Pop e Art

Conheça Noor, a dançarina transexual mais famosa e polêmica do Marrocos


Por Neto Lucon

Atriz, dançarina oriental e a mulher transexual mais famosa do Marrocos. Noor Talbi, de 47 anos, tem uma história de vida marcada por muitos desafios, persistência, pioneirismos e superação. E, evidentemente, muito charme, talento e arte.

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Nascida em 1970 em Casablanca, ela teve uma infância e adolescência como esportista, investido em corridas com obstáculos. Mas não demorou muito para que sua identidade feminina tornasse perceptível. E que uma charmosa dançarina surgisse na história do país.

Detalhe: O Marrocos considera a homossexualidade ilegal, passível de prisão por três anos. Mas ele tem uma tolerância maior com transexuais ou intersexuais, pois acreditar se tratar de uma má formação genética – embora não seja comparável ao tratamento das pessoas cisgêneros.

Brilhando na arte da dança oriental, Noor fez sucessos em casas noturnas, festivais, festas, casamentos e se tornou um nome de destaque entre outras artistas similiares. Por meio de sua arte, conseguiu promover a visibilidade trans, a contragosto do conservadorismo latente, e a favor da diversidade.

“Minhas coreografias são inspiradas em tudo o que é belo, não apenas na dança, mas na natureza. O movimento de um vento, um grito, uma risada, uma maneira de cair, um gesto gracioso... Tudo me inspira, pois sou muito observadora e aprendi muito em relação à aparência das coisas”, declarou a estrela para a revista Version Homme, da qual foi capa.
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CIRURGIA E TRANSFOBIA

Aos 34 anos, ela passou pela cirurgia de redesignação sexual – popularmente conhecida como mudança de sexo – mas encontrou um entrave com o tribunal marroquino. As autoridades não autorizaram que ela retificasse o nome e o gênero da documentação, obrigando-a manter um nome que não condiz com a sua real identidade.

Em 2001, estreou como atriz de cinema no filme “Um minuto de sol e menos”, do diretor Nabil Avouch, mas o longa foi censurado no país. Onze anos depois, ela fez um número dançante para a série Al Gharib, mas a TV marroquina Al Oula cortou as sequências em que ela aparecia e também tirou o nome de Noor dos créditos. Um dos maiores golpes que ela recebeu pela transfobia. 

Sem se deixar abater, deu seguimento na carreira e, entre aplausos, capas de revistas e muitas apresentações artísticas , teve momentos de glória. Dentre eles, desfile para Jean-Paul Gaultier, Thierry Mugler, Pierre Cardin e Jean-Louis Scherrer.

Em 2014, durante o Festival de Cinema de Marrakech, Noor tornou-se a sensação da noite, informou o Daily Mail. “No país muçulmano conservador, onde a homossexualidade é ilegal, uma mulher transexual não é só aceita, mas é uma celebridade. Sua capacidade de transcender a cultura fala muito do seu poder em promover a tolerância às minorias”, diz a matéria.

VIVER POSITIVAMENTE

Recentemente, a estrela foi questionada sobre a idade. Respondeu: “Para mim, tenho 65 anos (na verdade ela tem 46). Porque acho que vivi duas vezes e queimei etapas. Conversei com chefes de estado, grandes escritores e adquiri conhecimento. Acredito que roubei a maturidade e experiência. Quando me dizem que pareço ter 28 ou 29, digo a mim mesma que talvez seja a dança, o bom humor e a alegria”.

Nesta semana, ela se tornou notícia ao declarar apoio ao presidente do governo Abdelilah Benkirán, chefe do Partido Justiça e Desenvolvimento. Disse até ao portal soltana.ma que, se ele solicitasse serviços como cidadã ou artista marroquina, que irá “fazê-lo sem hesitação”.

O apoio, que até agora não foi comentado por Benkirán, causou surpresa, uma vez que Noor tem todas as atividades artísticas censuradas no meios de comunicação públicos do país. No discurso, ela afirmou que prefere “não falar profundamente sobre política ou religião”, mas da área artística, onde a sua voz é de fato ouvida.

“Eu sou muito teimosa em viver positivamente para a minha sobrevivência. Mas é que eu vejo que tudo o que venha me prejudicar com uma fase ou algo que vai mudar logo”, defende. “Sou uma mulher que sofreu uma vida em busca de tolerância”.

Assista aos vídeos de Noor: 






About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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