Pop e Art

Artista encena peça sobre homem trans, derrama sangue em cruz e causa polêmica no Ceará




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O artista cearense Ari Areia abordou a questão da transgeneridade na apresentação “Histórias Compartilhadas” durante o seminário sobre sexualidade e gênero na Universidade Federal do Ceará, no último mês de maio. E causou polêmica entre religiosos, que se arrasta até agora.

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Na peça, enquanto discorre um texto que fala sobre a vivência de um homem trans, ele aparece nu e derrama o próprio sangue em um crucifixo.

Motivo suficiente para que religiosos criticassem a performance, que as imagens fossem divulgadas à revelia nas redes e que a OAB-CE pedisse para que o Ministério Público investigasse o excesso do artista, que teria abusado do direito constitucional à livre manifestação de pensamento e expressão.

Nas redes sociais, Ari afirmou que está recebendo ameaças de morte. E se defendeu, dizendo que a apresentação é “um soco no estômago”, mas que “está longe de ser uma afronta a religião”. “É um grito. Fala de pessoas que, incompreendidas e não aceitas, se afogam a cada dia como se tivesse em um peso amarrado ao próprio corpo. Condenador por não serem ‘normais. São histórias de homens trans”.

Os textos utilizados foram do escritor e psiscólogo João W Nery, considerado o primeiro homem trans operado no Brasil, e a militante trans Helena Vieira.



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Sobre a cena em que mostra Cristo banhado de sangue, ele declarou que se trata de uma “maneira mais objetiva que encontramos para desejar o que queríamos dizer sobre martírio, incompreensão, injustiça silenciada”. Ele pede ainda para que as pessoas – dentre elas, os integrantes da OAB-CE - assistam ao trabalho antes de julgar, uma vez que não escarnece daqueles que a população acredita como salvador. “Assistam o trabalho, é uma experiência deslocadora”.

JEAN WYLLYS E UFC APOIAM O ARTISTA

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) manifestou apoio ao artista. “Não podemos continuar reféns da arbitrariedade de gente que não tolera outro ponto de vista que não seja o seu. As pessoas trans existem, são plenas de direito e devem ter garantida a mesma liberdade artística que todas as outras pessoas na sociedade. Aqueles que se incomodaram com o conteúdo da peça terão sempre a prerrogativa de não assisti-la. O que não podemos é aceitar silenciamentos e ameaças veladas, cuja única motivação é preconceito”.

A Universidade Federa do Ceará, que num primeiro momento não se manifestou, alegou que a polêmica se deu pois as imagens forma apresentadas nas redes sociais fora do contexto da encenação e manipulada. “Um evento simples, rico em significados academicamente validade foi transformado por alguns em ‘desrespeito’ e denunciado como ‘crime’”.

“A administração superior da UFC, ao tomar conhecimento da repercussão do fato, foi apurá-lo e, como conclusão, constatou tratar-se de um seminário acadêmico, com acesso restrito a participantes inscritos e, portanto, motivados a discutir sobre a temática proposta, sem qualquer conotação desrespeitosa e muito menos criminosa. A UFC continuará defendendo o profundo respeito às manifestações e aos símbolos religiosos dentro e fora da Universidade e jamais admitiria o contrário”, diz a nota.


Histórias Compartilhadas terá a última apresentação desta temporada na terça-feira, dia 28, às 20h, no Teatro Universitário (Av. Universidade, 2210, Benfica, Ceará). O ingresso é R$10 e a classificação é 18 anos.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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