Pop e Art

Charlotte D’fal faz emocionante manifestação sobre dores das mães de LGBTs vítimas de preconceito



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Por Neto Lucon

A atriz L. Landim*, mais conhecida como a drag Charlotte D'fal, divulgou em seu Facebook uma manifestação em repúdio aos vários crimes LGBTfóbicos no mundo. E também ao medo que toma conta de mães e pais que têm filhos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

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Na imagem, ela aparece como uma Santa marcada por várias agressões de preconceito. E escreve um texto emocionante em que mostra um diálogo com a própria mãe sobre sofrer preconceito nesta sociedade. Qualquer referência à Maria, mãe de Jesus, não é mera coincidência.

Em conversa com o NLUCON, Charlotte afirmou que se inspirou, não somente com o massacre de Orlando, que matou pelo menos 50 pessoas em um clube LGBT, mas também nas várias mortes de LGBTs que ocorrem no Brasil diariamente.

“O caso atingiu muitas pessoas lgbt de uma forma parecida, mas a minha mensagem não foi só por Orlando, não foi pela violência, nem pelas mortes, já que para mim LGBT, é comum ver gente dos meus morrendo. Eu vejo como minha mãe se preocupa comigo, como ela cuida de mim com medo de eu não voltar pra casa na manhã do outro dia. Isso dói. Minha mãe me ligou para perguntar se eu sabia o que havia acontecido e eu me senti impotente para tranquiliza-la”, lamenta.

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Minha mãe sempre teve medo de me ver sair no frio, fazia questão de colocar o guarda-chuva na mochila. Lembro do meu primeiro dia de aula, custou pra ela soltar minha mão, pequeninha e quentinha. Ai de mim se chegasse em casa com algum machucado, era sermão pra cá, merthiolate pra lá e no final, um beijinho pra sarar.

Mãe, não foi a senhora que errou. Me ensinou tão bem a ser gente do bem. Mas eles não sabem da historinha sobre o patinho. Não sabem que você tirava a cebola da comida pra mim e que eu não gostava de tomar banho de manhã, antes da escola. Eles não me conhecem, mãe.

Eu cresci, não precisa chorar ou se preocupar com os males da vida, você cuidou de mim tão bem, me ensinou a olhar pros dois lados antes de atravessar e desejar bom dia pro porteiro. Nada de ruim vai acontecer, eu passar a noite fora, com meus amigos, lembra? Aqueles que te ensinaram a coreografia da Madonna no natal! Mãe, vai ficar tudo bem, eu volto logo, já peguei a chave e o guarda chuva.

Tá bom, mãe, eu sei! Não precisa me esperar ansiosa, sem dormir, com medo de eu não voltar. Eu vou ficar bem mãe.

E ela vai se ajoelhar e rezar para Maria, aquela que teve um filho machucado e sabe bem, que a dor que o filho sente, mãe sente em dobro.

"Santa Maria Mãe de Deus
Rogai por nós pecadores
Agora e na hora de nossa(s 50) morte(s)
Amém."



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Ao comentar a imagem da santa, Charlotte diz que se inspirou na própria mãe, que ora por ela e pede a proteção para a filha. E também em Maria, a mãe de Jesus, que sofreu por causa de um povo que sentia no direito de julgar e matar homens. “Maria viu seu filho sangrar. Maria viu seu filho morreu. E se é para falar de religião, vamos trazer ela para 2016”.

Charlotte diz que, apesar de vários crimes de preconceito ocorrerem no Brasil, muita gente só se atentou com o preconceito por se tratar de outro país. E que existe um motivo para a invisibilização de tais crimes. “Pessoas morrem, mas minha mãe não sabe porque ninguém conta. Sabe que sofrem, sabe que apanham, mas não sabe a demanda absurda disso. Porque se contarem haverá comoção da população. Isso vai dar trabalho pra galera lá do casarão. É simples, a ordem das coisas é jogar para debaixo do tapete para não ter que fazer nada”.

Por meio da arte e do ativismo, ela leva luz aos temas e auxilia no combate ao preconceito e às discriminações. Nas redes sociais, a mensagem teve mais de mil curtidas e 200 compartilhamentos no Facebook. 

DRAG-TRANS-DESCONSTRUÇÃO

Aos 20 anos, L*/Charlotte faz acompanhamento psicológico e psiquiátrico referente à transexualidade no Hospital das Clínicas. “Durante um tempo me vi como travesti, e fui vista socialmente como mulher, por corresponder a imagem. E hoje tento desconstruir a ideia dos estereótipos”.

Dentro dessa desconstrução, ela diz que também se define como drag queen, pois a arte não está ligada necessariamente a sua identidade de gênero. Afinal, “a Charlotte é só uma personagem”, explica.

Sobre sua vivência, L. afirma já ter sofrido preconceito até de pessoas que deviam protegê-la. “Pessoas trans numa maioria estão sempre mais vulneráveis a violências de por todos os lados, em todos os ambientes, por todos os tipos de pessoas. É como uma subclasse de ser humano”.

(obs * : A próxima entrevistada pediu para que o primeiro nome social tivesse apenas a primeira letra). 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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