuais? Como sobreviveu a eles?

Sinto diariamente estes estigmas, especialmente aquele que diz que mulheres transexuais é uma categoria inferior do inferior, sim pois, ser mulher já é a subalternização da existência, na medida em que ser homem é estar no topo da cadeia. Ser mulher transexual é considerado pela sociedade uma cópia ou um engodo. Um outro estereótipo é o da supersexualização de nossos corpos, o que diariamente me obriga a me indispor com homens que do alto de sua arrogância e pretensão, acha que nossos corpos estão disponíveis para o sexo sempre que eles quiserem.

- Falamos recentemente sobre suicídio e você carrega isso em duas marcas no pulso. Quais são as reflexões que podemos fazer em torno disso e das motivações? Como combater esse mal que assola a comunidade trans?

Tentei o suicídio por diversas vezes, carrego marcas de navalha nos pulsos. O enfrentamento da transexualidade, numa sociedade em que não é admissível viver fora do que é considerado o modelo único e possível de existência, caracteriza um profundo sofrimento, é dificil traduzir em palavras. Chega um momento nestes enfrentamentos, em que a morte parece o refúgio. Já vivemos uma morte em vida, na medida em somos desprezados inclusive por aqueles que mais amamos e que deveriam também nos amar acima de qualquer coisa. Portanto, morrer, nos parece um convite tentador.

Eu evito discurso moralista sobre o suicídio, sei exatamente o grau de sofrimento que o motiva. Portanto, acredito que temos sim que agir, e ai fica o desafio para todos nós e para essa militância que esteja disposta a mudar. Precisamos construir um espaço de militância que receba, que acolha e que abrace estas crianças e adolescentes que estão chegando e querem ser ouvidas e amadas.

- Pelo que já presenciei, você é uma pessoa que consegue dialogar com vários grupos de pessoas, de todas as idades e classes econômicas. De alguma forma, a sua vivência trans colabora para transitar em espaços tão diversos?

Sei que o isolamento social é uma condição inevitável no processo de construção da identidade trans. Queremos o tempo todo fugir da violência e da transfobia que nos mata diariamente. Porém, é preciso coragem, e uma certa dose de audácia. Enfrentar a sociedade, transitar, conviver, ser visto. Afrontar o sistema com a nossa presença é a possibilidade de romper barreiras. É a possibilidade ainda de mostrar nossa humanidade e desconstruir estereótipos pela convivência e proximidade.

Eu tive sim um período de isolamento social, entretanto, compreendi que a única forma de construir minha história e conquistar o meu espaço por direito, era enfrentando diariamente a sociedade.

- Você é uma mulher transexual militante. De qual maneira lida com a transfobia no seu dia a dia? Teria algum exemplo para falar para nós?

Transexualidade e militância são duas palavras que inevitavelmente estão muito próximas. Militamos, mesmo que despretensiosamente e informalmente, mas militamos a todo o momento de nossas vidas.
Se queremos sobreviver a essa sociedade que nos rejeita, precisamos ter coragem, precisamos saber a arte do diálogo, da empatia, conhecer mais sobre quem somos, buscar informações e nos munir de conhecimento. Havendo estas condições, a pessoa trans, seja ela militante ou não, saberá articular um diálogo com aqueles que também usam argumentos para descaracterizar nossa condição.






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- Levando em consideração que todos nós temos preconceitos, qual é o seu preconceito? E como lida com ele?

Pessoas trans também são machistas, misóginas, homofóbica e transfóbicas, fomos criados num sistema de opressão, por mais que nossa existência pressupõe o rompimento de um padrão de opressão, existem outras linguagens e figuras de opressão que ainda carregamos conosco.

Eu me permito evoluir e desmistificar internamente meus próprios preconceitos. Eu me permito por exemplo, compreender que é possível que uma mulher transexual seja lésbica e que eu mesma posso me permitir gostar de outras mulheres, qualquer que sejam essas mulheres, cis ou não. Me permito ainda gostar de homens, quaisquer que sejam esses homens, trans ou não. Me permito compreender também pessoas que não queiram construir sua identidade dentro desta lógica binária de gênero.
São inúmeros os exemplos que nos fazem confrontar nossos próprios preconceitos e permitir descontruir os padrões opressivos que reforçamos.

- Transfobia é o medo de pessoas trans. Já parou para pensar o que gera esse medo?

As expressões trans desnudam a hipocrisia social. Deflora e afronta todo o engessamento social que não admite vivenciar expressões de sexualidade e de gênero para além do binarismo adestrado e concebido socialmente.

A sociedade vive aprisionada num conjunto de códigos e normas comportamentais, respaldadas e sancionadas pelo discurso da divindade e do pecaminoso. Os individuos trans rompem com esse código social e oferece a possiblidade de existir para além do aprisionamento e do adestramento, para alguns, é a possibilidade de reflexão e amadurecimento social, para outros é a maldição e a própria encarnação do pecado.

- O que ainda hoje as pessoas precisam desmitificar em relação à comunidade trans?

Sempre questiono este conceito de "trans comunidade", comunidade sempre denota a ideia de comunhão, organização, aglomerado, isso valeria para o entendimento de uma militância organizada, mas considero que apenas uma minoria de pessoas trans estão reunidas e/ou organizadas dentro de uma militância formal. Somos muito diversas e diversos vivendo em lugares onde menos imaginamos, estamos muito além dessa lógica comunitária.
Desmistificar, a começar por essa lógica em que necessariamente temos que estar aglomeradas e aglomerados num conceito de comunidade, como numa reprodução da ideia de gueto. Não existe comunidade trans, existem pessoas trans vivenciando suas identidades nas mais diversas possibilidades e nos mais diversos espaços sociais.




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- Estatísticas dizem que uma travesti ou mulher transexual sobrevive até os 35 anos. Estar na casa dos 40 é motivo de orgulho ou de preocupação?

Transpor a estatística de vida é a autorização para não temer nada do que a vida lhe ofereça. Não há o que eu não já tenha visto ou presenciado nesta vida. Me considero sobrevivente e permito viver intensamente no auge dos meus 40 anos. Foi-se embora os medos, as inseguranças, o vislumbramentos, a arrogância e a obrigação sempre constante de ser linda e bela.

A velhice me traz inseguranças obviamente, mas se sobrevivi até aqui, ei de sobreviver até onde o destino assim o quiser, plantei boas sementes, criei bons vínculos e assim espero ser amparada por aqueles os quais um dia estendi minha mãos. E se assim não o for, não haverá em mim mágoas ou ressentimentos. Não há mais nada o que temer nesta vida.

- O que diria para você há 30 anos atrás se pudesse ter um encontro com o passado? Qual é a mensagem que você deixa para as novas gerações?

Para mim eu diria: Faça tudo novamente!
Para as novas gerações eu digo: Faça tudo agora, pois o tempo é implacável!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Lana Jones disse...

Nossa, que inspiração! Muito articulada e cheia de grandes histórias/conhecimentos para compartilhar.

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