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No 1º de abril, saiba 13 mentiras que te contaram sobre a comunidade trans



Por Neto Lucon

O dia 1º de abril é conhecido como o Dia da Mentira. E, como a comunidade trans é vítima de vários discursos mentirosos durante todo o ano, aproveitamos a data para desmistificar, promover a verdade e colocar um ponto final em toda transfobia de todo dia.

+ "Homens trans morrem pela transfobia antes de serem assassinados"


Afinal, já passou da hora de aprendermos a respeitar e tratar com dignidade uma parcela da população que sofre discriminação e é jogada à margem pelo preconceito e ódio, justamente pela ignorância de seu povo.

Lembrando que travestis, mulheres transexuais e homens trans – as identidades que se reúnem na militância organizada – lutam ainda hoje por visibilidade (positiva), direitos básicos (como ir ao banheiro e ser reconhecido como se é), emprego e à vida (como mostra esta campanha aqui).

As respostas abaixo foram feitas com a ajuda de 20 travestis, mulheres transexuais e homens trans militantes. Qualquer sugestão ou crítica, pode ser feita nos comentários, que avaliaremos e, caso seja necessário, construiremos novas reflexões.

Vamos lá:

- Pessoas trans são pessoas disfarçadas ou fantasiadas (F)

Não tente comparar a comunidade T com aquelas pessoas que pulam carnaval com roupas consideradas do outro gênero. Pois não se tratam de pessoas brincando, promovendo uma farsa ou tentando enganar alguém. Travestis, mulheres transexuais e homens trans são identidades legítimas, reais e que merecem ser respeitadas. Elas e eles são exatamente como vocês estão vendo e têm o direito de serem tratadas e tratados de acordo com o seu gênero.

“Eu não sou um homem se passando por mulher. Eu sou uma mulher” – Carmen Carrera, modelo transexual. Entendeu? 





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- Travesti e mulher transexual é um tipo de gay muito, muito, muito afeminado. E homens trans são lésbicas mega masculinizadas (F)

Esse tipo de pensamento ocorre porque a maioria das pessoas não sabe a diferença de identidade de gênero e orientação sexual. A primeira fala sobre como você se percebe e se identifica no mundo (homem, mulher, travesti, nenhum dos dois, os dois...), a outra fala sobre o seu desejo/afeto por outra pessoa (hétero, homossexual, bissexual, pansexual...).

E orientação sexual e identidade de gênero não estão necessariamente interligadas. Assim como as pessoas cisgêneros, pessoas trans podem ter todo o tipo de orientação sexual. De modo que travestis podem gostar de homens trans ou cis (e serem héteros, por exemplo), mulheres trans, cis ou travestis (e serem lésbicas). E homens trans podem ser gays, bissexuais, assexuais (...), mas nunca lésbicas, porque não são mulheres.


- Se tal famosa trans não se incomoda de ser chamada de "ele", todas trans não se incomodam (F)

Você pode até conhecer pessoas trans que dizem não se incomodar de serem tratadas no feminino ou masculino. E até se deparar com algumas que figuram na mídia e que também não se incomodam. Mas a maioria do grupo – e a bandeira de luta da militância T – é de que travestis, mulheres transexuais e homens trans sejam, sim, respeitadas e respeitados pela sua identidade de gênero. Ou seja, travestis e mulheres transexuais sejam tratadas por artigos e pronomes femininos. E homens trans, masculinos. Desrespeitar isso é ofensivo.

Como saber? Se em sua frente aparecer alguém com símbolos do gênero femininos, trate no feminino. Se no masculino, no masculino. Caso role dúvida, pergunte como a pessoa gostaria de ser tratada.





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- Toda pessoa trans quer "mudar de sexo" (sic) (F)

É muito comum considerar pessoas trans somente aquelas que passaram por cirurgias que alteraram partes do corpo. Mas uma pessoa que ainda não passou (por vários motivos, seja porque aguardam a fila do SUS, porque não tem dinheiro para a cirurgia numa clínica particular, porque sentem medo) ou que não quer passar (por estar satisfeita com suas formas) não deixa de ser trans - caso ela se identifique assim.  

Desta forma, precisamos derrubar o mito da hierarquia das identidades trans. Ou seja, um homem trans que não passou pela mamoplastia masculinizadora não é menos homem que outro que passou. Assim como uma mulher transexual que passou pela redesignação sexual não é mais mulher que outra que não passou. E isso também vale entre pessoas trans e cis, tá?


- Bomba! É um homem que virou mulher (F)

Apesar de a mídia sensacionalista considerar pessoas trans exóticas e vertentes do pokémon, ninguém VIRA nada. O que ocorre é que nossa sociedade cisnormativa tende a impor o gênero de acordo com o genital. Mas na vida prática essa relação (genital-gênero) pouco diz sobre a auto percepção e com o gênero com o qual nos identificamos. Por exemplo: o que um vestido tem a ver com o fato de alguém nascer com vagina? Nada, né? Na verdade, a pessoa trans está apenas sendo quem ela é e desatando a amarra de gênero que lhe foi imposta. Não virou, simplesmente é.

Dica: Quando for escrever sobre o assunto, opte pelo discurso: Carlos foi designado mulher ao nascer, mas se identifica com o gênero masculino e é um homem trans. (Você pode substituir as palavras em itálico, dependendo do caso). 




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- Mulheres transexuais e travestis querem usar banheiro feminino para abusar sexualmente de mulheres cis (F)

Esse tipo de discurso é muito comum em grupos de feministas radicais. Mas o fato é que travestis e mulheres transexuais só querem ir ao banheiro com tranquilidade, entrar no reservado, fazer suas necessidades, lavar as mãos, retocar a maquiagem e ir embora. Não há qualquer dado que dá margem para esse tipo de preocupação, a não ser a transfobia institucionalizada. Afinal, no banheiro masculino é a própria mulher transexual (ou travesti) que pode sofrer violência e abuso. E, neste caso, temos vários relatos que justificam a preocupação.

Na plaquinha do banheiro vemos uma pessoa de vestido e outra de calça, de modo que entram nestes espaços as pessoas que estejam vestidas com símbolos destes universos. Reparem: não há pênis ou vaginas. ;)


- Homens trans querem estragar seus corpos e remover seios, enquanto há mulheres cis com câncer que sofrem por ter que tirar mamas (F)

Essa comparação absurda e tendenciosa foi levantada por um pastor fundamentalista que está na política. Vale informar que uma cirurgia fala sobre os procedimentos acerca de uma doença, em que a remoção das mamas (mastectomia) faz parte do tratamento. E a outra sobre o processo transexualizador, reconhecido pelo Ministério da Saúde desde 2008, em que o homem trans retira as mamas (mamoplastia masculinizadora) para se sentir mais confortável com o próprio corpo e viver uma saúde física e psicológica plena.

Importante: Uma não altera, não substitui e nem é passível de comparação com a outra. Fora isso, a fila do SUS para a mamoplastia masculinizadora leva anos até ser realizada. 


“Você tem noção de quantas vezes eu já chorei no colo dela (mostrando a namorada), dizendo que eu não aguentava mais aquele corpo, que eu não conseguia conviver com aquele corpo e com várias coisas que me faziam muito mal? (...)”, declarou Thammy Miranda, que disse que sua saúde melhorou após as intervenções. “Tomei antidepressivo a vida inteira, e hoje não tomo mais. Dentro de mim era um turbilhão e agora consegui regular tudo. Não preciso mais, pois me sinto bem, me sinto completo. Eu comigo mesmo”.





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- Ser travesti é sinônimo de profissional do sexo (F)

Embora haja a associação direta – a Antra aponta que 90% trabalha como profissional do sexo - não dá para considerar identidade de gênero (travesti) sinônimo de uma profissão (profissional do sexo). O que devemos saber é que grande parte desse número não está no ramo da prostituição por escolha, mas por conta da imposição e da transfobia que as excluem do mercado formal de trabalho. Afinal, você acha que todas as empresas contratam pessoas trans?

Ah! E mesmo aquelas que trabalham como profissionais do sexo merecem todo respeito e dignidade, tendo o direito de ter esse trabalho inclusive reconhecido como trabalho. 
De qualquer forma, ao longo dos anos, vem aparecendo cada vez mais travestis em variadas profissões: professoras, doutoras, advogadas... Ou seja, que a prostituição seja vista apenas como mais uma das várias opções.


- PL da Identidade de gênero quer obrigar crianças a passarem pela redesignação sexual (F)

Essa é uma das mentiras levantadas por políticos fundamentalistas e conservadores sobre a PL 5002/2013, de autoria de Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Erika Kokay (PT-DF). Na verdade, o projeto reconhece a identidade de gênero como um direito e estabelece que a alteração legal do nome e gênero na documentação e qualquer tipo de intervenção no corpo só poderá ser exercido com o consentimento legal expresso pela pessoa interessada. Caso seja menor, com o consentimento de algum represente ou com a assistência da Defensoria Pública, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. E detalhe, não estamos falando apenas de redesignação sexual (mudança de sexo), mas também de uso de bloqueadores de hormônios, terapias com hormônios, depilação a laser...

“Da mesma forma que é óbvio que nenhum médico faria uma vaginoplastia numa criança, também deveria ser óbvio que não faz sentido (e é cruel e desnecessário) que uma pessoa trans espera até os 18 anos para iniciar o processo transexualizador (que é um longo processo) ou fazer qualquer tipo de intervenção no corpo”, Jean Wyllis, autor do projeto.





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- Transfobia é um mito

Adoraríamos que fosse apenas uma invenção. Mas a verdade é que o Brasil é considerado o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. De acordo com o levantamento das ongs internacionais Transgender Europe e Trans Muder Monitoring, uma pessoa trans é assassinada no Brasil a cada 21h e a porcentagem de homocídios contra essa população no Brasil é de 16,4 vezes maior ao restante do mundo. O levantamento diz que pelo menos 188 pessoas trans serão assassinadas no Brasil em 2016 e 403 em todo o mundo.

A pesquisa brasileira Juventudes na Escola, Sentidos e Buscas: Por que frequentam?" apontou que 14% dos estudantes admitem que não gostariam de estudar com pessoas trans: 7,1% dos alunos não querem ter ao seu lado uma aluna travesti, 4,4% não querem transexuais e 2,5% rejeita qualquer pessoa que se considere transgênero. Detalhe: travestis ficaram em terceiro lugar no ranking, perdendo só para "alunos bagunceiros" e "puxa-sacos" - categorias que não indicam preconceito - sendo o primeiro grupo marginalizado a aparecer na lista.

Vão dizer: “Mas morrem pessoas cis héteros todos os dias também”. Sabemos disso, mas nenhuma pessoa cis hétero morre porque é cis hétero. Mas travestis e transexuais são assassinadas simplesmente por serem travestis e transexuais. Tratam-se de crimes de ódio.

- Travestis são muito agressivas; hormônios as deixam loucas

É verdade que, assim como qualquer grupo, há pessoas com variados temperamentos. Mas também é certo que, passando pela transfobia de todo dia, sendo vítima da exclusão familiar, escolar, de trabalho, agredida pela sociedade e correndo risco de morrer todos os dias, algumas pessoas tendem a se defender, a serem mais agressivas e a mostrarem que "travesti não é bagunça". Do mais, pela minha própria experiência e convívio, posso dizer que há travestis bem mais calmas que muita gente cis por aí...

"Não é que sejamos agressivas. É como se a sociedade tirasse a sua pele todos os dias e te deixasse em carne viva. Daí, às vezes, um olhar na rua te machuca muito. E você simplesmente responde a ele", disse Claudia Wonder.  



- Só existem travesti, mulher transexual e homem trans como identidades transgênero (F)

Esses três Ts fazem parte da militância organizada no Brasil. Mas sabemos que, assim como a militância internacional, há várias outras identidades e vivências transgêneras. Aliás, “transgênero” é um termo guarda-chuva que abrange várias outras categorias.Genderfuckers, bigêneros, não-binários, pós-gêneros, pangêneros, crossdresser... E que a medida em que essas pessoas vão se descobrindo, percebendo e libertando das caixas (ou escolhendo outras) vão organizando, firmando o discurso e aparecendo. Um dos grupos de maior representatividade (debates e brigas) no Facebook é a página Transgente.


- Pessoas trans querem privilégios

Na verdade, querem é ter direitos como qualquer pessoa. Afinal, ter direito a ter um nome, a ter a sua identidade reconhecida, a poder ir ao banheiro, a ter acesso a saúde, a poder ir à escola, a não ser espancada e morta parece mesmo uma busca por privilégio?

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Roxelle Lamour disse...

Ótimo, mandou bem Neto!! Essas mentirinhas que contam, ajudam a acobertar a transfobia que existe em todos os segmentos da sociedade. Então, para algumas pessoas, é muito mais fácil inventar uma mentira, para poder exercer essa transfobia, do que aceitar a verdade.

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