Pride

Otaviano Costa escorrega na transfobia na Globo, pede desculpas e escorrega de novo



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O apresentador Otaviano Costa fez um comentário considerado transfóbico durante o programa “Video Show”, da TV Globo, na terça-feira (10). Tudo porque soltou a palavra “traveco” e depreciou o relacionamento de um homem cis com uma travesti.

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O comentário se deu depois que o ator Orã Figueiredo declarou que havia se dado bem, pois depois de ser casado com uma travesti em “Tapas e Beijos”, estava na companhia de três mulheres (cis) lindas em Totalmente Demais.

Foi quando Otaviano soltou em link ao vivo: “Pra quem foi casado com um traveco, tá bem demais”.

Nas redes sociais, várias pessoas denunciaram a exibição de transfobia em rede nacional. Tanto por referir-se com uma palavra pejorativa ao grupo – bem como livreco, padreco, a palavra traveco diminui e estigmatiza a identidade da travesti – e considerar que um homem se dá bem quando fica com uma mulher cis, não com uma travesti.

Natasha Roxy, que estava assistindo ao programa, relatou que se sentiu ofendida na hora. "Acho justo que ele faça essa retratação ao vivo no programa". 


A militante Duda Mena Barreto escreveu: "Não foi só a palavra 'traveco', foi o contexto geral, a comparação, diminuindo as trans, falando que agora sim estaria bem por estar com uma mulher. Essa foi a questão. Imagine para quem foi casado com uma negra, dizer que agora está melhor por estar casado com uma branca. O fato de não dizer o termo pejorativo 'macaca', ou de pedir desculpas por ter usado, não faz disso menos preconceito. Reflitam". 

Luiza Coppieters, que é integrante do Conselho Municipal de Polícitas LGBT, declarou que fará uma carta de repúdio às declarações e verificará os meios jurídicos para responsabilizar o apresentador pela transfobia. "Não se trata apenas do termo, mas de nos desmerecer, rebaixar, humilhar e ridicularizar em relação às mulheres cisgêneras. Coisa que a sociedade faz a todo instante".

PEDIDOS DE DESCULPAS?

Após a repercussão negativa, Otaviano resolveu pedir desculpas nas redes sociais por ter usado a palavra “traveco”. Mas enquanto muita gente elogiou o ato, outras viram que ele acabou escorregando na transfobia novamente. Dentre os motivos, está a foto que ele publicou vestido de mulher e a ausência de diálogo.

Em vídeo, Otaviano declarou que não é uma pessoa preconceituosa e que, sendo um heterossexual, desconhecia o “grandioso dicionário LGBT” e que não se lembrava que traveco era ofensivo.


Na internet, dezenas de seguidores voltaram a criticar o ator, frisando que homens que se relacionam com travestis e mulheres transexuais também são ou podem ser heterossexuais. E que inclusive as pessoas trans podem ser heterossexuais, pois transgeneridade diz respeito ao gênero, já orientação sexual diz respeito a quem a pessoa se atrai.

Depois voltaram a jusficar que o problema não estava somente na palavra, mas na construção e conteúdo do diálogo, em que colocaram o relacionamento com uma travesti como inferior ao do relacionamento com uma mulher cis.




“É tão difícil assim ver que não é esse exatamente o problema da piada? rs Pra ver como algumas paradas tão naturalizadas... É tão óbvio e natural pra essa gente que namorar travesti é um demérito, um problema, que a pessoa nem cogita que de repente o problema pode ter sido esse”, declarou a militante travesti Amanda Palha.

Otaviano diz, contudo, que não pode aceitar ser chamado de homofóbico e transfóbico. “Não é assim que conseguiremos essa igualdade que tanto batalhamos”. O apresentador, por fim, publicou uma foto dele mesmo vestido de mulher, em uma atuação na novela “Morde e Assopra”, de 2011, e chamou as pessoas que queriam continuar o debate de inTRANSigentes. 


"Aos que ainda insistem em serem obtusas(os) comigo, inTRANSigentes, odiosos, somente a minha purpurina a vocês", escreveu Otaviano. 


Amanda Sampaio devolveu: “Vamos apagar o close errado. Como? Dando outro close errado. Além de egocêntrico, esse pedido de desculpas mal feito só reforça o senso comum de que mulheres trans são homens vestidos de mulher. Nojo ainda”.

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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