Entrevista

"Médica não acreditou que sou homem trans e pediu para eu tirar a roupa", revela ativista



Por Neto Lucon

Uma mulher transexual com infecção nos seios é atendida com descaso em um hospital do Rio de Janeiro. Uma travesti idosa acusa um médico da Bahia de mandá-la embora para casa após um AVC. A mãe de uma travesti vítima de uma gressão transfóbica relata que o médico de um hospital de São Paulo sequer colocou a mão na filha antes de dizer que ela morreu.

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Esses são apenas alguns dos casos relatados por pessoas trans aqui no NLUCON e que mostram o descaso ou despreparo de profissionais da Saúde frente à vida de travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades.

O cozinheiro, agente de prevenção e militante trans, Luciano Medeiros, de 38 anos, sabe muito bem desta realidade. Ele já foi vítima diversas vezes e, hoje, tornou-se uma das vozes que denuncia a falta de sensibilização da Saúde em torno da população trans. Recentemente, fez um relato na campanha “Transfobia é Uó”, do Fórum Paulista de Travestis e Transexuais.

Há quatro anos, Luciano procurou o Sistema Único de Saúde para iniciar a transição de gênero e descobriu ter linfonodos axilares e nas mamas (pequenos órgãos de defesa que geraram preocupação pelo tamanho e lesão) e uma hidradenite aguda (processo inflamatório que atinge as glândulas sudoríparas apócrinas que pode ser agravado por infecção) causada pelo uso excessivo de binder. Mas simplesmente foi rejeitado.

Em conversa com o NLUCON, ele explica o que aconteceu e faz boas e importantes reflexões. Confira:

- Numa campanha do Fórum de TT, você declarou que transfobia é quando o grupo não tem direito à saúde. Poderia me explicar em quais momentos homens trans não tem acesso à saúde?

Nos é negada a saúde a todo momento. Quando buscamos uma unidade básica, por exemplo, não temos acesso a psicólogo, ginecologista, entre outros. Somos obrigados a buscar o CRT – Centro de Referência e Tratamento – como única forma de nos ajudar e termos acesso básicos de saúde. Isso porque estou falando de São Paulo.

- Os profissionais de saúde sabem que existem homens com vagina e mulheres com pênis? Ou seja, que existam pessoas com estes corpos? 

Nem sempre, mas ainda é constrangedor. Às vezes ainda encontramos médicos que sequer sabem o que é uma pessoa transexual, não sei se por falta de interesse ou por puro descaso. Mas posso dizer que os profissionais da área se espantam por conta disso.





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- Pode dar um exemplo?

Um exemplo ocorreu quando fui ao hospital fazer a mamografia. Eu estava tirando a camisa de costas para a médica e a auxiliar, e quando me virei as duas se espantaram por eu ser um homem com barba e seios. Ela disse que eu estava com um caso grave de ginecomastia (crescimento nas mamas em homens cis) e eu tentei explicar que se tratava de mama. Expliquei a minha situação de homem trans e elas não acreditaram e pediram que eu tirasse a roupa para que pudessem acreditar.

- Ela pediu para que você ficasse nu?

Fiquei muito constrangido e chateado, além de espantado por ser uma médica que não estava informada sobre a minha condição. Triste porque sei que eu não fui o primeiro e nem seria o último a estar nessa mesma situação.

- Acompanho você pelas redes sociais e sei que você enfrentou um grave problema de saúde. O que acorreu?

Sim. Há quatro anos, quando busquei o SUS para começar a minha transição, descobri por meio de exames linfonodos axilares e nas mamas, em conjunto com uma hidradenite aguda, causada pelo uso excessivo de binder.

- Como foi a sua luta para que fosse atendido e para que solucionasse o problema?

Busquei o SUS, mas não obtive sucesso. Uma vez eu consegui em determinado hospital que fosse feito o tratamento de forma paliativa dos linfonodos das axilas e da hidradenite, mas não consegui fazer a retirada dos linfonodos das mamas. Segundo o SUS, eu deveria buscar por outro hospital para tal procedimento. Assim eu fiz, mas a resposta que me foi dada é que eu não conseguiria fazer este procedimento porque o hospital era especializado em mulher. E eu, sendo homem trans, não estava incluso. Disseram que não teriam como fazer a mastectomia masculinizadora (que retiraria a mama, mas deixaria com peito em formato masculino) e que a única opção era a mastectomia radical (retirada total da mama), procedimento que não foi aconselhado pela minha psicóloga e nem pelo meu psiquiatra, uma vez que agravaria o lado psicológico e físico. Fiquei sem alternativa.

- É verdade que você chegou a chamar a polícia para um atendente que te desrespeitou?

Sim. Nesta busca incessante por médicos e assistência fui encaminhado para outro hospital para realizar alguns exames, entre eles a mamografia e ultrassom. Mas ao chegar apresentei o cartão do SUS e meu RG, a principio causando estranhamento no atendente, que me perguntou em tom irônico “qual dos dois seriam atendidos”. Tentei explicar cordialmente minha condição de homem trans, mas o atendente em questão entrou em choque, gritando de forma que chamasse a atenção de todos ali presentes. Me agrediu verbalmente, me chamou de aberração, disse que eu não era de Deus, dentre outras coisas. 

Simplesmente questionei o motivo das agressões verbais, pois eu só estava ali para fazer alguns exames. Mas ele continuou a ser agressivo e a minha vontade foi de agredi-lo. Duas senhoras me acalmaram e questionaram o motivo de o atendente me tratar de forma feminina se eu era um homem. Elas me aconselharam a chamar uma viatura e foi o que eu fiz. As duas senhoras serviram de testemunha para o ocorrido.

- Conseguiu finalmente resolver os linfonodos axilares e nas mamas e a hidradenite aguda?

Consegui, graças ao meu bom Deus, a São Miguel Arcanjo e a algumas pessoas muito especiais que foram fundamentais para essa jornada. Hoje recuperei a minha saúde, tendo chance de voltar a viver. Sem minha fé e essas pessoas que me ajudaram talvez eu não estivesse aqui para contar a minha superação. Hoje, continuo com os cuidados e faço o controle médico de três em três meses.

- O que você tira dessa experiência?

É que o SUS não esta preparado para população trans e nossas demandas. Aprendi também que a união faz a força e que quando um grupo se une em prol de alguma coisa, somos capazes de realizar grandes feitos. E que sem fé não somos nada.

- Leio sempre na internet algumas pessoas transfóbicas compararem a mamoplastia masculinizadora com a mastectomia, dizendo ser um absurdo pessoas tirarem as mamas enquanto outras pessoas perdem pelo câncer.  O que você poderia falar para essas pessoas?

Costumo usar outras comparações para que outras pessoas entendam. Ao usar um sapato apertado que te machuca, você pode chegar em casa, tirar e colocar um fim naquele incômodo. Mas imagina algo que te incomoda a vida toda e você não pode tirar quando chega em casa? É algo que você carrega contigo. Sinto muito com pessoas que tem câncer, e tenho casos na minha família. Sei o quanto é difícil. Mas são coisas distintas.


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- Muito gente faz o uso de hormônios sem recomendação médica. Quais são as reflexões que poderia fazer e falar para isso? Você faz a hormonioterapia?

O que leva muita gente a usar a hormonioterapia por conta própria é o difícil acesso ao SUS. E mesmo quando temos dinheiro é difícil achar um medico especialista que nos atendam. Há risco como qualquer tratamento experimental, haja vista que o tratamento hormonal para homens trans ainda esta bem no início. Eu faço a hormonioterapia há dois anos pelo CRT.

- Hoje você está satisfeito e confortável com o seu corpo? Gostaria de passar por mais algum procedimento?

Sim, estou com saúde, estou bem. Estou esperando o momento para a histerectomia e, quem sabe um dia, a neofaloplastia. Mas este é um sonho muito distante se tratando do SUS.

- Quais são outros tipos de atendimento de saúde que homens trans precisam? É confortável, por exemplo, ir a um ginecologista? Qual seria o tratamento ideal?

Nós precisamos de todos os tipos de atendimento que quaisquer pessoas precisam. Mas sabemos que precisamos de uma sensibilidade maior para homens trans, onde médicos e atendentes são mal informados, nos deixam constrangidos e não estão preparados para tais procedimentos. De forma alguma existe uma preparação psicológica pra tais procedimentos. Mas nós precisamos de um tratamento humanizado e respeito. Gostaria que as pessoas se colocassem no nosso lugar.

- O CRT, fila do SUS e outras ações são iniciativas positivas para a comunidade trans? Ou estão ainda muito aquém do que o grupo precisa? Quais são as crítica que você pode fazer?

São positivas! Mas ainda está muito aquém, o SUS esta despreparado, embora o CRT hoje seja tido nacionalmente como referencia é inadmissível que os profissionais ainda não saibam como tratar a população trans frequentadora do CRT, que ainda faltem hormônios, faltem médicos. Por ser um local que esta aumentando a sua demanda, eles não estão dando conta de procedimentos simples, deixando assim a desejar.

- Aos 38 anos, o que você diria aos homens trans da nova geração?

Diria para as pessoas dessa nova geração, que buscassem os profissionais para que tenham uma transição tranquila e com saúde. Digo para que tenham paciência com seus familiares e seus companheiros ou companheiras, por ser algo que mexe com todo o seu ambiente familiar.


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- Sabemos que, embora os homens trans sempre existiram, essa identidade vem ganhando mais visibilidade nos últimos anos? Em qual momento você se entendeu homem trans?


Então eu sempre me vi como homem, mas não sabia como era o termo certo a ser usado e só vim entender isso um pouco mais tarde. É só hoje consigo ver que a visibilidade é bem maior, pois os homens trans começaram a entender que somente nos mostrando e buscando seja assim politicamente, na educação, na área da saúde ou ate mesmo no mercado de trabalho, é que vamos deixar de ser invisíveis.

- Em sua opinião, qual é o mito que as pessoas precisam quebrar em relação aos homens trans?

O primeiro é que não parecemos homens, somos homens. Não somos lésbicas masculinizadas, somos pessoas normais como quaisquer outras. E que não somos aberrações.

- Você havia parado os estudos na 5ª série. Foi transfobia?
Sim! Mas naquela época os termos usados não era esse, mas fui diversas vezes agredido, humilhado, violentado, chegando a um ponto que ir para a escola era uma tortura. Até que não quis mais frequentar as aulas.

- Como foi retomar os estudos pelo Transcidadania - programa que incentiva a volta à escola de pessoas trans?

Foi algo emocionante, depois de anos voltar aos meus estudos e podendo assim ter a chance de voltar a ter um futuro melhor.


- É verdade que você chegou a ser uma pessoa em situação de rua? Poderia falar um pouco sobre esta experiência?

Sim! Aos 11 anos sai de casa por uma questão familiar que não vem ao caso, indo assim morar na Praça da Sé. Comecei a fazer pequenos trabalhos até que assistentes sociais dos Anjos da Noite me convidaram a ir para um abrigo, pois notou que eu não tinha perfil de pessoas em situação de rua. Eu passei a ajudar na ONG e a mesma sabendo da minha historia me mostrou sobe o conhecimento de transexual. Comecei a trabalhar onde muitas coisas eu aprendi devido a esta ONG.

- De qual maneira conseguiu sair daquela situação?

Então, comecei viajar pelo Brasil sem nenhum centavo no bolso, e como eu já tinha aprendido uma profissão de cozinheiro, entre outros, comecei a trabalhar. Me casei algumas vezes e comecei a ter vontade de ter a minha própria família e ter a minha própria estabilidade financeira.

- Quais são os seus objetivos atuais?

Concluir meus estudos, fazer faculdade de Direito, conquistar minha casa própria, me casar e ter meus filhos.

- Que consiga tudo isso com muita saúde, Luciano! 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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