Pride

“A gente aprende a se odiar”, diz militante travesti Amanda Palha sobre atirador de Orlando


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Por Amanda Palha*

Agora que descobriram e confirmaram que o atirador de Orlando era gay mesmo a gente já pode falar sobre isso?


[Se você já tá a par do rolê, pode pular esse colchete. Se não, cabe explicar. PLOT TWIST: depois da esposa do cara dizer que ele é gay, aparece um amante para confirmar e dar mais detalhes (confirmados pelos hotéis, serviços e boates citados). No fim, o rapazote, que diz-se já ter um histórico de atração e ódio por gays latinos, fez um menage sem camisinha com duas bees latinas, descobriu que elas estavam soropositivas, entrou em pânico mesmo depois do seu teste dar negativo (janela imunológica e tals) e o pânico + o ódio-desejo-frustrado por latinos + uma cabecinha obviamente muito perturbada = pegou uma arma, foi pra boate na noite latina (onde sabia que os dois rapazes do menage estariam) e saiu atirando nas beesha latina.]

Esse episódio tem três eixos centrais:
1. Xenofobia;
2. LGBTfobia (aditivada com auto-ódio);
3. A forma nojenta como a gente ainda trata o HIV.
E como cada ponto desses, por si só, já dá muito pano pra manga, vou ficar por agora só no segundo, ok? Ok.

Um dos problemas de algumas perspectivas centradamente identitárias é que elas fodem lindamente algumas possibilidades de debate sério. Um exemplo é essa coisa babaca de que não pode dizer que o agressor homofóbico podia ser um gay mal-resolvido ou que sexualidade reprimida pode virar comportamento violento contra LGBTs, porque teoricamente "isso seria jogar a culpa nas LGBTs, quando obviamente LGBTfobia é coisa de hétero cis".
O problema é: as vezes o cara É gay e mal-resolvido. Nesse caso, que não é qualquer caso porque morreu LGBT latina pra porra, é o caso. Como é de o de outras tantas bees que conheci que eram escrotas e agressivamente LGBTfóbicas antes de se assumir, ou das tantas mariconas casadas e homens de bem que caçam piru na esquina e que se tivessem chance, votariam lindíssimas "sim, pela família brasileira". Rola. Acontece pra porra. É comum. E transformar isso em guerrinha identitária não resolve nada, porque não é real. A real é que a sociedade é tão escrota com isso que é capaz de produzir LGBTs LGBTfóbicos homicidas também, e pensar isso politicamente também é responsabilidade nossa.

Nesse caso, por exemplo, a gente ta falando justamente de um cara gay (com suspeita de HIV e ódio a latinos) que pega uma arma e entra numa boate gay atirando em uma manada de gay (latino). O que a gente ganha ignorando que ele é gay? Mais (e pode me xingar): QUE A HOMOSSEXUALIDADE DELE É ELEMENTO FUNDAMENTAL PRA ENTENDER O QUE ACONTECEU? Porque é!!!

Esse essencialismo besta, junto com a tentativa de "angelicalizar" o grupo oprimido desvia o foco, mascara o problema. Fica parecendo que LGBTfobia é um defeito de fábrica da interface "hétero-cis", um bug do app "ht", não uma parte funcional do próprio sistema operacional.

Fica parecendo que o problema da LGBT é o hétero-cis. Fica parecendo que esse é um grupo de pessoas essencialmente LGBTfóbicas, em contraposição a um outro grupo de pessoas que são essencialmente vítimas. E não são, e não somos. Não "na essência". E é bizarro termos que repetir isso pra nós mesmas taaanto tempo depois, o mesmo discurso que usávamos láááá atrás, mas ó só. Orientação e identidade de gênero falam sobre o nosso tesão, o nosso afeto e o nosso gênero, não vem nenhum caráter junto de fábrica.


Passou da hora de admitir que a nossa sociedade é discriminatória no seu funcionamento normal, e que isso significa construir todas nós para a discriminação e preconceito. Todas e todos, não só os hétero. Sim, eu sei, é verdade que essa mesma sociedade não impõe a eles as mesmas barreiras que a nós, e é óbvio que isso vai fazer com que eles tendam a se acomodar nisso e em muitos momentos se beneficiem disso, então provavelmente nem questionem isso senão por motivos extra-ordinários. Verdade. Verdade também que o oposto é verdadeiro e que a realidade da discriminação TENDE A nos fazer questionar. Mas não significa que o ódio deles não seja aprendido, não "natural", e muito importante: não significa que a gente não aprende esse ódio também.

A gente aprende. A gente aprende a se odiar e a odiar aquelas e aqueles que nos lembram por semelhança de quem a gente é. A gente aprende a nossa própria inferioridade e a ter ódio dela. Aprende repulsa ao nosso desejo ou nojo da nossa divergência de gênero. Aprende a reproduzir a discriminação, a replicá-la nos outros pra nos sentirmos menos "menos", bora lá, a gente vê isso inclusive no movimento o tempo todo... E a gente aprende que a gente é tão pária que há pouca coisa pior do que ser... a gente. Que ser a gente tem um preço alto e a real é que pra muita gente, o preço é alto demais.

Vejam, e eu nem to aqui dizendo "nhooo, tadinho do atiradooor...". Esse cara é um escroto. O que eu to dizendo é que esse escroto não nasceu um escroto. E que escrotidão não é privilégio de hétero-cis! E isso é importante, porra! É importante pra gente reconhecer que ele foi feito pela sociedade um escroto. Mais: um gay escroto. Um gay escroto o suficiente pra entrar numa boate gay atirando. E reconhecer que o ódio a LGBTs não é exclusividade de hétero-cis ou um "defeito identitário" é pressuposto pra gente entender que o problema é sistêmico, e que portanto pode ser resolvido! É pressuposto pra acreditarmos que um outro sistema sem isso é possível.

E eu não vou abrir mão disso. E acho que ninguém deveria. Sem isso, militar não faz sentido.

PS: Por favor, não esqueçam mesmo dos outros eixos que eu citei. Se esse episódio pode servir pra estimular que a gente discuta algumas coisas entre a gente, essas coisas são justamente a insuficiência das justificativas identitárias pro ódio, a XENOFOBIA E O RACISMO frequentemente expressos em relações de desejo e ódio (um desejo bem desumanizante) e o
quanto a gente ainda não conseguiu dar conta, enquanto movimento, de uma abordagem satisfatória, saudável e construtiva pro HIV.

* Amanda Palha é militante travesti da Amotrans, comunista, Estudante de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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