Entrevista

“Parada nunca foi gay, é LGBT”, diz a militante travesti Adriana da Silva


Por Neto Lucon

Adriana da Silva
é a militante travesti que atua como voluntária na Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Desde 2000 é conhecida como Adrianinha da Parada – “a Parada virou até sobrenome”, brinca - e é um dos principais nomes da coordenadoria de travestis e transexuais.

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Neste ano, a APOGLBT abordará o tema “Lei de Identidade de Gênero Já” – Todas as pessoas juntas contra a transfobia. Um feito que, para Adriana, demorou 18 anos. Mas que não reflete o que chamam de movimento GGG. “Aqui, todos são bem-vindos. E, se eu não fosse bem-recebida, não estaria aqui”, garante.

No cotidiano, não é raro ver Adriana distribuindo roupas e cestas básicas para aqueles que estão sujeitos à vulnerabilidade social - mostrando a importante ação de micropolítica. Além da Parada, ela também trabalha na Tenda, localizada na 9 de Julho. Espaço onde as pessoas em situação de rua podem tomar banho, ter convivência e atendimento com assistente social.

Em um bate-papo exclusivo com o NLUCON, Adriana fala sobre sua presença na Parada, a relação com a família, militância trans e o que achou da polêmica crucificação de Viviany Beleboni na última edição. Pela primeira vez, vamos incluir alguns vídeos dos bastidores da entrevista – e esperamos que vocês gostem.

Confira:

- Pela primeira vez em 18 anos a Parada vai abordar o tema referente à comunidade trans. Por que é importante debater essa população?

Pelo tempo que estou aqui, acho que até que demorou um pouco. Mas é importante para mostrar que elas estão aí, que estão jogadas à margem, que muitas ficam na rua, que têm dificuldade para sobreviver, para pagar aluguel. Vai ser muito bom para dar visibilidade pra elas e para essas causas, que até hoje não tivemos a oportunidade de falar. Além disso, sobre os crimes, eu penso assim: se quando morre uma pessoa que tem dinheiro, eles já não vão atrás, quanto mais uma pobre coitada de uma travesti, que não tem dinheiro e nem família em São Paulo. Fica pior ainda. É facilmente esquecida. 



- O tema briga pela aprovação da PL 5002/13, que visa facilitar a mudança da documentação e o reconhecimento da identidade de gênero da população trans. De qual maneira você acha que essa lei vai colaborar na luta contra a transfobia?

Mudando o nome e a documentação ajuda bastante, pois percebo que muitas já conseguiram emprego depois que fizeram a mudança (por meio de processos judiciais). Acho que com a aprovação da lei elas vão sofrer menos preconceito e menos constrangimento, pois o patrão reconhece o que está no documento. Hoje em dia, se você colocar um homem (hétero cis), uma travesti, uma gay e uma lésbica, para quem eles não vão dar emprego é para a travesti. Os outros até conseguem emprego. Mas basta elas colocarem peito, colocarem um vestido que não conseguem mais. Então fica muito difícil e a única opção que elas têm é a rua e a prostituição.

- Qual é a pauta mais importante para o grupo trans ir atrás?

É trabalho (formal). Vejo que é o que as meninas mais buscam hoje em dia. Há meninas que estão nesses prédios invadidos e pagam o aluguel sozinhas. Há meninas que ficam em hotel e também são sozinhas. Acho que o que elas precisam é de um trabalho. Eu sei que a prostituição não vai acabar, e mesmo que tenham outras oportunidades muitas vão querer se prostituir porque é um dinheirinho rápido para pagar as contas. Mas o que seria melhor para quem quiser é trabalho (formal) e respeito. Que elas pudessem ir para onde quiser, que não tivessem problema de usar o banheiro feminino dentro da empresa, que não tivessem problema de ir a uma lanchonete ou ao restaurante. Porque ainda existe o estigma de que elas são marginais e a sociedade bate nessa tecla. Precisamos mudar essa mentalidade. 

- Você é conhecida como a Adrianinha da Parada. Essa referência é motivo de orgulho ou você não gosta?

Eu acho normal, gosto. É quase um sobrenome, né? Em vez de Adriana da Silva é Adrianinha da Parada (risos). Quando o pessoal conheceu em 2000, eu falei que fazia ação voluntária para a Parada. Então quando o pessoal me procura, já dizem: “Cadê a Adrianinha da Parada”. O melhor de tudo é que meu nome é limpo em São Paulo, nunca fiz nada de errado. Então quando eu peço alguma coisa, o pessoal sabe que vai exatamente para aquilo que eu falei, para as meninas que estão precisando. E ajuda.




- Muito gente fala que a Parada é focada no público gay. O que você pensa sobre isso sendo uma travesti dentro da Parada?

Apesar de ter muito gay, a Parada sempre foi Parada do Orgulho GLBT de São Paulo. É que o pessoal – a mídia e outras pessoas – começaram a rotular “Parada Gay, Parada Gay, Parada Gay”, daí todo mundo ficou na cabeça que é Parada Gay. Mas é GLTB. Aqui tem gay, tem lésbica, tem travesti, tem transexual. E todas as siglas são bem-vindas e juntas.

- Dá um exemplo para que as pessoas entendam que a Parada não é específica para o homem gay...

As pessoas acham que aqui é Parada Gay, que só tem gay e que as outras letras não serão bem-recebidas. Eu digo: aqui as portas sempre estiveram abertas para todo mundo. Desde quando entrei, eu sou bem-vinda, senão não estaria mais aqui. Mas eu preciso dizer também que muita gente aparece achando que é um lugar que tem muito dinheiro. Mas não é assim. Aqui todo mundo trabalha, todo mundo é voluntário, o patrocínio que a gente consegue vai tudo para pagar as contas. Eu mesma trabalho um dia sim e outro não voluntariamente. Fico no telefone, faço encaminhamento de denúncias para a Secretaria de Justiça, Defensoria Pública, para o CRD (Centro de Referência da Diversidade). O meu trabalho também é pegar roupa e doar para as meninas. É só me procurar que uma ação ou outra eu faço... E isso tudo acontece durante o ano, não só no dia da Parada.

- No último ano, a atriz travesti Viviany Beleboni subiu no trio crucificada. O que você achou?

A gente não sabia. Aqui na associação, as pessoas alugavam os trios e, até no ano passado, a gente não sabia o que a pessoa ia colocar em cima (neste ano, houve uma reformulação e a unificação dos trios). Eu só fiquei sabendo quando comprei o jornal, liguei para o Marcelo Gil e as pessoas começaram a ligar aqui. Uns dizendo que foi bom, outros dizendo que era absurdo. Aí eu falei: foi chocante, mas foi o que ela falou no Superpop, da Luciana Gimenez, é uma coisa que as meninas passam no dia a dia. São crucificadas: a família rejeita, não tem emprego, ninguém dá oportunidade de emprego, a única porta é a rua. E mesmo na rua tem cliente e pessoas na rua que batem, xingam e machucam, porque eu sei que tem gente que faz isso. Têm aquelas que aprontam na rua também, porque eu já vi, só que não me intrometo. Afinal elas apanham bastante, então é lógico que vão reagir. Sobre a Viviany, eu achei chocante e maravilhoso. Porque o Neymar numa cruz pode, a Madonna pode, se fosse uma mulher (cis) ninguém ia falar nada. Mas daí porque é uma travesti não pode.

- Como você avalia a atual militância trans?

É um completo jogo de ego, que atrapalha a gente avançar. Uma quer ser mais que a outra. Mas a gente tem que ajudar pelo que o coração manda. De querer fazer algo quando vê aquela pessoa jogada. E não querer fazer só quando estiver na frente da mídia, quando tiver um dinheirinho fora ou quando puder tirar algum tipo de proveito.  

Aqui em São Paulo, quem eu vejo que ajuda muito as meninas é a Jacque Channel, que tem a igreja Séforas. Tem a Brunna (Valin) que trabalha num espaço para as meninas ficar, que tem curso para as meninas fazer. E tem a festa da Paty (Delly), que faz uma vez por quinzena uma festa voltada para travestis e transexuais, um espaço para elas se divertirem um pouco. As outras, sinceramente, eu não entendo a cabeça.

- Você se define travesti, né?

Eu sou travesti, pois desde sempre me reconheço como travesti. Quando muitas começaram a se operar (a redesignação sexual também conhecida como mudança de sexo), eu nunca quis. Pois gosto do meu órgão genital, não tenho problema com ele. Eu tenho uma amiga que se operou recentemente e está feliz. Mas às vezes vejo que, para quem faz programa, não é uma coisa muito boa. Pois a gente sabe que o cliente procura o pênis da travesti. E vejo que muitas meninas acabam não tendo como trabalhar depois.



- Mas todas devem ser respeitadas em suas vontades. E a militância deve brigar para que haja um leque de oportunidades no mercado de trabalho, né?

Claro, como eu disse, tenho uma amiga que passou pela cirurgia está muito feliz, realizada. Mas ela já tem renda própria, uma casa... A história é outra e diferente de quem está passando dificuldade com moradia, emprego e precisa estar na rua.  

- Pode contar um pouco como foi a sua trajetória pessoal?

Com 13 e 14 anos eu me percebi travesti. Comecei com as minhas primas brincando e desde sempre a minha família fala e me aceita. As minhas tias, com medo de falar ‘olha, que viadinho’, falavam para mim: ‘Toma vergonha’ (risos). Com 14 cheguei a trabalhar no cinema, a fazer programa. Mas não tive problema de aceitação. Tanto que hoje eu moro no mesmo terreno que os meus quatro irmãos, com cada um com a sua casa. É aquela coisa, a gente tem que saber se colocar no lugar.

- Como assim "se colocar no lugar"?

Não sair mostrando quase tudo, não ficar com os peitos de fora na rua. Ou seja, é você que faz o lugar onde mora, aonde vai. Porque ainda tem muito preconceito com a gente, mas se você andar depravada, pelada, vai piorar. E é horrível porque, por causa de uma generalizam todas. Mas não é assim.

- Quando você começou na militância e no trabalho voluntário? O que te motivou?

Pensava que, se eu era de São Paulo, era aceita pela família e ainda assim era difícil, a vida das meninas que vinham de fora e não tinha família próxima era pior ainda. Então queria ajudá-las. Antes, existia muita cafetinagem em São Paulo, as meninas moravam com as cafetinas, mas às vezes não tinham dinheiro nem para pagar o aluguel para sobreviver, nem para comprar comida. O único dinheiro que elas faziam nas ruas ou nos cinemas era paga pagar a cafetina. Eu ficava pensando na barra que eu passava e na barra que elas passavam sem família, sem dinheiro nem para falar com a família por telefone. Muitas se transformam aqui em São Paulo e ainda hoje não tem coragem de visitar a família.


- Hoje em dia ainda é muito forte essa relação de cafetina com as travestis e transexuais?

É difícil ter cafetinagem, pois elas geralmente pagam apenas o lugar para morar. A pessoa tem um apartamento e aluga os quartos para as meninas morarem, entende? Mas ainda não é uma vida fácil. Às vezes eu estou na Tenda e deixo elas telefonarem para os seus familiares. Muitas ligam e começam a chorar no telefone, pois não têm dinheiro para voltar e muitas estão envolvidas com drogas. Eu tento ajudar como posso, devolver um pouco de conforto para essas meninas. Também estou sempre doando roupas, cesta básica conversando...

- Da população em situação de rua, tem alguma história que você acha interessante para contar?


O que mais me choca hoje em dia é ver meninas que foram para a Itália, que foram para a Europa, que se diziam Europeias, que conhecem nomes e nomes, morando em albergues e vivendo no meio de droga. Então eu penso no tanto de dinheiro que a pessoa ganhou e, hoje, está nessa situação. É o que mais me choca, pois mostra como a vida está difícil hoje em dia. Eu sei levar, conversar, fazer elas não ficar triste. Tem caso de menina que mora em invasão de prédio no centro. O Haddad falou que ia dar para elas, então muitas estão invadindo os prédios achando que vão ganhar alguma coisa. Eu acho meio difícil, porque agora vai ser eleição e eu não sei como vai ser. É complicado.

- E qual é a solução que você sugere para mudar esta situação?

É votando em uma pessoa que a gente sabe que vai ajudar mesmo. Esse projeto que elas estão agora, o Transcidadania, já foi falado, não adianta falar que não. Ele já existia e se chamava POT (Programa Operação Trabalho). Eu já fiz parte e não posso falar que é ruim, porque me ajudou muito.

- Então...

O que eu acho um absurdo é que eles estão colocando as meninas para estudar e fazer curso. Mas disseram que depois de dois anos não vão mais renovar o contrato de nenhuma delas. E para onde vão essas meninas? O certo seria eles colocarem elas em algum órgão da prefeitura, que tem vários. Colocar um estágio e, se a pessoa gostar do seu trabalho, ela te contrata. Porque do jeito que está, depois de dois anos elas vão voltar para a rua e para as prostituição. E muitas meninas não querem mais saber disso.




- Você não acha que essas ações ajudam a combater a transfobia? Qual é a avaliação que você faz destes últimos anos pra agora?

Ainda falta muita coisa, mas antigamente eu acho que era pior. A diferença é que em 2005 as pessoas jogavam até pedra quando passava uma travesti. E que hoje as pessoas olham, cutucam e fazem chacota. Hoje eu vejo que as próprias travestis estão com mais medo. Elas tem medo de sair na rua e do povo xingar, de ir ao banheiro feminino e acabam sempre brigando por esse medo. Eu sempre digo que elas têm que se empoderar, que não dá mais para sair só a noite para trabalhar, de cabeça baixa e nem deixar de frequentar o banheiro. É o que eu sempre falo: a gente tem que ocupar o nosso lugar e saber se colocar nele.

- Lidando com tantos casos de preconceito diariamente, você ainda se emociona quando está diante de um? Você chora em qual momento?

Eu choro, sim. Quando vejo esses casos ou quando alguém vem me agradecer. Mas não gosto de chorar na frente delas. No Natal apareceu uma menina aqui, no dia que dei o panetone, e ela começou a dizer que a gente era a única que pensava nelas. Daí, para não chorar, eu disfarcei e saí para tomar um café. Me seguro para que elas não vejam.

- Mas chorar também é atitude de gente forte, viu? Qual é o seu sonho hoje em dia?

O sonho pessoal eu já realizei, que foi a minha casa própria. Mas o meu sonho hoje é não ver muitas meninas na rua, é ver elas trabalhando. É poder achar a família delas. Hoje, eu vejo muitas meninas fazendo programa na República, brigando e sorrindo, mas eu sei que por dentro elas não estão assim. Quando elas chegam lá para pagar as contas, a diária de onde elas moram, elas sabem que têm que estar com dinheiro. Quando o dinheiro não vem, eu sei como elas se sentem. Sei porque já vivi isso. É muito triste.


Adriana da Silva e o jornalista Neto Lucon

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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