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“Suicídio entre a população trans” é tema de Seminário em São Paulo; saiba mais



Por Neto Lucon

O suicídio é uma das causas mais recorrentes das mortes de travestis, mulheres transexuais e homens trans do Brasil nos últimos tempos. E com o objetivo de discutir as causas e encontrar estratégias para assegurar a existência plena e digna desta população, será realizado neste sábado a partir das 13h30 o Seminário “Suicídio entre a população trans: Limites entre vida e morte”, na Associação dos Advogados de São Paulo, em São Paulo.


Organizado pela Cais - Associação Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais, e ILADH – Instituto Latino Americano de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, o seminário conta com a presença do médico Drauzio Varella, dos professores Fernanda Cristina Marquetti e William Siqueira Peres, do jornalista Neto Lucon, e de militantes trans como Alexandre Peixe, Daniela Andrade e Thais Azevedo.

De acordo com a presidenta da CAIS, Renata Peron a ideia partiu depois de perceber que, além dos crimes e violências transfóbicas, vários casos de suicídio de pessoas trans foram divulgados recentemente, provocando um alerta. “Apesar de ser considerado um tema tabu, passamos a querer entender fatores, causas e debater para conseguir mudar essa triste realidade. Sabemos que estas mortes não são isoladas, que elas são motivadas pelo Estado, pela política que não contempla esta população e pela sociedade transfóbica que faz com que essas pessoas queiram se matar”, diz.

A militante transexual Angela Lopes, que mediará uma das mesas, defende que o suicídio é um "inimigo que ronda a comunidade trans e que está sempre a espreita". "Considerando que o existir trans é viver fadado a inúmeros constrangimentos, humilhações, ausência de amparo familiar, social e institucional, o suicídio nos confronta e nos assedia com a possibilidade de fugir desse mar de sofrimento. Por isso da relevância em discutir o suicídio em primeira pessoa, pois para a grande maioria das pessoas esse é um inimigo desconhecido".


DADOS INVISIBILIZADOS

O Brasil é o 8º país com o maior índice de suicídio no mundo (segundo a Organização Mundial de Saúde), a maioria dos casos ocorrem entre jovens de 15 a 29 anos, sobretudo entre pessoas do gênero feminino. É apontado como um grave problema de saúde pública. Mas entre a população trans ainda carecem dados, debates e pesquisas.

Recentemente, um relatório chamado "Transexualidades e Saúde Pública no Brasil", do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT e do Departamento de Antropologia e Arqueologia, revelou que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometer o ato. Mas não aprofundou sobre as motivações e outros dados sobre o tema. 


A ong internacional National Gay and Lesbian Task Force aponta que 41% das pessoas trans já tentaram suicídio nos EUA em algum momento, contra 1,2% da população cisgênero (aquela que não é trans). Uma pesquisa do Instituto Williams de Los Angeles publicada em 2014 estimou que 40% das pessoas trans já tentou cometer suicídio. Já uma pesquisa da Universidade de Columbia nos Estados informa que o índice de suicídio é 5 vezes mais frequente entre LGBT.

Dentre um dos casos que motivaram o seminário é o da militante Kayla França. Ela cometeu suicídio em fevereiro deste ano, poucos dias após participar da “Caminhada Pela Paz – Sou Trans e Quero Dignidade e Respeito” – ato na Avenida Paulista, que reuniu mais de 1.500 pessoas. Depois dela, outros sete casos de suicídio de pessoas trans ocorreram. E nos comentários das postagens sobre os casos, várias e vários trans revelaram também pensar em suicídio ou já terem pensado. 

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“Já estávamos discutindo esse tema, mas depois da Kayla tivemos ciência de que já passou da hora de falar. Fora do Brasil há várias campanhas voltadas para o combate ao suicídio de LGBT. Aqui, ninguém quer falar, pois é um tema delicado e ainda considerado tabu. Mas essas mortes não podem ser em vão e a gente precisa fazer algo”, defende Renata.

ESPERANÇA


Apesar da temática pesada, o objetivo é pensar em políticas que façam com que esta população não cometa mais suicídio e que promova esperança. "A maior vontade é que depois do Seminário criem-se estratégias para acabar com estas mortes. E de escutar que várias pessoas, que pensavam em se matar, optaram pela vida e pela luta por dignidade e respeito", diz Renata.

A transfeminista Daniela Andrade diz que é importante abordar o tema para trazer o público como resolver este problema: "É de enorme importância dado o fato que a transfobia institucional, física, verbal e psicológica que incidem todos os dias sobre as pessoas trans faz com que muitas vezes a pessoa se veja perdida, sozinha e sem caminho, que muitas vezes, dadas todas as agressões que precisam suportar e, geralmente, sem apoio da família pois muitas vezes são expulsas de casa, pensem em suicídio. Um problema que ronda a vida de grande parte das pessoas trans, cotidianamente esmagadas em sua auto estima e esmigalhadas em seu desejo de viver, ante aquilo que nos possibilitam: apenas sobreviver".

O público alvo do seminário são militantes sociais, gestores públicos, acadêmicos das áreas de ciências sociais aplicadas, ciências humanas, ciências da saúde e ciências da linguística, letras e artes, e a sociedade civil.


LOCAL: 
AASP
Rua Alvares Penteado, 151, 01012-905 São Paulo

PROGRAMAÇÃO

13h30min – CONFERÊNCIA
Uma Reflexão sobre a Morte
Dr. Dráuzio Varella
Mediação – Angela Lopes e Dimitri Sales

14h30min – Painel
Suicídio da População Trans: Causas, Enfrentamento e Prevenção

O Suicídio e sua Essência Transgressora
Profª. Drª. Fernanda Cristina Marquetti

População Trans, Subversão da Identidade e o Direito à Vida
Prof. Dr. Wiliam Siqueira Peres

Mídia e Construção Imagética do Suicídio da População Trans
Jornalista Neto Lucon

Thais Azevedo
Daniela Andrade
Alexandre Peixe
Depoimentos

Mediação – Daniel Mori e Magô Tonhon

REALIZAÇÃO

Associação Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais (CAIS) e o Instituto Latino Americano de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (ILADH).

APOIO : SSEX BBOX, AASP e Departamento Nacional de DST/ Aids Hepatites Virais (Ministério da saúde)

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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