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"Pelo direito de querer e poder construir outros lares, sem submissão, agressão e violência"

Foto: João Bertholini
Por Magô Tonhon*
mulher transexual, militante e mestranda em estudos culturais na usp

Falar de mulheridades é falar de pluralidades. De modo que o destino das mulheres traça-se desde meninas voltadas para as tarefas do lar. Dos brinquedos de cozinha aos bebês-comidinha há uma ideologia de gênero incutida que dita os espaços a serem ocupados pelas mulheres, em geral cisgêneras.

Não por coincidência as profissões ~de cuidado~ são onde mais encontram-se o gênero feminino contrapostas às profissões científicas por exemplo. É histórico que a luta feminista desde os primórdios nem sempre pautou demandas das mulheres negras por exemplo, incorrendo no irresistível erro de universalizar o sujeito mulher.

Enquanto as mulheres brancas e de classe média buscavam o direito de sair de casa, a luta das mulheres negras era justamente pelo direito de poder cuidar de sua família, uma vez que desde sempre foram obrigadas a procurar sustento no ‘abandono’ de seus lares. Para além das entrelinhas evidentes na ‘manchete da revista de páginas marrom’, cuja intenção era contrapor dois ideais de mulher: basta rever a capa de Dilma surtada no congresso com o recato da ‘quase’ primeira dama. Veiculou-se um meme em que Dilma aparecia grávida só para garantir sua estadia na governança por exemplo. Vivemos em uma sociedade cujo mercado de trabalho não vê com bons olhos a gestação. Engravidar só não seria problema se a escolha das mulheres fosse a coxia, aquele dito popular horroroso de que ‘por trás de todo grande homem há sempre uma grande mulher’ que por anos naturalizou-se.

Cresci com uma mãe que até a minha adolescência era ~do lar~ e que jamais foi reconhecida por isso. Naturaliza-se que as tarefas domésticas não são trabalho. Logo não tem valor algum. Quando minha mãe começou a trabalhar como babá e a ter o seu próprio salário, sua relação consigo, com a casa e com os filhos mudou. Ela fazia o arroz pela manhã e saia para trabalhar, nós cuidávamos do restante. Eu assumi muitas das tarefas que antes eram dela e mesmo antes eu era a única a colaborar num lar com mais dois irmãos e meu pai. Antes de entender e requerer para mim uma identidade de gênero eu era a única com quem ela podia contar. Os outros cuidavam da limpeza do carro, por exemplo.

Seria um equívoco exigir que as mulheres que tomaram para si as tarefas domésticas simplesmente abandonem suas casas. Há mulheres que não tiveram outra escolha. E essa hashtag também dialoga com o fato para além do modelo de mulher universal. Ela dialoga com sua manutenção. Não se deve esquecer que houve e ainda há violentas respostas para as mulheres que fugiram e ainda fogem da normalidade imposta pela ordem de gênero. Ordem de gênero esta, patriarcal, amplamente defendida pelas instituições patriarcais: o Estado, as empresas, a mídia e a religião. É evidente que se trata de uma campanha antifeminista esta encabeçada pela ~revista de páginas marrom~ e uma violência ética ao tentar universalizar um modelo de mulher.

A mídia ao mesmo tempo em que sexualiza a figura da mulher [vide propagandas de cerveja], também impõe a maternidade compulsória e condena o aborto. Não há problema em assumir para si os destinos já previamente traçados e reforçados diariamente. O problema existe em vende-lo enquanto uma norma. E as punições são variadas para as que ousam fugir das expectativas ditadas por essa ordem de gênero. As mulheres cada vez mais tomam consciência dos seus corpos e demandam mais direito a eles, corpo este tido enquanto público, de fácil acesso e transformado em objeto. Corpo este sobre o qual se recai uma série de normas e proibições.

O modelo de mulher é aquele que ~cuida de si depois de cuidar de michelzinho~. Corpo este que deveria preferir o ~vestido na altura do joelho~: o que as fotos da hastahg subvertem é também esta lógica, uma vez que ainda hoje mulheres recebem a culpa pelos estupros. A violência é também transformada em trivial, comum. A hastag tensiona [de estar sob tensão] as dinâmicas de gênero naturalizadas. A hashtag faz parte de um movimento atual que quebra a continuidade dessa ordem e inspira resistência, o que contribui para a mudança. Por mais consciência, mais possibilidades, menos imposições, cobranças e culpas. Mais liberdade. Inclusive para as plurais e diversas identidades de mulher.




Às travestis e mulheres transexuais são negadas o acesso a identidade feminina. Sobre elas recaem vários mitos, inclusive o do direito ao corpo materializado no tabu das transformações corporais, naturalizadas às mulheres cisgêneras que tem acesso a estes procedimentos cirúrgicos, uma vez que o Brasil está no ranking da cirurgia plástica por exemplo. Ao mesmo tempo que não nos reconhece, sequer somos ‘sujeitas’ a nós também recaem as cobranças ao enquadramento do ideal da mulher cisgênera padrão

E a participação de mulheres trans e travestis na hastag #belarecatadaedolar também expõe para além das contradições, as plurais mulheres, as plurais identidades, as plurais sujeitas. É por isso que participei dela com os dizeres “particularmente gostosa, ostentosa, libidinosa, dona de uma figura insolente e ~do exílio~ porque o lar para mim é uma ideia velha.

Este ~lar político~ ao qual o título da matéria faz menção e exalta, é um lar que sobre ele jaz genialidades femininas de séculos, este lar é para mim uma ideia velha! Pelo direito de querer e poder construir outros lares, sem submissão, agressão e violência, onde as mulheres possam continuar a transformar a si e aos outros que partilham dele e onde a vontade + potência reine imparável ante às possibilidades. Por uma mídia mais representativa das identidades plurais das mulheres brasileiras.


* Diante da campanha “Bela, recatada e do lar”, o NLUCON pediu para que a militante Magô Tonhon respondesse de qual maneira essa cobrança, tão comum às mulheres cis, também afetam as mulheres transexuais e travestis. Magô escreveu um artigo primoroso, que divulgamos em primeira mão e na íntegra para vocês. Aproveitem!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Arlindo Alves. disse...

Parabéns Magô, sempre me surpreendo com sua capacidade de transformar tapas em palavras. Do seu fã, hair.

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