Pop e Art

Fotógrafa resgata memória do tio trans dos anos 70 em "Flores e Cores para Tita"

A exposição Flores e Cores para Tita, que estreou nesta semana em Salvador, tem emocionado quem foi conferir os retratos de pessoas cis e trans. Tanto pela delicadeza dos cliques da mulher cisgênera Andréa Magnoni quanto pela inspiração do ensaio: o tio da autora, um homem trans que se matou nos anos 70 pelo preconceito que sofria. 

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No relato, Andréa afirma que a família sempre se referiu ao tio Tita, que morava em Terra Roxa, interior do Paraná, como uma lésbica. Mas que há três anos descobriu que ele, a quem ela nunca conheceu pessoalmente, se tratava de um homem trans.

“Tita sofreu um estupro ‘corretivo’, do qual engravidou. Diante de tamanha agressão, desistiu da vida e se envenenou. Não sem antes deixar uma carta para a família, onde pediu que fosse enterrado de preto, com roupas de identidade masculina. Mas o velório e enterro de Tita foram feitos com trajes em vestido de noiva – como era costumo na época. Vinte anos depois, ao fazerem a exumação do corpo, não restava nada do vestido e ao lado da ossada foram encontradas as roupas pretas, intactas. Mistério pelo qual a família nunca teve explicação”, diz.

A exposição, que gira em torno da memória de Tita e traz reflexões sobre gênero e normas sociais, traz 139 fotografias de dezenas de corpos trans e cis, que não se encaixam no padrão imposto: bem como travestis, homens héteros cis com cabelos longos, não-binários, homens trans... Dentre os modelos conhecidos, estão a estudante de psicologia Sofia Favero (da página Travesti Reflexiva), a militante travesti Keyla Simpson e os militantes homens trans Miguel Marques e Victor Summers (topo).
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Miguel Marques e Sofia Favero
Ìcaro Ramos

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Ela é dividia em três etapas (masculinidades, feminilidades e não-binaridades), conta com relatos poéticos de Lisa Vietra (atriz e escritra) e Tito Cavarlhal (homem trans e poeta) e mil papeizinhos contendo as iniciais de nomes, idade do óbito, cidade e causa mortis, um alerta aos crimes de transfobia no Brasil.

“Embora o assunto principal seja a transgereneridade, nesta exposição quero mostrar a beleza única do ser. Evidenciando as individualidades, faço um convite para refletir sobre a pluralidade do existir”, declara.

O projeto Cores e Flores para Tita foi contemplado no Edital Arte em Toda Parte, ano III, da Fundação Gregório de Mattos e Prefeitura de Salvador, e tem a produção da Kalik Produções Artísticas. Parte do ensaio é resultado da oficina fotográfica que Andréa ministrou em janeiro, especificamente para pessoas trans, onde elas também se autoretrataram e foram responsáveis pela exposição Solidões Trans e Travestis.
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Heron dos Anjos, dançarino de dança do ventre, cis e pansexual



A militante travesti Keyla Simpson

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"Cores e Flores para Tita" teve início no dia 10 de maio, no Teatro Gregório de Mattos (Pça Castro Alves, s/n, Centro), e é aberta ao público para visitação gratuita, de quarta a domingo, das 14h às 19h, de 11 de maio a 12 de junho, com 03 visitas guiadas por dia.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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