Pride

"Família também oprime" - por militante travesti Ana Flor



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Por Ana Flor*
Foto: Mariana Rodrigues

Eu sempre tive que ouvir, inúmeras vezes, que não existiu violência. Mesmo que, naquele momento, eu tivesse sido atingida por um soco do meu irmão. Lembro sempre quando passei na universidade e terminei ouvindo de uma tia que, com toda certeza, eu não conseguiria me formar. Assim também aconteceu com meu tio, onde ousou me deslegitimar em público. Família, né?

Nós somos construídas enquanto sujeitos que precisam relativizar toda e qualquer violência acontecida e cometida no âmbito familiar. Acredito que assim como eu, você também tem um tio racista. Uma avó lesbofóbica. Um irmão machista. Porém, por ser família, não se discute. Desde pequena sempre escutei aqui, na minha casa, que gosto não se discute. Inclusive, sempre reproduzia essa frase. Afinal era uma das que mais escutava. Até que eu pude aprender que o gostar é construção social. Logo, fui então pontuando que as coisas podiam ser diferentes. Que gostar de algo ou não pode e deve ser questionável.

Foi dentro da minha casa que eu levei minha primeira tapa no rosto. Vejam: se família é sinônimo de proteção, por que eu acabara de levar esse tapa?

Tornou-se possível, mais do que nunca, perceber que família é um dos mecanismos de opressão quando você é LGBT. Principalmente quando se é negra e pobre. Existe uma relação de poder constante nesse grupo. Onde você pode até ser muito, desde que o dinheiro que você tenha consiga suprir o espaço que você ocupa.

Segundo o Wikipédia, "família é a unidade básica da sociedade, formada por indivíduos com ancestrais em comum e/ou ligados por laços afetivos."

Sabendo disso, eu nos pergunto: quanto custa esse afeto? Acredito que estamos mais do que na hora de questionarmos até onde somos amadas, e até onde somos violentadas. Admitir que somos ensinadas a amar pessoas que nos oprimem é um dos primeiros passos. Eu pude aprender, lendo Bell Hooks, uma grande e incrível feminista negra, que o amor cura. Se dói, se machuca, não é amor. É essa ótica que aqui, nesse texto, tento colocar em pauta.

Acredito que quando falamos em famílias, falamos também em modelos. Algumas que dialogam e conseguem viver bem. 
Outras onde Paulo Freire jamais se discute e destruir o sujeito é um dever fundamental. Admitir que existe violência não é só necessário como preciso. Família não é apenas amor. É uma ferramenta de um estado machista, racista e LGBTfóbico usada como meio de destruição de todo aquele que tentar fugir da norma imposta pelo mesmo.

Se LGBTs estão sendo violentadas e colocadas para fora de suas casas é porque existe um problema. histórico e social. Onde parece ser muito mais confortável expulsar qualquer uma de nós do que reconhecer que é um opressor e tentar destruir essa construção. Ou, quem sabe, respeitar o espaço do outro. Possibilitando que os mesmos não se gostem, mas que se respeitem.

Nós não vivemos um conto de fadas tipo família margarina. Nós vivemos uma reprodução de cultura onde oprimir, muitas vezes, pode não parecer ser o que é. E, de verdade, isso precisa parar. Hoje. Agora. Amanhã. Ou família, como eu já tenho dito, vai ser uma ferramenta de extermínio direto da população LGBT. Ouso dizer que isso já está acontecendo. Reflitam sobre suas vidas. Sobre esse espaço que nós ocupamos. 


Leiam essa matéria para vocês mesmos. Ou para suas famílias, se é que vocês ainda têm uma.

*Ana Flor é militante travesti, ativista dos direitos humanos, estudante de pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco. Por meio de seus textos divulgados nas redes sociais, sensibiliza, enegrece e toca os seguidores sobre questões envolvendo a travestilidade, transexualidade, racismo e outras questões. É o primeiro texto divulgado com exclusividade no NLUCON. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Vendetta Finch disse...

Sem palavras... realmente o termo família é amor está entrando em contradição nos últimos anos, um exemplo disso é onde moro, se trabalho todos me amam... se sstou desempregado ameaçam me expulsar

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