Pride

Militantes LGBT protestam contra comemoração de vereador aos 2 anos da retirada de gênero no PME



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Por Neto Lucon
(foto: fanpage professora Luiza Coppieters)

A Câmara Municipal de São Paulo foi palco na quinta-feira (23) de uma manifestação de militantes LGBT contra uma homenagem considerada preconceituosa do vereador Ricardo Nunes (PMDB). Ele comemorava os dois anos da retirada a palavra “gênero” do Plano Municipal de Educação.


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Para a cerimônia, Nunes convidou o professor Felipe Nery e o padre José Eduardo de Oliveira e Silva para serem homenageados pelo “excelente trabalho que desenvolveram junto ao Plano Nacional e Municipal da Educação, valorizando a família contra a ideologia de gênero”.

Considerando essa homenagem uma afronta e um retrocesso aos direitos humanos, um grupo de 20 pessoas tentaram entrar no Salão Nobre da Câmara de São Paulo, mas foi impedido. A professora de filosofia Luiza Coppieters, que é integrante do Conselho Municipal LGBT, foi uma das que conseguiram adentrar no espaço e deixou o seu recado.

“Agradeci ironicamente por ele respeitar pessoas como eu e por ele lutar contra a transfobia. Neste momento, as pessoas começaram a gritar ‘Gênero não, família sim’. Eu peguei alguns cartazes e comecei a fazer uma missa: ‘Ó ovelhas do senhor, deveis amar e não odiar. Por que não respeitam o próximo?’; E eles começaram a rezar Ave Maria. Eu disse: Vocês ainda estão me ouvindo, vocês vão para o inferno”, declarou.

Policiais militares, guardas civis metropolitanos e assessores do vereador tentaram expulsar Luiza e outras manifestantes, bem como a funcionária pública Sâmia Bonfim, do movimento Juntas. A confusão e outras agressões se estendeu fora da sala, onde estavam parte das pessoas impedidas de entrar. Os policiais são acusados de utilizarem gás de pimenta para tentar dispersar os manifestantes.





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Luiza conta que chegou dar um beijo no rosto do padre. “Foi mais um gesto de amor. É para mostrar um gesto cristão para eles, que é o de amar o próximo e de se colocar no lugar do outro. Se o padre pode usar vestido, por que eu não posso?”, questionou.

UMA AFRONTA

A professora afirma ao NLUCON que considera a comemoração de dois anos sem a discussão de gênero nas escolas um sinal de que a política está sendo privatizada e que setores, como a igreja, estão se apropriando do espaço público e marcando o discurso de preconceito.

“Comemorar uma vitória que é considerada um desrespeito a todas as mulheres, sobretudo as LGB, é uma afronta. Fora que esse tipo de família que eles promovem, com discursos de culpa, de regras e de preconceito, é muito perverso. Eles só esquecem que a gente também tem família e que só trabalhar, ter dignidade”, conta.

Em entrevista à Ponte, o pesquisador Lucas Bulgarelli declara que a homenagem busca legalizar a violência de gênero. “A gente vê adolescente ser estuprada por 33 homens e ainda têm políticos comemorando retrocessos no que diz respeito à educação de gênero”.

A professora afirma que preocupação dos políticos fundamentalistas em “proteger” a família e, para isso, atacar a população trans é desonesta. “Basta ver quantas travestis cometeram violência contra as mulheres e quantos pastores foram presos por cometerem essa violência”, aponta. “Esse tipo de pensamento só gera mais violência e repressão para eles mesmos. Uma ex-aluna estava lá e ver que ela virou a cara para mim é muito triste”.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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