Entrevista

Miss T-Girl Veronika Havenna diz: "Muitos daqueles que nos criticam são os que nos procuram à noite"



Por Neto Lucon

Veronika Havenna
, de 30 anos, foi eleita neste ano a Miss Mundo T-Girl. Ela representa um dos maiores grupos do Facebook que reúne travestis e mulheres transexuais de todo o mundo. E que é palco de grandes debates, trocas e, claro, polêmicas.


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Paulistana radicada na Itália, a miss encanta pela beleza - são 68kg muito bem distribuídos em 1,75m – e também por se mostrar uma pessoa muito bem resolvida e lúcida em relação à vida, ao atual trabalho, à transfobia e a vontade de eliminar a hipocrisia.

Diferente de outras musas que ganham visibilidade, Veronika faz questão de dizer que trabalha como profissional do sexo e que é atriz pornô de filmes hard. E que, apesar dos preconceitos sobre a profissão, mantém intactas a sua dignidade, o seu caráter, os seus princípios e amor que recebe da família.

Em entrevista (e ensaio!) exclusivos ao NLUCON, a miss fala sobre assuntos delicados com muita coragem e sinceridade. E admite, entre outras declarações, que sente medo de retornar ao Brasil. “Fico revoltada por saber que, ao mesmo tempo em que o Brasil é o país que mais procura travestis no pornô, é o pais que mais mata travestis e transexuais no mundo”.

- Você venceu o concurso Miss Mundo T-Girl. O que representa este título para você?

Fiquei lisonjeada, pois o concurso preza além da beleza, a militância de cada uma no grupo. Ele traz a reflexão de que podemos lutar e mostrar um lado positivo de ser transexual ou travesti. Eu me sinto honrada porque sempre procurei mostrar o lado positivo da transexualidade, que ser travesti não é baixaria. Este é o segundo ano que participei do concurso, sendo que no ano passado fiquei em terceiro lugar. Agora, recebi a faixa e estou muito feliz com a repercussão. Adoro quando as meninas me adicionam e eu consigo ajudar a tirar dúvidas.

- Você venceu um concurso que é forte nas redes sociais. Você acha que o Facebook é uma importante ferramenta contra a transfobia?

É uma arma tanto positiva quanto negativa. A importância do Mundo T-Girl é que abordarmos assuntos sobre o que está acontecendo: as conquistas, as vitórias e também as tragédias que nos faz ficar alertas. Acho que por meio das redes sociais a gente consegue mostrar que ser travesti não é ser delinquente, uma pessoa sem escrúpulos, sem coração. Que a gente tem sonhos, amor... E também participar de campanhas mundiais, como a ação que a Thara Wells, a Náthalie de Oliveira e outras misses fizeram no Dia da Visibilidade Trans. Ajuda a conscientizar o Brasil e o mundo sobre a transfobia.

-E o que tem de negativo, por exemplo?

Vejo muita gente usando essa arma contra nós. E vejo muitas de nós brigando entre si, publicando vídeos e atrocidades. Acho que o respeito deve começar entre nós mesmas, porque já temos uma luta contra a sociedade transfóbica, contra o preconceito das famílias... Não dá para ficarmos lutando entre nós. Temos que ter consciência de que a união faz a força.

- Não tem como negar que você é uma mulher linda. Já participou de outros concursos?

Sempre chamei atenção pela minha beleza afro. Minha mãe é de Belo Horizonte e o meu pai é chileno, então essa mistura me deixou assim, camaleoa e exótica. Sou muito vaidosa e já participei de outros concursos desde 2010, em Toscana, em Napoli e também no Miss Trans Internacional, em que fiquei em terceiro lugar. Sempre tive uma aceitação do público muito bacana, apesar de não ter levado uma faixa. Mas para mim ter beleza é fundamental, mas não é essencial (risos).




- (Risos) Como assim “fundamental, mas não essencial”?

Vou explicar... Primeiro, ela tem que se sentir bonita consigo mesma, para estar com o ego bem, e não para agradar o outro. E, segundo, porque não adianta ser bonita e ao mesmo tempo estúpida e ignorante. Às vezes quando uma pessoa é inteligente e bonita por dentro, ela carrega a maior beleza que pode existir na face da terra.

- Quais são os maiores defeitos e qualidades da miss Veronika?

Sou uma pessoa muito amorosa, inteligente, criativa, amiga e boa conselheira. Já o defeito... às vezes sou compulsiva, explosiva, faço as coisas sem pensar e, quando vejo, estou arrependida. Mas sinto que, com o passar do tempo, tenho tido maior controle sobre a compulsão.

- Quais são os seus ícones de beleza trans?

Ícone de beleza no Brasil vai ser eternamente a Roberta Close. Foi ela quem abriu as portas para gerações. E passam os anos, ela continua sendo esse símbolo. Roberta Close forever. É claro que também temos meninas lindas como a Raika Ferraz, a Marcela Ohio e a Valentina Sampaio. Mas a minha inspiração, particularmente, foi a Marcinha do Corinto. Nunca esqueço de quando fui na boate com 16 anos e vi ela dublando Iemanjá. Toda pequeninha, mágica e com aquele corpo exuberante... Por ela ser uma mulher transexual negra, ela me inspirava. E eu tinha aquele ditado: quando eu crescer, quero ser Marcinha do Corinto.

- Sinto que o perfil de beleza das travestis e mulheres transexuais tem mudado ao longo dos anos. Até pela maneira de se construir esse corpo, antes muito atrelado ao silicone industrial. O que você acha do uso do silicone industrial?

É uma questão muito volúvel do mundo transexual. No meu tempo, quando eu comecei, por volta de 10 anos atrás, existia o bordão: "para você ser travesti você precisa ter óleo". E quando a gente tem 15 ou 18 anos a cabeça é diferente da cabeça que temos hoje. É um conselho que dou para todas as meninas: não cometam esse erro de usar o silicone industrial, pois não tem volta. É uma coisa para sempre, um risco à sua saúde e à sua vida para sempre. Já tive amigas que já faleceram por complicações do silicone. Bombei a primeira vez com 17 e a outra com 19. Já tive dois abcessos, tenho sempre reações alérgicas, sempre tenho que tomar cortisona. Graças a Deus essa nova geração de travestis e transexuais não são tão adeptas ao uso do silicone industrial como na minha época.

- Qual é o “T” que você representa do Mundo T?

Teoricamente, pelo rótulo estipulado pela sociedade ou médicos, eu sou considerada uma travesti porque ainda não fiz a cirurgia de redesignação sexual. Mas eu me considero mulher, em todos os sentidos, por mais que eu não seja operada. A minha cabeça é de mulher, o meu comportamento é de mulher, eu sou uma mulher. Não é o genital que vai dizer se eu sou mulher ou não, mas o meu psicológico. Eu penso em fazer a cirurgia de redesignação sexual como último passo, mas quando eu tiver a minha vida concretizada, quando eu puder e tiver o direito de uma vida social, com marido e filho, investir em um negócio. Ou seja, longe da prostituição.

- Ou seja, passar pela cirurgia agora prejudicaria o seu trabalho atual, certo? Tudo bem falar sobre o assunto da profissão do sexo?

Certo. Sou acompanhante e atriz de filmes do gênero adulto hard. Você decide se quer colocar ou não na entrevista. Para mim, não tem problema. Não escondo, porque tenho o respeito da minha família e é isso que importa. Não fico incomodada com os outros, porque já sei que vivemos em um mundo onde a hipocrisia fala mais alto.

- Então conta um pouco da sua trajetória, por favor...

Nasci na Mooca, São Paulo e sempre tive comportamento feminino desde criança. Quando a minha mãe saía, eu colocava as roupas dela, as perucas dela, o batom dela. Eu não via a hora de poder sair daquele jeito, pois era o que eu era e me fazia sentir bem. Comecei a tomar hormônio aos 17, pouco depois da separação dos meus pais. Quando as mudanças começaram a ficar visíveis devido à minha transformação, tive que afastar do trabalho para cair na prostituição. 




- Você diz que tem o apoio da sua família atualmente. Foi tranquilo no começo?

Não. Eu tomava hormônio, mas saía escondida para trabalhar montada. Até que ela acabou descobrindo e, no meu aniversário de 18 anos, disse: “Se você quiser ficar na minha casa, você tem que ser do jeito que você era, porque não vou te aceitar nessa mudança”. E eu lembro que olhei bem nos olhos dela e devolvi: “Essa pessoa que você está vendo sou eu, Veronika. Infelizmente não sou feliz por levar a vida que levo, mas unir a minha alma, ao meu psicólogo e o meu corpo me faz bem”. Foi a partir desse momento que fui embora de casa e enfrentei a vida. A minha mãe achou que eu não fosse conseguir, mas sou uma pessoa pé no chão, objetiva e persistente.

- O que mudou?

Acho que ela sentia mais medo do que os outros falariam de mim, mas quando viu que as pessoas me respeitavam – pois eu continuava a mesma pessoa, de caráter e doce que sempre fui – ela mudou e me aceitou. Hoje, a minha mãe grita aos quatro cantos que eu sou o maior orgulho dela. E isso é gratificante, porque ela é minha estrutura, minha base e o meu espelho. É muito lindo o respeito que temos uma pela outra. E é o que me faz feliz e o que me dá motivação para correr atrás dos meus objetivos.

- Qual é o melhor e o pior da vida de uma profissional do sexo?


Primeiro, preciso dizer que ser garota de programa não tem a ver com a sua integridade, com a sua dignidade. É uma profissão como qualquer outra que nos países de primeiro mundo, como a Suíça, é considerada uma profissão normal. Para uma pessoa ser garota de programa ela tem que ser forte em todos os sentidos. Até psicologicamente, para conseguir suportar determinadas pessoas que vem nos procurar: depressivos, deficientes mentais, pessoas que se sentem sozinhas, maníacos sexuais. É por isso que muitas pessoas acabam não suportando e se entregam ao vício das drogas. Graças a Deus eu não tenho mais vício. O lado positivo é que a vida acaba te transformando, amadurecendo e as situações te fazem crescer muito e a ver o mundo com uma clareza maior do que realmente é. A pessoa que me transformei nesses 12 anos foi uma pessoa muito mais coerente, mais reflexiva.

- E a diferença dos programas para os filmes?


O pornô eu acho mais pesado, sabia? Embora seja os meios que me fizeram alavancar nesse mundo e me tornar conhecida, eu me preocupo um pouco com o futuro. Porque penso em formar uma família, ter um casamento e eu sei que eu vou morrer e esses filmes vão estar aí. É um lado que pode atrapalhar relacionamentos e futuros trabalhos. Como aconteceu aqui na Itália, eu não pude participar de um programa de TV por conta de "alguns trabalhos de cunho erótico". Quando eu fizer a minha cirurgia, talvez eu tenha que que fazer a Veronika Havenna morrer e sair desse meio para ter uma vida tradicional, com uma família, com meus filhos. Pelo menos tenho consciência disso tudo e, tendo consciência, fica um pouco mais fácil.

- Você já sofreu transfobia?

Na pista. Mas tanto mulher (cis) quanto travesti acaba sofrendo agressões verbais, físicas por se submeter àquelas condições de estar ali exposta. Dando a sua cara a tapa, numa pista e não sabendo o que vai acontecer. Para mim, a transfobia é sinônimo de repressão sexual, pois sinto que ela geralmente vem dos homens. Ele são transfóbicos por não se aceitarem de alguma forma e acabam querendo acabar e tirar as vidas de pessoas que são bem resolvidas e felizes. A transfobia também é falta de educação e cultura, de saber conviver com pessoas com variadas vivências. É opressão de direitos, no trabalho, na falta de inclusão social.

- O que você acha, sendo uma atriz pornô, de o Brasil ser o país que mais busca conteúdo trans no site erótico RedTube. E ao mesmo tempo ser o país que mais mata travesti e transexual no mundo?

Eu fico muito indignada com essa hipocrisia. Pois é esse o nome, hipocrisia. O mesmo homem que procura a travesti a noite é o cara que chama ela de João ou de viado durante o dia. Muitos daqueles que nos criticam são os que nos procuram a noite. Eu me sinto extremamente mal. E também me sinto extremamente mal quando me deparo com aquelas fotos horríveis, chocantes, de meninas que foram assassinadas na rua, na pista. Mostram a crueldade e o sangue frio dessas pessoas. Eu sei que, independente da identidade de gênero, várias pessoas morrem no Brasil todos os dias, mas parte o meu coração quando sei que uma irmã perdeu a vida só por ser travesti ou transexual. Só por externalizar o que ela era por dentro. É lastimável.

- Você já perdeu alguma amiga para a violência transfóbica?

Muitas e eu não podia acreditar. Como aquelas pessoas, que eram tão do boas e do bem, poderiam ter perdido à vida pela rejeição da sociedade. Nem sei se é rejeição o nome, tiro como repressão. Uma repressão que destrói sonhos, histórias e famílias inteiras. Pois as famílias também sofrem de uma maneira brutal. Mas também tenho que falar que a situação, apesar de ruim, melhorou um pouco comparada do jeito que era. Quantas e quantas morreram para que nós pudéssemos existir hoje em dia?

- Como foi parar na Itália?

A maioria diz: "eu vou para a Itália para fazer cursos, vou para a Itália para isso e aquilo". Mas não vou mentir. Estou na Itália faz sete anos, sou acompanhante de luxo, atriz de filmes eróticos, faço trabalho publicitários para algumas catálogos, calendário, faço algumas pontas de programas televisivos. A minha vida sempre foi um livro aberto, até porque a minha família me aceita e me respeita. Volto a dizer que tenho o meu caráter, a minha dignidade e os meus princípios. Vim para a Itália com os meus 22 anos, sabendo de todas as condições que eu iria enfrentar num outro país e aceitei. E não me arrependo, porque a Itália me fez crescer como ser humano, amadurecer e me transformou no ser humano que sou hoje. Me tornei Veronika Havenna, um dos nomes de trans mais conhecidos na Itália.




- Foi difícil a adaptação? O que pode falar da sua vida aí?

Como eu tinha muitas amigas não foi difícil. E como eu sempre fui fanática pela Laura Pausini, não foi difícil aprender italiano. Tive um período de três meses para me adaptar, falo fluente e só tenho alguns errinhos na escrita. Eu amei e amo esse lugar, a cultura, as pessoas, os restaurantes, o respeito e o modo de viver. A qualidade de vida é diferente do Brasil. É claro que a hipocrisia existe em todos os lugares, mas aqui as pessoas não te apontam, elas te tratam como seres humanos, com respeito. No Brasil, nós não sabemos se, ao sair para o supermercado, vamos voltar com vida. Não que eu tenha medo de ter uma vida social no Brasil – é o meu país, eu adoro e sei que há algumas mudanças, como a prefeitura de São Paulo com o projeto Transcidadania, as meninas mostrando que trabalham em outras profissões, a inclusão de trans na Lei Maria da Penha – mas sinceramente a Itália é onde quero viver até o último dia da minha vida. Aqui, tenho dignidade e respeito que não tinha no Brasil.

- É verdade que os homens italianos assumem o compromisso com trans com muito mais tranquilidade que os brasileiros? Aliás, você prefere os italianos ou brasileiros?

Você vai me comprometer. Mas acho que a pegada do homem brasileiro e a beleza do homem italiano fariam um mix perfeito (risos). Tô brincando. Já tive um relacionamento de quatro anos com um brasileiro, que eu tenho o nome dele tatuado no meu braço, e tive dois relacionamentos com italianos. Não sinto tanta diferença sobre o que eu vivi com esses homens. Mas sinto que os italianos sentem menos preconceito. No norte da Itália, eles têm a mentalidade mais aberta. Já no sul é mais atrasada. Mas até então os italianos são do tipo de pessoa que, se estão bem com você, eles enfrentam a sociedade.

- Você namora atualmente?

Eu tenho um relacionamento, sim. É o terceiro italiano com que namoro e ele é uma pessoa maravilhosa. Temos um relacionamento bacana, verdadeiro, respeitador. Conheci algumas pessoas da família dele. E eu acho fundamental estar com alguém, pois não vivo só. Cresci com a família, enfrentei o mundo e preciso de uma pessoa que seja do bem e que queira crescer junto.

- O que pensa para o futuro?

Penso em aposentar da carreira de acompanhante pornô, porque a idade vai passando e eu não quero isso para o resto da minha vida. Infelizmente foi a única opção que eu tive para correr atrás dos meus sonhos. Eu penso em constituir a minha família, dar netinhos para a minha mãe, ter uma vida financeira estável e fazer a redesignação sexual. Apesar de eu já saber que mulher eu já sou, independente da cirurgia. Quem sabe entrar para o Big Brother, para A Fazenda e, mesmo que seja 15 minutos de fama, levar uma visibilidade positiva para as meninas. Quem sabe estar à frente de um telejornal, já que a cabeça das pessoas está mudando. De uma coisa eu sei: vocês ainda vão me ver na mídia.

- Qual é o recado que você dá para as meninas do Mundo T-Girl?

Muito obrigada pelo carinho de todas e por aquelas que se sentem bem representadas por mim. Vamos lutar sempre pelos nossos ideais, vamos procurar mostrar coisas positivas e vamos procurar não nos massacrar. E vamos nos unir. Por mais que seja difícil, não é impossível. Nunca desistam dos seus sonhos. E não se esqueçam de dar valor para aquelas que derramaram lágrimas de sangue para que pudéssemos existir e viver hoje.

- Para finalizar, pretende participar de algum outro concurso?

Vou participar de um concurso em setembro, que é o Miss Trans Beleza Negra da Jaqueline Boing Boing. O júri vai estar julgando a verdadeira beleza da trans negra. Vou me dedicar ao máximo para levar o título para mim e para o Mundo T-Girl, pois depois que eu ganhei o carinho que eu sentia pelas meninas, como a Kimberly, Bruna, Claudia, Camilla, Stefanny, duplicou.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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