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João W. Nery fala sobre real expectativa da aprovação da PL de Identidade de Gênero



Por Neto Lucon

O psicólogo, sexólogo, escritor e ativista dos direitos humanos João W. Nery, que é considerado o primeiro homem trans operado do Brasil, se prepara para chegar em São Paulo e participar no domingo (29) da 20ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

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Neste ano, o tema da Parada é a PL 5002/13 – conhecida justamente como PL João W. Nery, a Lei de identidade de gênero. Ela visa, dentre outros direitos, facilitar o processo de mudança de nome e gênero da documentação de travestis, mulheres transexuais, homens trans e outras transgeneridades.

Em bate-papo com o NLUCON, João – que mora no Rio de Janeiro - afirmou que chega a São Paulo nessa sexta-feira (27). Ele defende que Parada continua sendo necessária, sobretudo no momento político atual. E diz que a expectativa é que ela traga “mais visibilidade, seriedade, respeito e força para o ‘T’ da sigla LGBT, não só para o movimento, mas para a população em geral”.
João Nery e Viviany Beleboni, que
apareceu crucificada na última Parada
(Foto: Dani Villar/ [SSEX BBOX)

Aos 66 anos, o escritor afirma que ainda não sabe em qual trio sairá – ou se caminhará no chão ao lado de outros homens trans. Isso porque ele tem cinco próteses, o que dificulta a locomoção. Mas defende que a sua participação é simbólica. “Creio que deva ser também o primeiro homem trans ciborg no Brasil (risos)”, brinca.

Ele também comenta a real expectativa de aprovação da lei: “Com um congresso e um senado BBBC (“Bíblia, Boi, Bala e Corrupto”) fica difícil aprovar, no momento, qualquer lei sobre direitos humanos. Mas sou feito de esperança e percebo que a mídia em geral, já começa a manifestar mudanças e nos tratar menos caricatural”. E frisa que, independente da aprovação, apenas leis não vão mudar a realidade da transfobia no país. “É necessário um trabalho de conscientização, de fazimento mesmo, em todos os âmbitos de poder institucionalizados”.

Confira o bate-papo exclusivo:

- Qual é a importância de ter um projeto de lei que carrega o seu nome como tema da Parada do Orgulho LGBT de SP, considerada a maior parada do mundo?

Para xs trans será o reconhecimento de sua cidadania. Garantirá o direito do reconhecimento à identidade de gênero de todas as pessoas trans no Brasil, sem necessidade de: autorização judicial, laudos médicos ou psicológicos, cirurgias, hormonioterapias. Preserva todo o histórico, assegura o acesso à saúde no processo de transexualização, despatologiza as trans identidades para a assistência à saúde e preserva o direito à família frente às mudanças registrais. Propõe, assim, que a psicoterapia só seja feita caso o interessado assim o desejar, tornando-se opcional e não mais obrigatória, que compromete sua validade, criando um teatro com a finalidade de obter o laudo. O projeto foi feito com base na experiência da Lei de Identidade de Gênero argentina (aprovada por unanimidade no Senado argentino) e que tem funcionado muito bem até hoje.

- É a Parada que está te trazendo para cá? Vai ficar em algum trio específico? Qual é a sua expectativa em relação à Parada?


Sim, eu pedi as passagens e eles me mandaram. Só não entendi porque não botaram o nome da lei. Viviany Beleboni me convidou para sair com ela no trio, mas não tem nada definido. Jean Wyllys também deverá comparecer como um dos autores do projeto. Devido as minhas cinco próteses que me dificultam a locomoção, minha participação é mais simbólica. Creio que deva ser também o primeiro homem trans ciborg no Brasil (risos). Minha expectativa é que a Parada traga mais visibilidade, seriedade , respeito e força para o “T” da sigla LGBT, não só para o movimento, mas para a população em geral.
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- Muita gente questiona a utilidade da Parada LGBT nos tempos de hoje. A Parada ainda é necessária?

Mais que nunca, sobretudo na conjuntura atual do país, onde somos “golpeados” por todos os lados. A parada é apartidária, política com seus próprios corpos e performances. É o povo oprimido pela sua sexualidade, sua identidade, seu gênero, sua aparência, sua exclusão do trabalho, da escola, da vida. É a festa da “via crucis”. É um espaço livre, “permitido”, tomado por aquelxs que a sociedade considera doentes, pervertidxs, invisíveis e excluídxs e que nem “pessoas” são, no caso específico dxs trans. É imprescindível que ela aconteça, estapeando na cara desta sociedade hipócrita, que hierarquicamente, baba pseudo- normalidades.

- Atualmente, briga-se nas redes sociais pelo direito ao nome social. Você acha que a PL 5002/2013 João W Nery é uma utopia para a realidade do Brasil? Existe uma real esperança de que ela seja aprovada, assim como Argentina, Bolívia?

Com um congresso e um senado BBBC (“Bíblia, Boi, Bala e Corrupto”) fica difícil aprovar, no momento, qualquer lei sobre direitos humanos. Mas sou feito de esperança e percebo que a mídia em geral, já começa a manifestar mudanças e nos tratar menos caricatural. Todo juiz agora sabe o que é um trans, pode até não ser favorável, mas já pronuncia a palavra sem gaguejar.
Em abril 2017 terá a novela da Glória Perez que tratará do assunto e que me pareceu séria, já que me pediu consultoria. Não terá ainda um trans fazendo papel de cis, como eu gostaria, mas acredito que será um grande passo para a visibilidade do assunto num horário nobre de grande audiência. A luz do sol não tardará a vazar por alguma rachadura deste sistema.

- O que falta para o Brasil entender e se sensibilizar com as demandas da população trans?


Leis não bastam para sensibilizar uma população. Mais que políticas públicas é necessário um trabalho de conscientização, de fazimento mesmo, em todos os âmbitos de poder institucionalizados. Uma verdadeira revolução antropofágica para “deglutir” conceitos obsoletos como o de família, escola, trabalho, presídio, religião, etc. Desnaturalizar o que a linguagem prova o que se constrói na cultura. Verter um novo sistema sócio-político-econômico horizontal. Desconstruir as pirâmides hierarquizantes de classe, cor, idade ou gênero. Quando “eles” se envergonharem de se reconhecerem discriminadores, então sim, teremos ganho a luta.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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