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Psicanalista diz que reprimir gênero de criança trans causa “dores reais”



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O renomado psicanalista Joel Birman – autor de vários livros sobre diversidade no Brasil e na França – foi entrevistado pelo jornal O Globo e falou sobre crianças trans e o que pais devem (ou não) fazer quando estiverem diante dessas pessoas.

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Primeiro, ele explica que, por meio de 3 ou 4 anos de idade a criança já passa a entender o próprio gênero. “Nesse contexto, muitas crianças pensam que são do sexo oposto ou acham que têm uma discordância entre seu sexo e seu interesse sexual. Mais tarde, essa discordância pode se radicalizar ou pode se mostrar só uma fantasia infantil”.

Ele afirma que levar uma criança para a terapia infantil pode ser útil nesse processo. Mas fez um adendo. “Não para obrigá-la a coadunar sexo e gênero, mas para ajudá-la a descobrir se o gênero dela realmente é diferente das outras pessoas”.

O psicanalista explica que, ao contrário do que a sociedade costuma pensar, sexo e gênero não são necessariamente ligados. “O sexo é uma determinação biológica: macho ou fêmea. Já o gênero é uma construção cultural. Não só psíquica, mas cultural e social. A discussão sobre sexo vem desde o século XIX, enquanto a discussão sobre gênero vem desde os anos 60”.

Birman diz que Angelina Jolie e Brad Pitt – que aceitam que Shiloh, que foi designada mulher ao nascer, se vista com roupas consideradas masculinas – são exemplos de pais que respeitam o desejo da criança. “Se a inclinação dela é masculina, é preciso respeitar. Obrigar a criança a ser aquilo que ela não quer ser fará com que ela apresente sintomas psíquicos. Isso poderá provocar dor real nela”, defende.

Para as famílias que tentam reprimir o comportamento, o psicanalista faz um alerta: “Mais tarde voltará. E ela pode não saber como lidar com isso e desenvolver uma série de problemas psíquicos. Os pais devem buscar um auxílio de um psicanalista para criar um espaço de liberdade para a criança discutir isso. A terapia pode ser um momento que a criança perceba que isso é uma fantasia que se sustenta ou que perceba que ela de faro tem outro gênero. Crianças pequenas, de 3, 4 anos, já são capazes de fazer terapia. Basca procurar um especialista em psicanálise infantil”.

O NOME SOCIAL

Na entrevista, ele também comentou sobre a tentativa de parte dos deputados em suspender o decreto que dá direito ao nome social. Segundo o psicanalista é uma “violência psicológica” proibir pessoas trans de usar os seus nomes sociais, obrigando-as a manter os nomes de suas certidões de nascimento.

"Os pilares do tratamento para os trans são a realização da cirurgia para mudar a anatomia, a utilização de hormônios e a mudança do nome nos registros. Desde que a cirurgia de mudança de sexo foi criada na Dinamarca, nos anos 1940, esses três aspectos são entendidos pela classe médica como condições para que essas pessoas possam viver bem. Então, quando deputados tentam impedir o uso do nome social, estão contrariando todo um movimento de modernização que tivemos no mundo. É uma violência psicológica com essas pessoas", declara.








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Ele diz que o Brasil está muito mais conservador em relação à questão sexual e de gênero que os países vizinhos. “A Argentina, que é parecida conosco em vários aspectos, é mais liberal quanto à sexualidade. Nosso fundamentalismo religioso se contrapõe de modo agressivo aos direitos dos transexuais e homossexuais”.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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