Pride

Após 5 anos fechada, Casa Brenda Lee volta a atender travestis e transexuais com HIV



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A Casa de Apoio Brenda Lee, que é voltada para travestis e transexuais com HIV, reabriu as portas em março de 2016 após ficar cinco anos fechada. Atualmente, ela abria 15 pessoas, informa a reportagem da Agência de Notícias da Aids.

+ Conheça a história de Brenda Lee


O espaço é reconhecido como uma ação história de enfrentamento ao vírus e ao preconceito contra pessoas positivas. Além de lembrar o nome de uma das maiores militantes travestis da história, Brenda Lee. 

A Casa conta com quatro andares, seis quartos ocupados, sala de estar, de TV, cozinha, banheiro, recepção, laje com varanda e a capacidade de atender 25 usuárias. Para ser acolhida, a pessoa positiva precisa conversar com um assistente social ligado a casas de apoio ou ser encaminhada por algum serviço de saúde, que ajudará nos cuidados.

Além do acolhimento temporário, o espaço oferece desenvolvimento profissional, orientação legal e jurídica e apoio psicológico. Dentre as 15 pessoas que estão no espaço, algumas delas integraram ao projeto Transcidadania, em que têm a oportunidade de retomar os estudos.  “Nós queremos que elas tenham autonomia, liberdade, sejam emancipadas, enfim, possam se sustentar e viver com segurança”, diz o diretor Thiago Aranha.

A ong se mantém com incentivo recebido de uma parceria entre estado e município, o aluguel de um terreno que comprou para a construção de uma nova casa e as vendas de objetos doados ao brechó.

A BRENDA LEE

Para quem não sabe, Brenda Lee (1948-1996) comprou o espaço em 1984 para transformá-lo em uma pensão, que acolhia jovens expulsas de seus lares, recebendo o nome de Palácio das Princesas. No boom da aids, enquanto muita gente expulsava pessoas positivas, sobretudo travestis, Brenda passou a acolher e a cuidar. Foi então que a pensão virou ong.



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Com o tempo, perdeu quase tudo, mas ganhou o apoio do hospital Emilio Ribas, ainda que sem remédios. Seu nome ganhou repercussão na tevê, foi parabenizada pela apresentadora Hebe Camargo, foi convidada a vários eventos com a intenção de angariar fundos.

Mas as dificuldades aumentaram, Lee cogitou se prostituir na Europa. Graças à ajuda do Governo e apoiadores individuais, conseguiu suprir as necessidades da casa. O tratamento era tão diferenciado que, na falta de leitos, oferecia sua própria cama para acomodar os doentes .

O final de Brenda foi trágico: foi assassinada a tiros no dia 28 de maio de 1996. Ela sofreu um golpe financeiro de um funcionário que era seu namorado, Gilmar Dantas Felismino, que alterou um cheque de R$150 para 2.950,00. Ao descobrir o desfalque, Brenda fez um acordo de ele devolver o dinheiro. Mas ao dar carona para o irmão de Gilmar, foi surpreendida com tiros.

O corpo foi encontrado em uma vala no meio do matagal e carro abandonado na Av. 23 de Maio.

O ESPAÇO

Com o assassinato, a família de Brenda não quis assumir o espaço, que foi comprado e virou ong.

Entre 2011 e 2015, o espaço não acolhia pessoas positivas, mas oferecia ainda cursas de maquiagem, cabeleireira e manicure. A justificativa é de que a diretora da época “não sabia lidar com o novo perfil das acolhidas”, “travestis mais jovens, usuárias de drogas, que presisam de reabilitação”, diz Thiago.

Desde 2013 começou a reestrutura para a retomada do serviço de acolhimento, revendo documentos, normas da Anvisa e atualizações. Dentre as mudanças, foi decidido o fim obrigatoriedade da quarentena, quando as pessoas positivas tinham que ficar por quarenta dias sem sair do espaço.

Apesar de a casa ter o foco em travestis e transexuais,  atualmente dois jovens gays cisgêneros foram acolhidos, uma vez que receberam alta do hospital e não teriam para onde ir.

“A Brenda dizia que tudo o que a sociedade rejeitava, ela acolhia. Se um homossexual estava com aids e todo mundo dava as costas para ele, ela ia atrás, trazia pra cá e cuidava. Buscamos trazer sempre esse exemplo para o nosso dia a dia”.


Serviço
Casa de Apoio Brenda Lee
Tel.: (11) 3112-1384
Rua Major Diogo, 779, Bela Vista, São Paulo - SP

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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