Entrevista

Em entrevista, militante trans Lam Matos fala sobre encontro histórico com Dilma Rousseff




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Por Neto Lucon

“Nome social é direito”, reivindica  a população de travestis, mulheres transexuais e homens trans há algumas décadas. E foi no dia 28 de abril deste ano que a então presidenta Dilma Rousseff assinou o decreto que permite a essa população usar o nome social (o nome pelo qual é conhecido socialmente) em todos os órgãos públicos, autarquias e empresas estatais federais.


Um dia antes, a população trans gritou: “Dilma, cadê o nome social?”. Tudo porque a presidenta não assinou, por não constar nos documentos, o decreto durante a abertura da 12ª Conferência Nacional de Direitos Humanos. A resposta – e a assinatura – ocorreram após uma reunião com deputados e o movimento social.

Dentre os presentes estava o militante trans Lam Matos, de 33 anos. Brasiliense radicado em São Paulo, ele é referência na militância de homens trans do Brasil, tendo experiência também em outros movimentos de direitos humanos. Atualmente é coordenador nacional do IBRAT – Instituto Brasileiro de Transmasculinidades.

Mas o “Nome social é direito”, continuou sendo a reivindicação da população trans. Poucos dias depois de assinado o decreto, deputados de 10 partidos decidiram protocolar um projeto de decreto que suspende os efeitos do decreto 8727. Ou seja, lutam para que travestis, mulheres transexuais e homens trans sejam chamados(as) pelo nome de registro, perpetuando constrangimentos, exclusões e a transfobia.

Em entrevista exclusiva ao NLUCON, Lam fala sobre o encontro com a então presidenta Dilma e a reação de políticos conservadores e religiosos fundamentalistas. Para Lam, tais políticos tratam a população trans como escória e pessoas que não deveriam sequer existir. Só esquecem que esta população está preparada para resistir e reivindicar não só o direito ao nome social, mas a PL 5002/2013 – João Nery, que permite dentre outros direitos a facilitação de retificação de nome e gênero dos documentos.

Leia:

- Após a conquista do decreto do nome social, deputados conservadores de 10 partidos se prontificaram a protocolar um projeto de decreto que suspende essa conquista da população trans. A militância de homens trans já esperava essa reação conservadora?

Ficamos triste, mas já esperava, sim. Fiquei até surpreso pela demora. O decreto em si não é a solução para tudo, não é a lei de identidade de gênero, mas é um paliativo – até porque alguns estados não tinham nenhum decreto sobre nome social - e um marco para a população de travestis, mulheres transexuais e homens trans. Um marco porque o evento em si foi importante. A gente entende que a bancada fundamentalista tem uma força e que ela não consegue reconhecer a importância, não só do nome social, mas de qualquer projeto que visa dar direito e dignidade para as pessoas travestis e transexuais. Eu entendo isso como um desrespeito a uma especificidade do ser humano. Afinal, cada ser humano tem uma necessidade e uma especificidade diferente. Mas a gente é tratado como escória, como seres que não deveriam nem existir. E eles querem manter isso.



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- Vocês pretendem mostrar algum tipo de reação contra a ameaça ao nome social?


Tenho medo do cenário político hoje (após o impeachment e a presidência de Michel Temer). Mas isso não significa que o movimento vá abaixar a cabeça. A ideia é que a gente se manifeste antes que a suspensão se efetive. A Câmara vai colocar para a apreciação da plenária. E a gente vai recorrer para que, de alguma forma, o decreto se mantenha.

Por outro lado, eu tenho achado interessante o que vem ocorrendo no Brasil, mesmo diante dessa crise. Em Pernambuco, por exemplo, a polícia mudou o edital aceitando que transexuais e travestis se alistem. A OAB aceitou o nome social de advogados e advogadas travestis e transexuais. O ENEM mantém o nome social, apesar de todo o tramite necessário. Primeiro você precisa fazer a inscrição e só depois pedir o nome social, sendo que eles já poderiam pedir junto com a inscrição.


- Toda vez que falamos sobre nome social, existe todo um auê e uma preocupação descabida em relação à falsidade ideológica. Por que é tão difícil compreender a importância da retificação do nome de pessoas trans nos documentos?

Realmente a primeira coisa que falam sobre nome social ou a lei de identidade de gênero é que, se qualquer pessoa puder mudar o nome, podemos facilitar a falsidade ideológica. Mas eles falam “qualquer pessoa” e não entendem que a nossa necessidade é uma especificidade. A transexualidade e a travestilidade é um assunto muito mais sério do que as pessoas pensam. Não é como você, Neto, ir lá no cartório e dizer: “Quero me chamar Joana, muda tudo”. Não é assim, não é "qualquer pessoa". Mas a sociedade em geral se fecha nessa preocupação, que acaba voltando para ela mesma.

Por exemplo, eles não querem falar sobre gênero nas escolas, porque o movimento de travestis e transexuais trouxe à tona os debates sobre gênero. Só que a sociedade não entende que falar sobre gênero e sobre as identidades de gênero não é só sobre falar sobre o ‘direito de uma travesti usar o banheiro feminino’ ou de ser 'chamada pelo nome social pelo professor'. Não, a gente fala sobre papeis masculinos e femininos, do machismo, da violência que as mulheres sofrem, falam sobre todo mundo.

- Você não acha que a maneira como o decreto foi assinado, careceu de uma discussão ampla para mostrar a sua importância? A presidenta Dilma não sabia sequer do que se tratava um dia antes de assinar...

Não é que não houve o debate... O fato de a presidente não saber sobre o nome social, é que ela não sabia para que servia o decreto. Ela achava que o decreto era para que qualquer pessoa tivesse dois nomes no seu documento. Ela não sabia da importância e como se dava o uso do nome social para as travestis e transexuais. Muita gente falou: ‘Como a presidente da república não sabia disso?’. Mas ela não tem obrigação de saber tudo, ninguém sabe tudo, cada um sabe aquilo que diz respeito a si mesmo. E ela tem um Brasil inteiro de coisas para entender. Pode parecer que foi muito rápido? Pode. O decreto bateu na mão dela no dia da abertura da Conferência de Direitos Humanos e ela não sabia o que era. Mas esse assunto do nome não é uma coisa que está agora. Fora isso, a primeira coisa que ela disse quando chegou em nossa reunião foi: “Eu vou explicar por qual motivo não assinei. Porque não assino nada que eu não leia e que eu não saiba”.




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- Mas vocês chegaram a se manifestar quando ela não assinou o decreto um dia antes, certo?

Quando a gente soube que ela poderia não assinar naquele dia, eu me reuni com os meninos rapidamente. A gente queria fazer algo pelo decreto, mas ao mesmo tempo não queria fazer algo com raiva. Sabíamos que o momento era delicado, que eles queriam tirar ela do poder e que havia várias pessoas pró-Bolsonaro e pró-impeachment. O Kaio Lemos falou: “A gente precisa indagar a presidente, vamos perguntar: ‘Dilma, cadê o nome social?’. A gente conseguiu se aproximar do palco e, assim que ela deu uma pausa, a gente puxou o coro: “Dilma, cadê o nome social?”. Ela parou o discurso, virou para a gente e disse: “Olha, a gente vai conversar sobre isso, porque com o nosso governo tem diálogo, com eles não”. Foi quando ocorreu a reunião no dia seguinte.

- Como foi o contato com a presidenta?

Foi incrível. Não porque “ah, é a Dilma” e também porque “ah, é a Dilma”. Poxa, primeira mulher eleita na história do país... Mas foi emocionante porque se trata de espaços em que a gente, que é trans, pensa que é inacessível. Todo o processo até eu chegar lá não foi simples. Tem todo um protocolo, porque você está falando da autoridade máxima de um país, e eles já tinha número fechado, vindo lá na presidência da república de que seriam seis pessoas: o deputado Jean Wyllysn, a deputada Erika Kokay, a sociedade civil... E o meu não estava. A minha ida começou de um incentivo do Léo Barbosa no quarto e com a articulação de várias pessoas, como a Fernanda de Moraes, Symmy Larrat, Keyla Simpson. Todo mundo ligando e eu só fui saber no último segundo tempo.

- Explica para os leitores por qual motivo é importante que cada identidade da letra T esteja representada em espaços que visam discutir tais demandas? Chamar só uma travesti representando já não está de bom tamanho?

Travestis, mulheres transexuais e homens trans caminham juntos, mas chega uma hora que se separa e mostra as suas especificidades. É por isso que a gente briga para que falem: “A letra T é representada pelas mulheres transexuais, as travestis e os homens trans”. A identidade de homens trans ou transmasculinos não sofre, por exemplo, a mesma violência que elas sofrem. E a gente também está trilhando o nosso caminho, lutando para o reconhecimento do movimento de homens trans como legitimo e bem articulado. Foi incrível a Conferência porque foi a maior presença de homens trans na história. Na primeira havia quatro. Na segunda, seis. E na terceira eram quarenta.

- Bom, agora me conta como foi a reunião com a Dilma?

Fomos avisados que seria tudo muito organizadinho, sem exceder falas, sem levar celular... Quando a gente começou a falar, ela foi se interessando e deixando a conversa fluir, com menos protocolo e com menos formalidade. Ela parava, perguntava...

- O que ela perguntou, por exemplo?

Uma coisa que marcou foi ela ter ficado chocada quando ficou sabendo que o processo para a gente retificar o nome não é um processo administrativo. Ela achava: “bom, eu assino esse decreto, você chega no cartório e muda o nome?”. A gente: “Não, presidente, não é tão simples assim. A gente precisa entrar com um processo jurídico, ir de quatro meses a dois anos para mudar o nome”. Ela ficava: “Como não é administrativo? O que falta para ser? ”. O Jean e a Erika Kokay explicou sobre o projeto 5002/2013, a Lei de Identidade de Gênero... Pela expressão que ela fazia, ela estava bem chocada por saber dessa dificuldade.




- O que você disse na sua fala?

Simplifiquei a importância do nome. Não do nome social, mas do nosso nome. Eu peguei o papel com a identificação que estava na mesa, escrita “Sr Lam Matos” e disse: “Presidente, quando eu chego e me apresento em qualquer lugar, as pessoas vão olhar e dizer ‘pois não, senhor’. Porque eu sou um homem trans, com tem três anos de hormonioterapia, eu deixo a barba grande. Daí ela abriu a boca e ficou sem acreditar (risos). Ela falou alguma coisa paro deputado ao lado. Ele deu uma risadinha e confirmou algo para ela. Ela deve ter perguntado: “era mulher? É transexual”.

E eu continuei: “Mas quando eu apresento o documento, daí as pessoas falam o meu nome de registro, me tratam como senhora”. E ela ficou mais passada. Eu também falei que para entrar no Palácio do Planalto, eu pensei que iria precisar apresentar documento, CPF, certidão de nascimento, o nome do pai, da mãe, um raio-X. Mas foi muito mais simples do que eu imaginava, porque quando eu cheguei na recepção e fui tirando o documento, a moça perguntou: “Qual é o nome do senhor?”. Lam Mattos, olhou na lista e já me deu o papel da identificação. Poxa, foi simples! E quando eu chego nessa sala, vejo esse papel escrito aqui, senhor Lam Mattos, é isso que conforta a gente, pois é isso aqui que é reconhecimento. Todos nós aplaudimos o cerimonial.

- O que ela comentou depois de tudo o que escutou?

Ela disse no final: “Eu entendi. A gente passa a vida toda construindo as nossas identidades, construindo os nossos corpos, as nossas leituras. Só que para a gente é muito fácil, a gente não precisa de muito esforço, mas para vocês é muito mais complicado, mais difícil e doloroso. Eu entendo isso. Me dá logo esse decreto que eu vou assinar”. Isso foi lindo. Ela entendeu e a gente não precisou falar. Ela sabia também que o decreto não resolvia, mas que ajudava. Ela foi de uma humanidade e de uma gentileza que eu não saberia descrever.

- Se a presidente conseguiu entender o que vocês precisavam em uma conversa, o que faltou para que esse e outros decretos e ações fossem assinados há mais tempo?

Acho que faltou oportunidade mesmo e porque acho que o momento teve que ser aquele. Talvez se a gente tivesse tentado o diálogo com ela antes, talvez não tivesse conseguido. Dentro da Conferência, com quase 7 mil presentes, tudo aconteceu porque os homens trans chamaram atenção neste momento. Não desmerecendo, até porque sempre foram as travestis ou as mulheres transexuais que saíram na frente e que abriram o caminho para que a gente seguisse com o mesmo vigor e engajamento.

- Quais são as principais bandeiras do IBRAT hoje?

As bandeiras continuam as mesmas. A gente ainda não conseguiu o que está querendo: nome social, atendimento integral na saúde, trabalho, educação... Mas agora, devido à atual conjuntura política, é preciso pensar também nessas questões. De repente, o ideal seja se juntar ao movimento LGBT na expectativa de espaços para ocupar, seja na área da saúde, da educação... Vamos aumentar o número de ocupações. Mas o Ibrat continua firme e terá mais um núcleo em São Luís do Maranhão. Estamos procurando fortalecer as regiões.

- Embora Jean Wyllys seja o deputado que, ao lado da Erika Kokay, é responsável pela PL 5002/2013 – João Nery, a Lei de Identidade de Gênero – algumas pessoas trans falam que Jean não dialoga com o movimento. O que você pensa sobre isso?

Talvez não haja tanta proximidade pela dificuldade de agenda. Mas não acho que quando ele vá falar sobre negros, indígenas, de lésbicas, ele faça isso sem nenhum conhecimento do movimento social. Falhas podem ocorrem, nada nunca vai estar de acordo com todo mundo. Mas acho que ele tenta fazer a coisa da melhor possível. Ele tem uma assessoria muito completa: com lésbica, transexual, gay..., e eles assessores dialogam. Eu tenho diálogo, o movimento de homens trans hoje consegue estabelecer um diálogo, não como a gente gostaria, mas a gente tem uma conversa com ele.

Tem gente que fala que ele é um aproveitador de minorias, eu não gosto disso. Eu acho que ele entende a necessidade de políticas públicas de todas as pessoas que tem privação de direitos. E ele tenta levar essa pauta lá pra dentro, muitas vezes sozinho. Mas o ser humano é muito ruim. O cara tá lá se f**** sozinho para defender uma população imensa e as pessoas não conseguem reconhecer o trabalho ele que faz. Ele é um dos pouquíssimos que está fazendo alguma coisa. E considero trabalho dele muito importante lá dentro.






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- Como se dá o contato do Jean com o movimento de homens trans?

Na Conferência, encontrei o Jean e disse que eu e mais 40 homens trans queríamos conversar um pouco. Ele respondeu: “Vou estar na UNB até às 19h, dá um jeito de levar os meninos para lá. Não tinha carro, foi aquela confusão, até que deu certo. A gente chegou, o Jean já estava falando com os alunos e, quando acabou, foi aquela confusão. Os meninos ficaram preocupados e eu disse: “Eu falei que a gente vai conseguir, nem que seja para tirar uma foto”. Daí eu cheguei ao lado dele e ele falou: “Você veio! Cadê os rapazes?”. E ele pediu para todo mundo se afastar, pois iria tirar foto com os homens trans. Nossa, isso deu mais um gás para a gente. Não deu tempo de conversar, pois estava todo mundo elogiando a cusparada, mas a gente conseguiu tirar a foto. E foi legal. Porque às vezes a gente até tem acesso a essas pessoas, mas os meninos em geral acham importante esse contato: “nossa, ele me viu, a gente consegue chegar lá”.


- Bom, há alguns anos era praticamente impossível convencer um homem trans a dar uma entrevista. Hoje já temos vários meninos aceitando se mostrar. O que você acha que tem motivado essa busca por visibilidade?

Acho que eles estão se mostrando mais porque alguma porcentagem dessa sociedade os enxergam como homens e cidadãos. Acho que é um pouco do reconhecimento. Quando os rapazes não têm vergonha de serem homens trans, eles entendem a importância da resistência. E entendem a importância que é não se esconder. Mexe um pouco com a autoestima. Eu já tive esse pensamento de que jamais iria abrir a boca para falar que sou homem trans porque vão querer me bater. E muito pelo contrário. Eu acho lindo os rapazes brigando e batendo o pé: “me respeita, eu sou homem”. Pois mostra que todo trabalho valeu a pena. Pois mostra que eles entenderam que, quando se mostram, outro rapaz vai escutar e vai se encorajar a se mostrar e a dizer: “Eu sou homem trans, sou cidadão e também mereço respeito”. Esse levante dos homens trans na sociedade é mérito deles mesmos”.

- A exemplo de tantos homens trans, a sua viagem também foi solitária?

Foi. Descobri que era homem trans quando tinha 21 – hoje tenho 33. Eu estava num grupo LGBT de Brasília e o assunto da noite foi transexualidade. Aí eu conheci uma mulher transexual e um homem trans. Aliás, acho que esse homem trans foi um anjo, porque ele apareceu naquele dia e eu nunca mais o vi. Naquele dia, estava eu e o Lukas Berredo, que também é homem trans. A gente ficou embasbacado, porque ele ia contando as histórias e a gente via que era tudo o que sentia na época. Esse amigo já saiu da palestra e tratou de ir atrás de começar o tratamento. Eu acompanhava tudo pela internet e ficava desesperado, por estar dentro de uma família evangélica, muito simples e sem internet. Daí chegaram em mim e falaram: A única coisa que eu sei que pode te deixar com cara de homem é tomar anabolizante. E eu tomei.

- Anabolizante? 

Tomei três aplicações e, de 60 quilos, fui para 83 quilos. Daí sentia muita dor no joelho, não estava na academia. Aí um dia, na casa da minha vó, acordei passando mal. A sensação que eu tinha é como se a minha boca estivesse torta, como se os meus dentes estivessem fora de lugar. E eu senti uma dormência muito forte, apaguei. Fui procurar um médico e falei que era transexual, mas ele disse que não sabia nem o que era isso. E pior, disse que eu tinha duas opções: “ou continuar com essa coisa de virar homem, mas tendo problema cardíaco, de pressão, de colesterol, a expectativa de vida vai diminuir. Ou você aceita que nasceu assim e vai viver saudável”. Nossa, me deu c*****. Pensei: ou eu vivo mais um pouco ou eu vivo menos. Eu quero viver mais e desisti.

- E como foi desistir de ser quem você era?

Fiquei muito mal. Continuei no movimento de lésbicas, mas tenho certeza que nesse período tive depressão, crise de ansiedade e um monte de coisas. Eu ria, brincava, mas tudo me incomodava. Até as falas que eu tinha que fazer: “Eu sou lésbica”, isso saía da minha boca de uma maneira muito esquisita. Aí teve toda uma onda de usar o temo “sapatão” para tirar o pejorativo. E eu adorava porque era “o” sapatão para mim. Lembro que ficava em um dos grupos do Orkut Ladies e Bofes, Ladies e Bofinhos... Eu ficava vendo as meninas, uma mais masculina que a outra e pensava: “um dia vou chegar lá”. Até chegou um tempo em que eu achava que não tinha nem que ser lésbica, porque minha família é evangélica.



- Nossa, tentou entrar na norma, mulher cis hétero...

Pois é. Mas acabei tendo problemas com um pastor da igreja, porque eu andava de skate, eu tocava bateria, eu andava largado e descabelado. E ele dizia: a sua autoestima está baixa, você tem que encontrar a sua feminilidade. Eu falava: Eu sou a mesma coisa aqui dentro que eu sou lá fora, mas aqui dentro tá cheio de gente que paga de santa e santo, mas faz várias coisas às escondidas lá fora. Até que um dia eu cansei de tudo, saí de casa...

- Mesmo dentro de uma família evangélica, você chegou a conversar com os seus pais?

Cheguei. Conversei com a minha mãe, com o meu pai depois... Ela ficou chorosa, família evangélica, né? O meu pai foi o que entendeu mais rápido. Ele via as transformações acontecendo, já foi me chamando de filho, fazendo piada, brincando comigo. Ela dizia que ia continuar me amando, que ia se adaptar, mas eu não via esforço para isso. Um dia depois de uma conversa bem pesada eu disse: “Vamos fazer o seguinte, não vamos mais tocar nesse assunto, porque a senhora vai ficar chateada, eu vou ficar chateado, a gente não vai chegar em um consenso, vamos parar por aqui”. Tenho uma conversa quase nenhuma. E isso é ruim, poderia ser diferente. A minha vó, por exemplo, falou que quando eu nasci, eu era perfeito. Mas eu sou perfeito, não tenho nenhuma anormalidade no meu corpo.

- As famílias podem deixar muitas dores, né? Tem algo de positivo que consegue encontrar?

Quando eu fui falar para o meu pai que estava tomando hormônio, ele disse: “Não preciso saber o que você está fazendo, só quero que você me responda uma coisa. Você está feliz e bem?”. Eu falei que estava. E ele falou que era só isso que ele precisava saber, porque já sabia que eu estava muito bem casado, que tenho o meu negócio, que estava tocando a minha vida pra frente, e que era só isso que importava.

- Observo que algumas travestis e mulheres transexuais sempre gostavam na infância de desenhos que remetiam a transformação, como Pequena Sereia, Pinocchio. Você teve algum desenho que gostava e que faz essa alusão?

Sempre gostei de assistir Tutubarão. Ele era um tubarão que andava no meio das pessoas e que tocava bateria (risos). Ele não era gente, nem homem, era um tubarão que falava, acho que era essa a minha identificação. Talvez eu me sentisse tão diferente das outras pessoas que eu quisesse ser o Tutubarão. No Scooby Doo eu queria ser o Scooby. Em Jonny Quet, eu adorava o cachorrinho bandit. Eu ganhava o discro da Xuxa, mas queria ser o Dengue... . Eu nunca queria ser o ser humano da história, queria ser o bicho que falava. Depois vieram os seriados japoneses, Jaspion, Power Ranger...

- Hoje você é casado. Como se deu a sua história de amor?

Tudo aconteceu num bar em que eu trabalhava, ela (Daniele Façanha) apareceu pediu um chopp e eu dei um quente (risos). Na outra semana, ela voltou com toda a equipe dela, pois trabalhava como produtora de teatro, e ficou no bar. Ela veio e fez o convite, depois um ingresso para ir ao teatro e jogou verde: “Não quer ver o espetáculo? Tem alguém para ir com você?”. Eu falei que saía do trabalho só às duas horas da manhã, e em Brasília, não tem nada mais aberto. Ela soltou: “Eu compro o vinho e a gente descobre o que fazer”.





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- Em algum momento, chegou a falar sobre a transexualidade?


Na verdade, ela me conheceu antes da hormonioterapia. E eu falei: “devagar, porque não é da maneira como você está pensando que é”. Na primeira vez que a gente saiu junto, a gente pegou um computador, e eu fui mostrando o que era a transexualidade. As minhas referências na época eram Buck Angel e o Loren Cameron. Depois de explicar, ela continuou se interessando por mim. E, enfim, estamos seis anos casados e juntos. E a amo demais! Somos dois apaixonados.


- Lam, para finalizar, qual é a mensagem que você daria para os meninos trans?

Não desistam Esse pedido para sustarem o decreto é só mais um fato, que é triste, mas que não é motivo para abaixar a cabeça. A gente resistiu até agora e a gente vai continuar resistindo. Cada vez que isso acontece serve par a agente criar mais força. E isso não vai atrapalhar o movimento. Vamos continuar com a força, com o vigor, com o empoderamento para enfrentar as adversidade. A gente ainda vai olhar para trás e saber que tudo valeu a pena.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Dio Ferreira disse...

Só uma correção: o nome do Kaio Lemos é com "K". O Caio com "C"é o Caio José, a gente diferencia eles assim pra não dar confusão (ambos são coordenadores da Acetrans e do Ibrat-CE).
Parabéns pela matéria!

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