Home de Marcador

Travestis e mulheres transexuais participam da campanha irônica “Bela, recatada e do lar”


Por Neto Lucon

Um perfil escrito sobre Marcela Temer pela revista “Veja” na última segunda-feira (18) causou grande revolta em grupos de mulheres. Tudo porque a publicação define a moça, que é esposa do vice-presidente Michel Temer e apontada como a possível “primeira-dama”, como o melhor par a um "homem de sorte": “bela, recatada e do lar”. Inclusive, este é o título.

No texto, destacam o fato de Marcela ser discreta, falar pouco e até usar saias na altura do joelho. Muita gente considerou o perfil um paralelo machista ao estilo “fora da caixinha” e de liderança de Dilma Rousseff. Outras consideraram um lamentável revival de revistas machistas dos anos 70, que queriam estabelecer o lugar de submissão da mulher.

Diante da polêmica, várias mulheres – sejam elas cis, trans, gordas, magras, brancas, negras, famosas, anônimas.. - publicaram fotos no Facebook para criticar a reportagem. Nas imagens, elas aparecem empoderadas, fortes, bebendo, se divertindo, sendo sensuais, na luta (e em outros momentos em que quiseram estar por liberdade) e escreveram a hashtag em tom de crítica: “Bela, Recatada e do Lar”.

Afinal, o lugar da mulher é onde ela quiser.

A atriz Dandara Vital declara que decidiu aderir a campanha com a finalidade de mostrar que machistas não passarão. "Fico triste por ver o quão machista é a nossa sociedade, e os homens nem percebem. Em meu protesto os homens comentam que sou gostosa, que querem uma chance. Acham que estão fazendo elogio, quando na verdade estão sendo machistas. Aff, cada absurdo! Isso me cansa como mulher trans pelo machismo e por nos verem como objeto". 



A ativista trans Geovana Soares também é uma delas e afirmou que travestis e mulheres transexuais também sofrem com esse posicionamento do “lugar ideal da mulher”. “Sabemos que existe uma cobrança ainda maior para as mulheres trans e travestis encaixarem nesses estereótipos de mulher ideal e perfeita. E muitas acabam se enquadrando a isso, numa tentativa de afirmar sua identidade feminina”. 



A atendente comercial Beatriz Novaes publicou uma foto por acreditar que essa cobrança afeta as mulheres 
em geral, sejam elas cis ou trans. “Ela poda a personalidade, nos faz ser enquadradas naquele padrão: lady com pitadas de doméstica. Faz da mulher algo submisso e sempre disponível ao gosto do parceiro, faz com que aquela mais
sensual e espontânea seja mais quieta. Aquela que detesta serviços doméstico se torna inferior, um objeto incompleto. Até na questão sexual a mulher deve ser quieta, pois se ela se entregar demais acende uma luz na cabeça do parceiro, ainda mais se ele não for o primeiro. No sexo, quem sente prazer é ele, e quem dá prazer é ela”.

Keila Simpson, travesti e presidente da Antra, declarou que esta reportagem é um tapa na cara da sociedade brasileira, sobretudo no atual momento político. Mas que não representa a realidade das travestis."Os tempos estão bem difíceis, mas se eles nos dão materiais, a gente vai desfazendo e reagindo", declara ela, que diz ser "bela, escrachada e da vida". Keila afirma que o lugar onde travestis são colocadas pela sociedade é na rua, onde são necessários coragem e talento para permanecer. “No alto dos meus 51 anos, a rua é o nosso palco para rir ou chorar. É preciso reagir, pois estamos muito fragilizadas politicamente”.



Assim como Keila, a militante trans e presidente da ADEH, Lirous K’yo Fonseca (foto no topo) faz um paralelo no lugar onde mulheres cis e mulheres trans são colocadas. “A realidade exposta pela revista passa longe da população de mulheres travestis e mulheres transexuais pela falta de oportunidade de emprego formal, que obriga aquelas que gostariam de seguir uma tendência conservadora a exibir os seus corpos em nome da sobrevivência".

"O lar, para muitas foi negado desde a adolescência. Então, esse estereótipo causa desconforto, pois afirma que toda a população T não tem valor, dando legitimidade ao preconceito e à violência. O problema não é ser o oposto, o problema é querer julgar a partir destes elementos: quais são os tipos de mulheres que prestam e para que prestam. No fim, machismo mata todo o dia!", conclui Lirous.

Confira outras postagens: 



























About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.