Pride

Mia Hämäläinen defende ruptura do “T” do LGBT em entrevista à TV PUC

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Mia Hämäläinen, que é mulher trans, ativista e academica do curso de letras da PUC- SP, foi entrevistada pelo programa “Papo Aberto”, da TV Puc- São Paulo, e falou sobre as demandas da população trans – travestis, mulheres transexuais e homens trans. Ela defendeu, entre outras questões, a ruptura do “T” do tradicional movimento LGBT.

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“O T existe para enfeitar. As demandas LGBT é única e exclusivamente dos homens gays, masculinos, lutando pelas demandas de aceitação e direitos civis que lhes são alienados. A demanda T é uma luta pela existência em uma sociedade que nos torna não-visíveis”, afirmou.

Na entrevista, ela diz que é uma das grandes “defensoras de que a sigla T seja completamente tirada” porque são “duas instâncias completamente distintas”, apesar de algum momento poderem se encontrar. “As demandas são diferentes, nossas colocações também. Gay é uma orientação sexual, e a transgeneridade é uma identidade de gênero. Já começa por aí: um é pelo direito de amar e outro é pelo direito de existir”.

Mia, contudo, faz um paralelo e diz que a população trans hoje reflete o que a população LGB era nos anos 70 e 80. “A gente pode fazer essa analogia pela ausência e pela invisibilidade social que os gays tinham. Hoje em dia, por mais que ainda seja bastante vulnerável, eles adquiriram direitos no aspecto civil e desfruta dos aspectos da cidadania - em sua maioria consegue emprego, estão dentro das universidades, seja como professores ou alunos... - ao passo que pessoas trans dentro da realidade brasileira é uma realidade invisível, a gente não as encontra. Porque existe toda uma estrutura social que as exclui, por não se adequar ao que a gente considera ser homem ou mulher".

Ela afirma que falar sobre a população trans é falar sobre ausências sociais. “Por que não vemos uma trans no caixa do supermercado ou como advogada? Como poderíamos ver se a sociedade não permite que tenhamos acesso ao emprego?”. E diz que, mesmo aquelas pessoas que conseguem acessar determinados espaços ainda encontram a transfobia. “Entrar em uma universidade é uma coisa e permanecer é outra. Como ela vai conseguir permanecer em um lugar onde o nome social é negado, onde a sua identidade de gênero é negada onde ela sequer pode ir ao toalete?”.

A TRANSFOBIA FOFA

Durante a entrevista, Mia afirmou que nem sempre a transfobia aparece em um ataque físico ou assassinatos. “A transfobia, para as pessoas cisgêneras, é velada, é carinhosa, é educada. Muitas pessoas que me preteriram de alguma forma, elas sempre falam uma frase que me machuca muito: 'mas eu te tratei com educação'. De uma forma, elas dizem: 'eu fui transfóbica com você de uma maneira bem educada, então aceite, por favor, tá? Porque eu fui fofa, uma transfóbica fofa'”.

Ela também rebateu as acusações que recebe de parte de feministas cisgêneras de que a população de mulheres transexuais e travestis reforçam estereótipos e o patriarcado, ao utilizarem símbolos de existência atribuídos ao feminino.

“É muito interessante a gente lutar pelas desconstruções de signos, de demarcadores sociais quando a gente tem o nosso direito de existência assegurado. Enquanto mulher cisgênera e branca, ninguém vai questionar a sua mulheridade. Então é simples desconstruir essas imposições sociais. Mas eu, enquanto mulher trans, como eu vou me reivindicar mulher fora desses signos? Elas não vão apanhar ou serem mortas por andarem na rua de barba, por exemplo”, disse.

Mia destaca, todavia, que nem todas as mulheres trans querem se depilar ou fazerem tratamento hormonal. “E ela deve ser respeitada. A narrativa está no sujeito e não nas epistemes que o circuda”.

PARA MELHORAR

Ao ser questionada o que pode ser feito para que a transfobia diminua no país, a pesquisadora defende a importância do debate e a sua ampliação em todos os lugares, seja na universidade ou centros de formação de profissionais e das pessoas em geral.

“A partir do momento em que o debate começa a ser levado para uma sala de aula, a gente pode acenar para um horizonte menos transfóbico, dar espaço. Dar espaço para pessoas trans falarem sobre as suas demandas e suas necessidades. E não só dar oportunidade e também não só ouvi-las, mas refletir sobre o que elas trazem. E colocar em prática”.

Assista ao programa na íntegra: 


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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