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Professora trans Luiza Coppieters lança novo canal em que dá aulas de Filosofia



Por Neto Lucon

A professora de filosofia Luiza Coppieters, que é uma mulher transexual lésbica, lançou em sua fanpage no Facebook o programa “Café com Luiza”, publicado todas as quarta-feiras. A ideia é criar um canal de resistência ao discurso dominante e ampliar o debate sobre questões que a sociedade desconhece ou trata como polêmicas.

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No programa, Luiza traz formato flexível, em que dá tanto aulas expositivas (em uma biblioteca ao som de jazz), quanto faz entrevistas e até externas para conversar com a população. “A expectativa é que chegue a todas as pessoas que tenham interesse em conhecer e pensar sobre questões atuais a partir de um repertório filosófico”, diz ao NLUCON.

Luiza é formada em Filosofia, é professora há 16 anos e afirma que aprendeu a ler com textos filosóficos. “É importante dizer isso, pois procuro ter reconhecimento pelo que penso, falo e faço, e não pela minha condição de gênero ou sexualidade. As pessoas transexuais são lidas, cotidianamente, por esses aspectos, como se estivessem estampados na testa. Como qualquer pessoa, quero ser reconhecida pelo meu trabalho”.

O discurso acessível e de fácil entendimento, que pode ser conferido nos dois primeiros vídeos – O que é Paixão? E o que é Aluna? - é justificado pelas aulas que deu para crianças e adolescentes, de 11 a 17 anos. “Foi exigido um discurso que tornasse a Filosofia menos árida e compreensível dentro do processo formativo, mantendo o rigor filosófico. Ou seja, aprendi muito com minhas alunas. E elas também são responsáveis pela minha formação", afirma.

Sucesso? Só o primeiro vídeo soma quase 30 mil visualizações. 





POSICIONAR-SE COM REFLEXÕES SÓLIDAS

No programa, a professora afirma ser inevitável falar sobre questões de gênero, identidade, sexualidade. Principalmente porque os jovens estão engajados num projeto de ruptura da ordem atual. “Pensadores da segunda metade do século XX estão sendo divulgados, estão mais acessíveis para que possa pensar a realidade atual, neoliberal. A compressão do tempo e do espaço, a fragmentação da produção e das relações humanas, as relações de trabalho e afetivas estão na ordem do dia. Vemos movimentos sendo organizados de novas formas e por grupos que estavam invisibilizados”.

Luiza afirma, portanto, que percebe que as pessoas estão sedentas por pensar o mundo e sair de uma sociedade que faz adoecer. E que o momento político atual é uma boa oportunidade para se posicionar com reflexões sólidas. “Se há um retrocesso no campo político é porque há um tensionamento por uma sociedade democrática. E a estrutura racista, misógina, machista e patrimonialista e autoritária do Brasil não aceita fissuras. Por isso todo esse tesionamento. Faz-se necessário que nos posicionemos a partir de uma reflexão sólida a qual os meios de comunicação não oferecem”.

Dentre os temas que pretende abordar, por exemplo, é “como a legalização das drogas é também uma luta feminista”. “As mulheres são as que mais sofrem com o tráfico”, adianta ela, que conclui: “Precisamos produzir sínteses com as informações que recebemos”.




Confira um bate-papo com Luiza:

- Qual é o retorno que recebeu dos programas que foram ao ar?

Foi lindo! Nas primeiras 15 horas teve 9 mil views. Muita gente compartilhando, comentários lindos, ex-alunas, professores compartilhando e querendo passar em sala. Fico muito feliz. Não só eu, mas toda uma equipe, um grupo de pessoas que está envolvido e vem me ajudando muito. Se saiu, foi especialmente a ele.

- Quais são as pautas ou reflexões filosóficas que você pretende abordar em relação à transexualidade?

A transexualidade traz um questionamento à ordem muito maior do que apenas a aceitação ou direitos. Ela questiona os saberes-poder jurídico e médico, questiona os fundamentos de uma ciência que, ao produzir discursos sobre os corpos, instaura uma realidade que define de antemão quais são as potências e possibilidades de cada indivíduo. Para além de se pensar gostos, preferências ou identificações, nos leva a pensar os processos que produzem subjetividades. E isso questiona profundamente as relações de poder.

- O que ainda hoje precisamos desmistificar em relação à população trans?

Você usou o termo perfeito: desmistificar. A sociedade brasileira pensa de maneira mítica, as operações mentais são sempre por imagens, alegóricas. Ou seja, pensa pela imaginação, não por conceitos, argumentos, estruturas discursivas que respeitem os mínimos princípios da lógica. Ao contrário do que dizem, não penso que "falta interpretação de texto". Não se chegou a esse nível de elaboração. Falta respeito às regras básicas de lógica. Por exemplo, se se afirma "eu gosto disso", muitas pessoas, infelizmente, concluem "então você não gosta daquilo". Aliás, a situação é tão trágica que se fala aberta e tranquilamente sobre aceitação ou não da tortura. Isso é a barbárie. Corre-se o risco de, ao dizer a uma pessoa que matar não é legal nem bom, ser chamado de comunista. Agora olhe para a condição das pessoas transexuais nessa sociedade.

- Aparenta não ser muito diferente do julgamento descabido ao qual se referiu...

Estamos alijadas do direito básico e fundamental que é o nome. Relegadas ao um precário nome social, às ordens de juízes e médicos (cisgêneros, sempre), à exclusão do mundo do trabalho e ao preconceito que nos nega vínculos afetivos, somos o grupo social mais espezinhado. Só que agora estamos ocupando espaços. Entrando em escolas e universidades e, principalmente, lutando para permanecer. O preconceito é diário e constante. O fato de termos sido relegadas a um lugar, um horário e uma função específicos (na esquina, à noite, prostituindo-se), espantam-se quando nos veem de dia, trabalhando, estudando. Nossa tarefa histórica, como entendo, é produzir todo o estranhamento que gere interesse por entender e explicar às pessoas cisheteronormativas os laços que as encerram, os grilhões que as encarceram - motivo pelo qual se espantam e nos odeiam. É uma tarefa árdua explicar, especialmente porque não colheremos os frutos. Isso será para gerações vindouras. Mas é legal enfrentar o poder estabelecido.




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- Por qual motivo você utiliza o feminino como universal? Ou seja, quando é para falar no geral você sempre diz “todas”, elas” e não no masculino conforme é estabelecido tradicionalmente pela língua portuguesa formal?

Entendo o feminismo como uma nova perspectiva de mundo, de relação entre as pessoas, o sentido da produção e distribuição, o próprio questionamento sobre o tipo de sociedade e vida que queremos. Não se trata, portanto, apenas a luta por direitos iguais. A princípio, isto está garantido na Constituição Federal (a não ser que a turma do Cunha retire o artigo 5o.). A luta é maior. Por exemplo, que medicina que queremos? Por que a medicina é heteronormativa? As mulheres cis lésbicas são extremamente prejudicadas. O que há na formação dos médicos sobre homens trans, por exemplo? Nós, mulheres transexuais, não temos atendimento adequado nem suficiente. Dependemos de médicos, como psiquiatras, psicólogos e juízes para dizer quem somos. Não podemos - e muitas vezes nem temos conhecimento para - dizer quem somos. Pensar a medicina, a psicologia, os fundamentos da ciência, o discurso jurídico, filosófico e literário. Ou seja, o Feminismo é um projeto de revolução em que o sujeito não é mais o homem, são as mulheres (no plural). Nesse sentido que alterar a linguagem, tratar as mulheres como universal, como o sujeito discursivo, vai de encontro com o Eu que diz o mundo. Ano passado, disse às turmas que trataria no feminino se na sala houvesse mais meninas. Caso contrário, no masculino. Todas as salas tinha mais meninas (risos). Em dois minutos sendo tratados no feminino, sempre um aluno levantava a mão e pedia "pra parar de zoar". E eu lhes dizia: o meninos não aguentam dois minutos sendo tratados como meninas que já erguem a voz. As meninas passaram a vida inteira sendo tratadas no masculino e nunca levantaram a mão. Isso é revelador. Uma sociedade autoritária que parte de uma diferença de corpos para definir lugares e possibilidades de fala. O Feminismo se levanta contra isso.

- Quem você chamaria para tomar um cafê?

Ah, tanta gente! Queria muito ter tempo e condições de rever as amizades de antes de tudo que vem acontecendo na minha vida. Mas gostaria de tomar café com muitas pessoas que não conheço, especialmente da área da política e da Filosofia, gente da ciência, psicanálise e artes.

E quem você não chamaria? 

Olha, desde que não esteja dividindo a caneca, eu tomo café com todo mundo (risos). Não tenho problema em conversar, sobre qualquer assunto. Se não sei, gosto de ouvir e aprender. Aprendi muita coisa assim. Evidente que compartilhar da presença de uma pessoa mau-caráter é sempre desagradável. Provavelmente o café virá frio.

Assista e acompanhe o programa "Café com Luiza" clicando aqui

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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