Pride

Mulher transexual relata dramas, dores e reflexões que viveu na “cultura do estupro”




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Por Astrid* 
(foi utilizado pseudônimo a pedido da própria autora)

Este relato é sobre machismo, opressão, tortura psicológica. Resolvi escrevê-lo após o caso da garota estuprada por 33 homens. O caso mexeu muito comigo, meu psicológico, meu emocional. Refleti muito e decidi fazer este relato.

Sou uma mulher transexual. Podem me chamar de Astrid. Sou filha de criação. Minha mãe verdadeira (de criação e coração) me pegou quando eu tinha 6 meses de idade. Aos meus 3 anos, ela conheceu um rapaz, que desde o início decidiu competir com uma criança que nem conhecia e prejudicá-la ao máximo.

Aos 7 anos, ele me levou na casa dele com minha mãe em um final de semana (não morava com minha mãe, mas sim com meus avós). Eu achava que iríamos ver algum filme de comédia, ação... E eis minha surpresa quando ele põe o filme para rodar e eu vejo que era um filme pornô. O choque foi imenso. Eu nem sabia direito o que era sexo. E o trailer era bem explícito. Assisti ao filme muda, atônita, com ele falando que eu tinha de deixar de ser “viadinho”, “menininha” e que o filme era para me ensinar a me tornar um “homem de verdade”.

Também disse que quando eu fizesse 11 ou 12 anos me levaria ao prostíbulo para eu “perder o cabaço e virar homem”. Não bastava todas essas surpresas, ele disse que traía minha mãe, e começou a contar com quem, como eram as mulheres, como eles transavam e também a contar em detalhes como ele transava com minha mãe. Quando o filme acabou ele me disse que se eu contasse para minha mãe ela não acreditaria, acharia que era ciúmes de uma criança querendo separar ela do marido ou querendo a mãe só para si.


Pensei em contar, mas entre os meus 3 e 7 anos ele já tinha minado de todas as maneiras possíveis minha relação com ela. Envenenando, fazendo intrigas, pondo eu contra ela e ela contra mim. Eu sabia que se contasse ela acharia que era só história de criança ciumenta. Ele também disse que ela iria me devolver para minha mãe biológica ou para um orfanato. Eu morria de medo de ser devolvida, precisa ser o filho “perfeito”.

Ele passou a fazer essas sessões de filmes todos os finais de semana enquanto minha mãe trabalhava. Ele dizia que iria me levar ao Thermas, mas antes passávamos na casa deles e eu assistia o tutorial de como ser “macho”. Também ouvia cada vez mais detalhes de como ele traía minha mãe, com quem, onde e como ele transava com as amantes e com minha própria mãe. Isto se repetiu até meus doze anos.

Voltando um pouco no tempo, eu visitava minha mãe biológica e meus irmãos. Minha mãe de verdade nunca escondeu que era “filho adotivo” e não quis romper meus laços com eles. 

Aos 6 anos eu ainda tomava banho com meus irmãos e um dia aconteceu algo, uma “brincadeira” entre nós. Tinha de ser segredo e segredo com um irmão que era um dos meus heróis era algo que eu não poderia contar. 
A “brincadeira secreta” misturava fantasia e realidade. Na época passava a novela “Vamp” e ele era o vampiro mal que dominava e hipnotizava a Natasha. Era uma brincadeira estranha, diferente, que doía, mas que era “nosso segredo”.

Isto se repetiu até meus 7 anos, quando assistindo ao filme pornô com o marido da minha mãe eu descobri que minha brincadeira com meu irmão não era uma simples brincadeira, mas sim sexo. O choque quando ele ligou o filme foi pela descoberta do sexo e descoberta que meu irmão fazia sexo comigo.

O CONFRONTO E AS CHANTAGENS


Confrontei meu irmão, disse que iria contar. Mas ele me disse que ninguém acreditaria em mim, que eu era meio “menininha”, “mulherzinha” e que, portanto, eu provoquei ele, eu instiguei e o seduzi. Também me disse que minha mãe de criação me devolveria para minha mãe biológica, que também me devolveria para o orfanato ou para as ruas. Chantagem e manipulação psicológica de ambos os lados. Assim como o marido da minha mãe de criação ele passou a me chantagear, com meu medo de ser devolvida nem sabia mais para quem, e realmente começamos a fazer sexo. Não mais como uma brincadeira infantil, mas sexo de adultos.

Ele era bruto, violento. E essa chantagem funcionou comigo até meus 10 anos. O pavor de não ter mais família me devastava. Até que minha mãe biológica se mudou de cidade. Fiquei muito feliz, não teria que visitar mais eles. Mas minha mãe de criação não quis romper os laços e me mandava para a casa deles na outra cidade nos feriados e férias. Eu não conseguia explicar o porquê não queria ir. Sentia-me acuada.

Minha mãe biológica era instável emocionalmente e chamava meu irmão de: “parasita”, “maloqueiro”, “bandidinho”, “preto encardido”. Como ele era o mais parecido fisicamente com nosso pai biológico, que a fez muito mal (violência doméstica), ela descontava a raiva dele projetando no meu irmão.

Ele se enchia de raiva, ódio e ela tratava meu irmão mais velho, bem mais claro e de faces rosadas como “o bom filho”. A mim ela me chamava de: “parasita”, “impiastro”, “coisa esquisita”, “aberração”, “Anticristo”. Meus irmãos se odiavam e brigavam muito. Não apenas brigas verbais. Eles brigavam fisicamente: porrada, socos, chutes.





Aos 11 anos, minha família biológica estava na outra cidade, eu passei a visitá-los e confrontei o meu irmão que não me importava de ser devolvida, “aquilo” deveria parar. E ele mudou a chantagem. Ele estava muito revoltado com o modo que minha mãe biológica o tratava. Andava com más companhias. Algumas barra pesada. E passou a me chantagear que se eu não fizesse exatamente o que ele queria do jeito que ele queria ele iria descontar na minha mãe biológica, irmão e padrasto. Passou a dizer que os mataria.

E uma noite me levou até a casa da minha mãe e padrasto. Ela tinha uma casa dela e outra com o quarto deles. Uma casa anexa. Ele foi até a casa que minha mãe e padrasto dormiam. Abriu a cozinha (ele tinha feito uma cópia da chave) e foi até o quarto deles. Ele era tão silencioso como os felinos, pés macios. Abriu a porta do quarto e aproximou uma faca do pescoço da minha mãe biológica. Ela e meu padrasto continuaram dormindo profundamente. Voltando à casa anexa eu cedi à chantagem dele.

Minha mãe biológica sempre dizia que eu não gostava dela, porque escolhi ficar com a de criação. Como se uma criança de 4 anos pudesse decidir algo tão complexo.

SEXO E AGRESSÕES


Mas apesar dela achar que eu não a amava, eu amava, e passei a ceder às chantagens novamente. Ele passou a ficar mais violento, inclusive sexualmente. Batia-me, dava socos nos meus rins, fígado, me chutava, penetrava-me com uma faca na minha garganta ou uma arma na minha cabeça. Sufocava-me até eu quase perder a consciência. Ele passou também a “brincar” com a faca e arma no meu irmão, enquanto ele dormia. Quantas vezes eu cedi às vontades dele para ele não matar meu irmão enquanto ele dormia.

Meu irmão tinha o sono pesado. Dormia ouvindo um discman. O outro irmão, “dormia” pondo música no aparelho de som. E quando ele punha para tocar: “Fátima” do Capital Inicial e Metal Contra As Nuvens” do Legião Urbana, ambas no repeat, eu sabia que iria acontecer... Era a nossa trilha sonora.

Meu irmão dizia querer matar a “velha porca” enquanto ela dormia e que queria “foder” nossa tia (irmã da minha mãe biológica) e prima (de 6 ou 7 anos). O plano dele era ir à casa delas, por algo nas bebidas delas para elas adormecerem. Depois ele voltaria escondido, tinha a chave da casa delas (minha tia confiava nele), e “foderia” ambas com elas dormindo.

Ele também fazia parte da Igreja Católica Carismática junto de meu outro irmão. E ele levava algumas crianças para casa após o catecismo. Ele dizia que às vezes passava com algumas crianças nos lotes vagos, casas em construção e que transava com elas. Por anos, eu me senti culpada, por não tê-lo denunciado. Até hoje me acho conivente, cúmplice desses abusos se eles ocorreram. Ele seria capaz de tê-los cometido? Sim! Ele poderia estar manipulando minha mente? Sim! Poderia ser tudo verdade? Sim!

Também passei a ver ele drogado penetrando a cadela belga e o cão rotweiller que eles tinham. Ele amordaçava a boca dos cães. E esfregar a glande no ânus dos gatos que eles também tinham. Tudo continuou. Às vezes, ele desencapava um fio elétrico, a parte de cobre à mostra, ligava uma ponta na tomada e a outra dentro do meu ânus.

NINGUÉM ACREDITA


Tudo isto durou até meus 16 anos. Quando ele me procurou uma vez, eu o enfrentei, ele insistiu e eu me defendi com uma faca dizendo que se ele viesse eu mataria ele. 

Neste momento, contei tudo ao meu psicólogo e estava tão farta que surtei e contei para todas as salas do terceiro colegial o que acontecia. Não aguentava mais ser chamado de: “maluco”, “doido”, “perturbado”, “arisco”, “irritado”, “nervoso”, “agressivo”, “antissocial”. Eu tinha motivos para ser e contei...


Precisei ir até a casa da minha mãe, por outros motivos, e ela me fez entrar, fechou o portão batendo na cara da minha mãe de verdade e do marido, dizendo: “Aqui pedófilo não entra!”. Ela sabia sobre os filmes que eu assistia. Depois ela me puxou até a cozinha e vomitou tantas palavras por mais de uma hora. Eu só me lembro de ficar na frente dela vendo ela mexer a boca e câmera lenta. Não me recordo desta conversa, a não ser do final.

“Você quis destruir a vida do seu irmão contando isto. A família tá pensando mal dele e se afastando dele. Ele tá perdendo amigos. Você fez isso, porque ele sempre foi querido por todos e você não, porque ele sempre teve muitos amigos e você não. Quem deve ter comido você também foi o marido da sua “mamãezinha”, mas você não denunciou ele igual fez com seu irmão, porque ele fez mais gostoso. Você não denunciou ele, porque seu irmão não te comia e arrombava tão gostoso quanto ele! Se você não tivesse gostado não teria virado uma “bichinha”, um “viadinho!”.




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Dei um tapa na cara dela. Ela deu outra na minha. Cuspi na cara dela. Ela cuspiu na minha. 
Paramos de nos falar. Cortamos relações. Depois reatamos e atualmente não nos falamos faz uns 6 anos.

CULTURA DO ESTUPRO


É interessante como há uma cultura do estupro, apesar de dizerem que não. É algo arraigado, intrínseco na sociedade.

Minha mãe biológica foi molestada a infância toda por 2 homens. Minha tia foi abusada pelo marido da tia dela (irmã do meu avô). Ele era pastor e dava aulas dominicais para as crianças e abusava delas. Fez minha tia perder a virgindade, a engravidou, a família descobriu, meu avô bateu nela, ela foi humilhada, expulsa de casa, passou fome e necessidades e acabou sendo acolhida em um prostíbulo.

Meu primo era filho dele. Temos quase certeza que ele molestou meu irmão que passou a reproduzir o que faziam com ele, como em um ciclo vicioso. Este pastor abusou de crianças e adolescentes, meninas e meninos por anos e anos. Acabou sendo pego quando mais velho, foi preso, estuprado na cadeia, foi internado e morreu.

O filho dele, advogado, matou com um tiro à queima roupa o melhor amigo que estava transando com sua mulher. Um dos filhos dele virou deputado e o outro vereador envolvido no superfaturamento e desvio de verbas da merenda da minha cidade. A violência se perpetua de geração em geração. Os abusos também.

MAS VOCÊ QUERIA


Anos mais tarde, estava na faculdade. E um dia, após a aula, numa sexta-feira fui à casa de uma grande amiga. Estava bacana, rimos, e ela chamou um cara que fazia parte daqueles motoqueiros “Os Abutres”. O cara levou um amigo dele que desde o começo começou a mexer comigo e me zuar. O “viadinho”, a “bichinha”, gosta de macho, safado. Ela precisou sair com o cara para buscar outra amiga.

Assim que eles saíram, o cara foi até mim e começou a me enforcar, me fez ajoelhar, e me puxou ajoelhada e pelos cabelos até a cozinha. Eu estava em choque, tudo voltou, e comecei a ver um filme em câmera lenta. Ele apertou meu maxilar, abriu minha boca e enfiou o pênis com tudo até o fundo da minha garganta. Eu engasguei e ele segurava minha cabeça e não me deixava afastar. Eu fiquei sem ar, engasgada. E ele dizendo: “Já que você é viadinho, você precisa aprender a obedecer seu macho. Gosta de macho, seu puto, leva rola então, bichinha!”.

Quando o choque passou eu empurrei ele, ele me bateu e eu fui saindo embora. Ele havia dito que iria comer a puta da minha amiga, depois a mãe dela. Quando eu estava saindo, lembrei que a filha de 4 anos dela estava dormindo sozinha no quarto. Eu hesitei e voltei. Não podia arriscar ele mexer com a menina. Ele disse que eu voltei porque queria dar para ele. Eu disse que voltei pela menina. Fui até o quarto dela. E disse que se ele tentasse entrar eu gritaria tão alto que vários quarteirões iriam ouvir.

Fiquei sentada na beira da cama dela, envergonhada, humilhada, com medo, chorando no escuro.


Quando minha amiga voltou, eu disse que estava no quarto e saí. Teria ido até lá, porque ouvi a menina chorar. Ela estava meio bêbada e não percebeu que eu estava com a face e pescoço avermelhados. O cara continuou a me humilhar, dizendo: “Já que você é mulherzinha, vai virar empregadinha. Vai pegar cerveja gelada na geladeira para o seu macho, seu viado puto!”. Eu quis contar o que tinha acontecido, mas ele discretamente fazia um sinal com a mão cortando o pescoço. Esperei minha amiga me defender das “brincadeirinhas” e ela ria junto deles. Não aguentei, me levantei e fui embora.

No outro dia ela me disse que eu não tinha espírito esportivo e não sabia brincar. Tudo que eu queria era uma palavra dela: “Não brinquem com meu amigo. Não xinguem e humilhem ele!”. Mas acho que era pedir demais.

Contei o ocorrido, ela ficou meio chocada e disse que conversaria com o carinha. O carinha conversou com o amigo e foi dito que eu caí em cima do cara, seduzindo ele e louca para chupar e dar para ele. A culpa caiu em mim, porque eu era o “viadinho” e “viadinhos” são tarados, pervertidos e “sempre” dão em cima de todos.

FALARIAM QUE EU PROVOQUEI


Anos depois, eu trabalhava numa loja de uma amiga. Ela não pagava salário para mim, eu trabalhava para ela, porque ela não tinha ninguém para ajudá-la. Acontece que e ajuda virou algo mais. Ela praticamente nunca ia à loja e eu ficava quase sempre sozinha. Um dia eu estava lá, atrás do balcão quando entrou um senhor, de mais idade, grande, suava muito e tinha um cheiro forte. Ele veio até mim. Perguntei se ele queria algo. Ele disse: “Você!”. Veio atrás do balcão e começou a passar a mão nas minhas coxas. 

Novamente entrei num túnel de flashback e tudo girava, eu querendo gritar e a voz não saía, muda, não acreditando estar passando por aquela situação de novo. Tirei a mão dele e ele começou a por as mãos em cima da calça, no pênis e querendo me levar para os fundos da loja. Eu quis gritar, mas falariam que eu provoquei.

Eu estava iniciando minha transição e diriam que eu provoquei, instiguei e ele como homem fez o que homens sabem fazer. Que eu que era a pervertida, “o traveco”, que meus shorts estavam curtos demais, (ninguém pensaria que era verão, minha cidade é um forno e faz 42º C), eu o seduzi, a culpa era minha.


Por sorte, uma cliente entrou, viu a cena, ameaçou gritar, chamar a polícia, expulsou ele. Ele disse que voltaria. Eu surtei. Chorava sem parar. Ela me acalmou, segurou minhas mãos, me deu água e me apoiou. Disse que se eu quisesse iríamos na mesma hora à delegacia. Eu disse que não levariam à sério. Agradeci muito a ela. Contei à minha amiga-chefa e ela nada fez. A loja era dela. Eu não queria envolver o nome da loja dela em um escândalo.

Dias depois o cara teve a desfaçatez de voltar. Eu ameacei com aqueles abridores de cartas, ele não acuou e foi mais incisivo, e para quem acha que Anjos não existem, eles existem. A tal cliente apareceu na mesma hora, nunca mais tinha visto ela após o ocorrido. E ela começou a falar alto, ameaçar. Ele, covarde, saiu correndo. Eu passei a trabalhar com calças compridas mesmo no verão infernal e sempre com uma adaga embaixo da mesa em que ficava. Sempre com medo que ele voltasse. Óbvio que ela se tornou uma grande amiga minha.

SÓ QUERIA CHORAR


Ano passado, em São Paulo, fiquei hospedada por uns dias no apartamento de um amigo. Era um apartamento coletivo em que quartos eram alugados. Uma noite eu saí, e quando voltei ele já estava dormindo. Eu não tinha as chaves da porta do apartamento. Ligava no celular dele para ele abrir a porta, mas o celular dele estava com o áudio estragado. Ele não atendia às chamadas do Whatsapp e nem às chamadas do celular. Eu chamava, mas ele tem o sono pesado e não acordava.

Então sentei no chão e decidi esperar até que alguém saísse de manhã do apartamento para ir trabalhar. Lá pelas 4:30 da manhã, 5 horas, um homem do apartamento vizinho, que era alugado por vários estrangeiros senegaleses, saiu. Ele começou a me cantar e eu ignorando. Então, ele veio passando as mãos nas minhas coxas. Eu estava sentada no chão. Depois, foi querendo subir as mãos para dentro do meu vestido, e eu segurando a mão dele. Ele tentou me beijar à força e eu segurei ele, afastei. Ele me pegou com força.





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Novamente, flashback, tontura, tudo rodando, “o que está acontecendo aqui?”, “por que está acontecendo isto comigo de novo?” Novamente, a culpa seria minha por estar no corredor em frente ao apartamento do meu amigo, por estar sozinha, por estar de vestido, por ser transexual. Ele que devia ter uns 2 metros de altura, era forte, tirou o pênis para fora e começou a se masturbar. Não tinha escadarias para eu descer correndo. O elevador ele estava barrando, ficando em frente. Eu estava presa, acuada. Ele veio querendo abrir minha boca e por aquela coisa enorme em mim.

Eu olhei para cima e tive um insight: na parede no alto tinha o roteador da internet do andar, eu disse a ele que as luzes piscando eram uma câmera e que nós estávamos sendo filmados e a síndica veria tudo. Ele acreditou, felizmente! Pegou o elevador e foi trabalhar. Não antes de pedir meu telefone, dizer que voltaria à noite, iria tocar a campainha para eu sair com ele.


Fiquei chorando até 8 da manhã, quando uma garota do apartamento saiu para trabalhar. Eu expliquei. Entrei e acordei meu amigo e contei a ele o que aconteceu. Ele se desculpou mil vezes por não ter ouvido o celular chamar, nem o Whatsapp e nem me ouviu chamar do corredor. Ele ficou furioso, revoltado, indignado. Disse que tiraria uma cópia da chave do apartamento para mim, para eu nunca mais ter de esperar no corredor. Disse que falaria com a síndica sobre o comportamento do vizinho. Eu disse que ela não acreditaria em mim e que seria apenas uma grande vergonha.

Eu só queria chorar, tomar mil banhos, me limpar, me sentia suja e dormir eternamente. Ele acabou me convencendo e descemos para falar com a síndica. Enchi-me de vergonha. A vergonha é tanta que a gente quer sumir; abrir um buraco no chão, entrar e se enterrar e nunca mais sair de lá; a gente quer desvanecer, evaporar. Meu amigo falou com ela e ela disse que se algum dos vizinhos fizesse de novo ela chamaria a polícia e expulsaria todos do prédio. Quando meu amigo voltou do trabalho à noite, ela disse a ele que já tinha conversado com todos eles e, claro, nenhum deles admitiu.


Foi a primeira vez que alguém me defendeu. Que um amigo me defendeu. Talvez vocês lendo este relato achem que é o mínimo que um amigo deveria fazer, que é o certo, que é o óbvio. Mas, nem sempre, o que deve ser feito, o certo e o óbvio é feito. O ser humano é surpreendente: para o bem e para o mal.

OS 33


Voltando ao caso da menina estuprada por 33 homens...
Talvez ela tivesse dito que subiria o morro e daria para a boca inteira...
Talvez esta tenha sido a ideia inicial...
Mas, a diferença entre plano das ideias e mundo real, concreto é imensurável.
Talvez de início ela tivesse querido fazer um ménage-à-trois, ou transar com 4 ou 5. Talvez até quisesse os 33.
Mas, imaginar um sexo coletivo e fazer é bem diferente...

Sexo pode ser a melhor e a pior coisa do mundo. Sexo se o homem não souber fazer, dói, machuca, dá vontade de parar. Transar com 33 com certeza dói, machuca muito e, dificilmente, alguém aguentaria esta maratona sexual, o corpo tem seus limites para aguentar dor, penetração e violência.

Sim, violência, porque com certeza eles não foram devagar, foram carinhosos e cuidadosos. Devem ter penetrado a garota como quem penetra um bicho, um animal, um buraco. Ela deve ter pedido para parar, e, se ela tivesse querido no início, e pediu para parar depois, foi estupro. A partir do momento em que a pessoa não quer mais e pede para parar já é estupro. Estupro é obrigar alguém a fazer sexo com você contra a vontade dela.

Estupro acontece pelos namorados, maridos. Se a mulher é obrigada a transar com seu parceiro contra a vontade dela e para “cumprir seus deveres de esposa”, configura estupro. Se a garota sai para uma balada, flerta, e vai para o seu apartamento ou para o apartamento do carinha com quem flertou e muda de ideia e ele a obriga, porque ela “provocou” ele a noite toda, configura estupro.


Se a garota estava drogada ou bêbada, também é estupro, porque ela não estava totalmente ciente do que fazia, não estava em seu estado de plena consciência sobre seus próprios atos. Eles abusaram de alguém que não era capaz de discernir o que estava acontecendo à sua volta.

Li muitos comentários que “ela queria”, “ela provocou”, “ela mereceu”, “ela é uma vadia”, “foi um gangbang malsucedido”, “ela só disse que era estupro, porque se arrependeu, porque as imagens se tornaram públicas”. Ninguém participa de um gangbang desacordada. Mesmo que a pessoa goste de uma pegada forte, se estiver ruim, doendo, machucando e ela pedir para parar e o cara continuar também é estupro.

Havia 33 homens que poderiam ter feito a diferença. Ou pelo menos um que dissesse: “ela tá bêbada ou drogada ou inconsciente, não está em total razão de si, não é correto”. Ele teria impedido os colegas de fazerem, teria pego a moça, chamado um táxi, posto ela nele e enviado para casa.

Sei que parece um sonho, uma utopia. Jamais aconteceria. Homens foram educados a serem “fortões”, “machões” e eles acham que provar masculinidade é transar com o máximo de garotas possíveis, é transarem em grupo, é não “desperdiçarem” a chance de transar com uma garota que julgam “fácil”, “puta”, não “desperdiçarem” a chance de mostrar que são potentes, viris, que são superiores à mulheres e que podem subjugá-las. Isto não é provar masculinidade: isto é provar machismo, misoginia, cultura do estupro. Esta está presente quando eles têm esses pensamentos e se acham donos de corpos alheios, mesmo quando estes corpos não querem pertencer a eles.

Fico também angustiada que, com certeza, foi um inferno, não estupraram a garota com a tecla “Mute” do controle remoto acionada. Como ninguém, vizinho, não achou o barulho, a baderna incomum. Não procurou fazer algo. Essas pessoas são coniventes, omissas, portanto, culpadas.

NÃO É SUA CULPA!


Eu resolvi fazer este relato para que as vítimas de abuso saibam que não são as únicas, não estão sozinhas, que a culpa não foi delas, mesmo que elas estivessem de roupas curtas, ou bêbadas ou drogadas, ou tivessem flertado inicialmente com o cara e ido para a casa dele ou dela junto com ele, mesmo que tivessem mudado de ideia, mesmo que tivessem pedido para pararem, mesmo sendo os namorados ou maridos delas.

A culpa não é sua! A culpa NUNCA é SUA! A culpa é SEMPRE deles, dos ESTUPRADORES! Denuncie! Mesmo com toda a vergonha e medo de ser julgada. Você será. Não será fácil! Mas, você não está sozinha! Estamos ao seu lado! Somos Muitas e Juntas Somos Mais Fortes!

Não importa se você for travesti ou transexual e querem estuprar você, porque você gosta de ser “mulherzinha”; não importa se você for homem trans e estuprarem você para corrigir e por você no seu devido lugar de “mulher”; não importa se você for cis e lésbica e estuprarem você para corrigir você “querer” ser “homem” e colocarem você no seu devido lugar de “mulher”; não importa você ser cis e gay e estuprarem você, porque você gosta de “pinto” por ser “viadinho”, não importa você ser homem cis e mulher cis héteros e estuprarem você para colocar a mulher em seu devido lugar de submissão e subjugação e provarem que são mais homens por dominarem homens mais “fracos” ou “indefesos” ou “afeminados”.

Não importa NADA!
NADA JUSTIFICA!!!
A CULPA NUNCA SERÁ SUA!!!
Você que sabe de casos de abuso, de estupro: DENUNCIE!!!
Você que é VÍTIMA: DENUNCIE!!!
DENUNCIEM!!!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

daniela disse...

Espero q a vida seja muito generosa c cv, para, ao menos, compensar um milesimo do q vc viveu! Vc e uma vencedora so de ter vivido isso e estar viva p contar. Espero q um dia o ser humano se torne Humano! Beijos no coraçao

Raquel Adrien disse...

Menina,ou vc tem um encosto muito do ruim,ou vc é linda de morrer né.Nunca vi uma pessoa ser tão assediada assim,o tempo,em todos os lugares.Ou vc esta mentindo,ou esta aumentando os fatos.Vez ou outra,acontece de eu me deparar com um pervertido na rua,ou na academia,ou sei lá aonde.Mas toda hora como vc?

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